“Dá o fora, macaca” ou a bananização do mal

Elizabeth Eckford, integrante do corajoso grupo de alunos negros que ingressaram pela primeira vez em uma escola de brancos, nos estertores da segregação nos EUA. As consequências que o grupo sofreu foram de insultos à violência pura e simples, como quando membros da parte branca da escola colocaram giletes no chão do vestiário que os alunos negros usariam, para que eles cortassem os pés.

Elizabeth Eckford, integrante do corajoso grupo de alunos negros que ingressaram pela primeira vez em uma escola de brancos, nos estertores da segregação nos EUA. As consequências que o grupo sofreu foram de insultos à violência pura e simples, como quando membros da parte branca da escola colocaram giletes no chão do vestiário que os alunos negros usariam, para que eles cortassem os pés.

Eu havia jurado não me meter nessa discussão. Sou darwinista demais para isso e não consigo entender a surpresa e o entusiasmo com que determinados representantes da espécie humana descobriram-se de repente membros da família dos hominídeos. Porém, as coisas não são tão simples assim (não simples como deveriam ser), como os incidentes de racismo no futebol não cansam de nos lembrar. O caso do lançamento de banana em direção ao jogador Daniel Alves, em Barcelona, na Espanha, veio apenas a acrescentar toques teatrais e espalhafatosos a uma realidade que é ao mesmo tempo intolerável e naturalizada. A indigesta demonstração de racismo, no entanto, suscitou uma campanha na mídia e nas redes sociais de combate a essa forma primitiva de ignorância científica e de estupidez humana, o que é sempre louvável, e com certeza centenas das pessoas que a ela aderiram estavam bem-intencionadas e honestamente indignadas contra a quantidade de sofrimento humano que a segregação por cor da pele gera. Mas será de uma campanha nesses moldes e com essa condução que precisamos?

Existe uma clara diferença entre a acepção do termo “macaco” em uma visão científica e sua inserção em um país racista e socialmente atrasado como o Brasil. Sou da teoria de que o não estabelecimento do discurso científico atende convenientemente ao objetivo de manutenção do racismo, que, por sua vez, é útil para a estruturação da sociedade desigual em que vivemos. O racismo coloca uma parte da população em vantagem “natural” (a branca, é claro) em relação à outra (a negra). Justifica a exclusão dos melhores postos de trabalho, diferenças salariais e a concessão de toda forma de indulgência às camadas brancas e altas, ao mesmo tempo e à igual proporção que essas indulgências são negadas às demais camadas. Esse não estabelecimento, ainda, está na base da muito mal-ajambrada estereotipização “positiva” do negro, que vai desde o “negro bom de cama” (leia-se, anatomicamente avantajado), tão caro a Jorge Amado, até o negro “criativo”, bom de samba, bom de carnaval, folclorizado e reduzido aos estereótipos sexualizados e objetificados para turismo sexual de europeias brancas de férias no Brasil (lembrando que, devido ao recorte patriarcal e machista da sociedade, a sexualização equivalente da mulher negra não pode ser chamada de positiva nem sequer entre aspas).

Curiosamente, os últimos e lamentáveis incidentes coincidem com o lançamento do livro de David Margolick, Elizabeth and Hazel: Two Women of Little Rock (ver link no final), em memória de um evento que marcou grande vitória do movimento pelos direitos civis nos EUA: o primeiro dia de aula de um grupo de estudantes negros na maior e melhor escola de ensino médio da cidade de Little Rock (foto histórica que ilustra este artigo). O fato de o embate racial ter sido mais declarado nos Estados Unidos não faz do Brasil um país menos racista, de maneira nenhuma. Por aqui, simplesmente não foram necessárias leis de exceção para garantir a exclusão. O código era velado justamente porque todo mundo o conhecia par coeur. Nos EUA, a educação era (e é) quase 100% pública (escolas privadas são caríssimas e poucas). A segregação “apenas” separava as melhores escolas públicas para os brancos e reservava as de pior qualidade para os negros. O movimento pelos direitos civis “só” tinha que acabar com a segregação, para que alunos negros atingissem igualdade de condições, frequentando as mesmas escolas que os brancos. A segregação por aqui foi muito mais eficiente, ao diferenciar ensino público de privado, em vez de segregar (teoricamente) as pessoas, colocando o obstáculo do poder econômico para manter a pirâmide no lugar onde ela sempre estivera, com ou sem abolição.

