Deus ex-machina no mundo como espetáculo

Para quem não lembra, deus ex-machina é um personagem inventado pelos gregos que entrava no final das tragédias – não todas- e resolvia o bololô do drama sem mais aquela. Estava aquele rififi, tremendo aperto, baita sufoco e lá vinha um guindaste gigante trazendo pendurado o personagem de um deus com a salvação da pátria. Ou a salvação apenas do herói, mesmo que ele não fosse lá um modelo de virtudes. Medeia, por exemplo, depois de tomar uns chifres espetaculares do marido Jasão, matou a rival, os dois filhos e foi salva por seu avô, o Deus Sol pois, como se diz, família é tudo.

“Está tudo nos gregos”, dizia a querida professora Maria Lucia, nos tempos que eu estudava essas coisas. A frase, apesar de menos verdade, também funcionava como um deus ex-machina para nossos papos cabeça sobre os sentidos da vida, naquele tempo em que a gente costumava levar o cérebro para passear nos botecos . Tempos em que telefone era ótimo para mandar recado e o assunto mais parecido com selfie, entre uma coxinha e outra, era o Self do Jung, para a gente especular variações do velho “conhece-te a ti mesmo”, daquele grego.

Somos todos gregos, foi a palavra de ordem que andou bombando em Portugal e Espanha, em 2011 e 2012, quando os Bancos resolveram fazer a rapa lá no berço de muitas ideias que circulam no Ocidente. Foi mais ou menos na mesma altura que a imprensa-publicitária do Murdoch e governos safados começaram a fingir que não lembravam que menos de dois anos antes a não- angélica Merkel tinha declarado em alto e bom alemão “ a crise de 2008 é assunto dos americanos, os europeus devem continuar a consumir, comprar, financiar e tudo estará bem, blá,blá,blá”. Só que em 2011, o “esqueçam o que dissemos” virou a nova ordem do dia e passaram a estampar em letras garrafais que os gregos tinham mais é que se lixar porque estiveram a viver “ acima das suas reais possibilidades”. Meses depois, os Bancos resolveram esticar seu rolezinho até a Península Ibérica e saíram vandalizando salários e empregos. Desde então, bancos, banqueiros e ricaços estão ganhando cada vez mais, comprando tudo a preço de banana e o povo naquela pindaíba, queimando pneus e quebrando umas vidraças, enquanto o deus ex-machina não vem. O que talvez não demore, pois as caras de pau dos governantes e os safados dos banqueiros começam a desdizer o que tinham dito antes e voltam a dizer que, não, sacrifícios não são a solução, há que promover a produção e o consumo.

Por aqui, a ideia do deus ex-machina sempre foi caríssima ao povo, embora na versão, mais popular, a dos milagres. E se milagre, assim nomeado, é criação católica que foi deixada de lado por Lutero – pai da Reforma- vejamos como foi resgatada e reformada pelas chamadas igrejas neo-pentecostais. Digo isso para que, simplificando bem a ideia, reparemos que a Igreja Católica atribui a santos e crentes excepcionalmente virtuosos a promoção de milagres mas o grande milagre é salvação eterna , que é como se fosse, com todo respeito, uma commodity a se resgatar apenas no além. Já para os cristãos das neo, em geral é uma transação terceirizada, paga à vista e que vale quanto custa : depositei os sacrifícios na conta, passa pra cá a salvação da minha lavoura no curto prazo. Se não rolar, troca-se de igreja e de pastor. Por isso também para muitos crentes pouco importa se, eventualmente, pastores enriquecem com suas doações. A adesão não é a esse ou aquele pastor, é a um Sistema que tem a prestação de serviço no âmago da coisa. Se você acredita no Sistema e os pastores orientam sua maneira de agir, não importa se é este ou aquele quem o opera. Se um banco lhe pagar bons rendimentos e lhe prestar bom serviço, quem é que vai deixar de usá-lo, mesmo sabendo que os lucros dele são extorsivos ou que o banqueiro é um salafrário? E assim, continuamos na crença que o mundo é assim mesmo, graças a Deus.

O mundo terá que comer muito feijão laico com farinha de democracia participativa antes das gentes, mesmo estas que se pensam esclarecidas, serem capazes de libertarem a esfera pública das superstições. No Brasil, onde o Estado de Direito nunca se instalou completamente e Ditaduras sucessivas nos fizeram um país tropical abençoado por Deus, o apego a elas é do tipo atávico. A fé nos sacrifícios, na submissão, a crença nos golpes de destino e de que se graças forem alcançadas os meios se justificarão, eis o que move muito de nossas vidinhas.

Nisso, as práticas das chamadas religiões afro-brasileiras e cristãs, em toda as suas vertentes, testemunham. Ebó, sacrifício, penitência, romaria, votos, promessa, ofertas, muito diferentes nos ritos, muito semelhantes em essência : roga-se aos deuses porque planos e ações humanas, sozinhas, parecem insuficientes para alcançar o que se deseja. Ou então porque se quer alcançar o que se deseja contra as probabilidades, evidências, lógica ou justiça. O pastor Ed René Kivistz sintetizou isto de uma maneira brilhante, dizendo que comercializar religião é melhor que vender droga: se não pegar na culpa, pega no medo, se não pegar no medo, pega na ganância. Daí que diante de tarefas muito difíceis ou situações muito dolorosas, seja infinitamente mais provável se ouvir por aqui : só mesmo pelo poder de Deus!, do que qualquer coisa parecida com : e então, por onde vamos começar o trabalho de transformar isso? Impossível não lembrar da minha avó dizendo que o preguiçoso trabalha mais.

Comecei a pensar essas coisas , esta semana, enquanto elaborava mentalmente uma lista dos problemas mais graves da contemporaneidade, apenas de ordem Política, problemas globais que considero mais graves – na busca de inspiração para as croniquetas semanais. Então me dei conta, ao chegar ao 10º problema, que a origem de 100% deles estava na financeirização do Sistema. Sobretudo porque é ele, mais que tudo, que impede o pensamento, a força, o engenho e a capacidade inventiva humana serem dirigidos para tarefas construtivas e necessárias, no plano local e global. Não há mais economistas capazes de demonstrar que o Sistema Financeiro seja algo além de uma Igreja que abriga Pastores a divulgar a palavra desse Deus que inventa a escassez em meio à abundância – mas o seu Poder se mantém intacto. Muitos são chamados a se submeterem à sua ordem mas poucos podem enfrentar sua Revelação. Esta escassez de tudo que importa, de fato, à vida humana, é obra de um Sistema Financeiro que dominou a vida e submeteu todos os valores humanos a um só : lucro. Lucro privado e tóxico, lucro que não alimente mas sufoca a economia real, lucro sem justificativa ou justiça. É o lucro que não passa de Milagre que permite aos Pastores obter muitas riquezas sem trabalhar.

Haveria um herói capaz de enfrentar este Sistema ou impedir que um deus ex-machina apareça sempre para salvar seus Pastores?

Cheguei à conclusão, nada original, de que o problema é que os Pastores não oram. Eles matam ou mandam matar os heróis e pagam para que intelectuais, cientistas, técnicos e trabalhadores de todo o tipo mantenham o guindaste sempre a postos.

 

http://ultimasonline2012.blogspot.com.br/2013/01/aaron-swartz-oextraordinario-hacker.html

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Deus ex-machina no mundo como espetáculo

  1. jorge

    Fiquem fortes e determinados para que nós possamos,quem sabe um dia nos livrarmos deste falho e velho sistema em que não haja mais nenhuma engrenagem em que não vejamos a falta de seus dentes a rirem ridicularmente dos problemas da simples gente que somos todos nós.Fiat lux!A nossa!Um abraço!

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