Remoção da favela da Telerj. A diferença entre uma favela carioca e um bantustão é irrelevante, com ou sem apartheid. Precisamos de muito mais do que o Luciano Huck mostrando o seu café da manhã para mudar isso.

Remoção da favela da Telerj. A diferença entre uma favela carioca e um bantustão é irrelevante, com ou sem apartheid. Precisamos de muito mais do que o Luciano Huck mostrando o seu café da manhã para mudar isso.

Mas o que consterna é saber que um dos insultos dirigidos a Elizabeth Eckford, então com 15 anos, no que deveria ter sido a sua entrada triunfal no ensino médio, foi justamente “cai fora, macaca”. A despeito do darwinismo e graças ao discurso científico que não foi assimilado, a população que, historicamente, recebeu a alcunha “macaco” para diminuí-la, insultá-la e justificar a sua submissão tem todo o direito de repudiá-la agora. Não, não somos todos macacos. A história dos Nove de Little Rock aproxima-se das nossas bananagens atuais em mais um ponto, desta vez constrangedor: de um episódio traumático de racismo, tudo “evoluiu” para um show de sensacionalismo midiático. Nos EUA, pela utilização exaustiva das principais personagens da foto (Elizabeth e sua algoz, Hazel Bryan) para variados fins ao longo das décadas que se seguiram. Por aqui, pelo espetáculo deplorável da entrada de agências de publicidade e celebridades sem visão social nenhuma em uma campanha pública das mais perniciosas já vistas. Seis milhões de anos de evolução só serviram para criar, após o Homo sapiens, o Homo cara de paulis, capaz de se aproveitar de situação tão vergonhosa para ganhar um cascalho vendendo camiseta.

Essa semana, fomos brindados com a capa de uma revista de grande circulação anunciando o fim do racismo (mesmo essa tese merecia defensores melhores). Pode-se situar o começo do discurso de negação do racismo em Gilberto Freire, que erigiu o conceito de “democracia racial”, hoje levado a sério apenas por jornalistas e articulistas petulantes, que ganham medalhinhas e são regiamente pagos para sustentar essa baboseira completamente alienada da realidade. Em suma, toda essa história está rapidamente ganhando ares de igualitarismo na versão canção de ninar para rico dormir em paz com sua consciência.

O fim do racismo na revista Veja. Será que alguém com renda inferior a 20 salários mínimos acredita realmente nisso?

O fim do racismo na revista Veja. Será que alguém com renda inferior a 20 salários mínimos acredita realmente nisso?

O que as reações à campanha, por parte dos realmente interessados no assunto, aqueles que sempre sofreram discriminação, revela é que a marca indelével da escravidão persiste, não como um dado histórico, como parte de um passado em relação ao qual já podemos não nos sentir responsáveis, mas como uma opressão bem tangível, que a maior parte da população brasileira (e de tantos outros países) sente. Na derme. Revela, também, que o discurso vitorioso em nossa sociedade foi o do racismo, e não o científico, e, portanto, chamar alguém de macaco é (extremamente) ofensivo.

Matéria da Piauí sobre o livro de Margolick:

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-62/anais-da-fotografia/odio-revisitado

Para uma posição, do próprio blog, mais incisiva contra a campanha das (ou dos) bananas:

https://transversos.wordpress.com/2014/05/03/cada-macaco-no-seu-galho/

Dois relatos recentes, muito significativos, sobre o racismo, especificando a questão da mulher negra. Considero leituras obrigatórias:

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/05/o-dia-em-que-desisti-de-ser-mucama-da-sinhazinha.html

http://daslutas.wordpress.com/2014/05/06/sobre-o-que-nunca-vivi-mariana-santos/

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Categorias: Política | 3 Comentários

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3 opiniões sobre ““Dá o fora, macaca” ou a bananização do mal

  1. ismael

    Uma visão extremamente sóbria acerca dessa hipocrisia brasileira, que é secular e cultural. Belo texto.

  2. Pingback: CLIPPING ESPECIAL – DAS LUTAS 3 | Das Lutas

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