Adeus, razão. Ou “Deu PT no cérebro”.

Charge de Junião, publicada em 26 de agosto de 2009 em http://fasenefas.wordpress.com/

Charge de Junião, publicada em 26 de agosto de 2009 em http://fasenefas.wordpress.com/

Li, na terça-feira, a coluna de O Globo da autoria do senhor Marco Antonio Villa, com acusações ao PT, vaticinando sua derrota eleitoral e ponderando acerca das ações de desconstrução de tudo o que foi feito desde 2002. De fato, foi surpreendente perceber que os comentários que costumam surgir no portal G1 ganharam corpo e voz na coluna do diário carioca.

Marco Antonio Villa é o historiador e sociólogo que vendeu a ideia do Ditabranda. É a demonstração evidente de que tolices não dependem da ausência de diploma, ao contrário, podem sensivelmente elevarem-se a discurso sério com sua aquisição.

Ao contrário do que muitos julgam, não sou eleitor do PT, mas fico pasmo pela forma como se bate no governo. Um verdadeiro desfile de bobagens, dignas de um Febeapá próprio, sempre na defesa do conservadorismo e do Estado a serviço do capital.

O PT de hoje não merece defesa, mas devia apanhar à esquerda. O PT precisa perceber que abandonou há muito a luta dos trabalhadores e deve ser cobrado duramente por isso. Por outro lado, denunciar as agressões oportunistas de quem quer o poder a fim de vender o país e brincar de ver morrer de fome a população torna-se quase uma necessidade.

Destaco alguns trechos para provar que ou eu estou louco ou a imprensa abre espaço deliberadamente para promover as opiniões mais esdrúxulas contra o governo:

“Ter uma estrutura permanente de milhares de funcionários petistas foi uma jogada de mestre. Para isso foram necessários os concursos — que garantem a estabilidade no emprego — e a ampliação do aparelho estatal.”

A acusação aqui é a de que os concursos públicos para cargos públicos são uma manobra para o PT colocar seus “companheiros” no governo. Como assim? Quer dizer que quem passa em um concurso não faz por competência? Só petista passa em concurso? Será que a direita, que se diz tão inteligente, que se vê tão letrada, que diz ter estudado nos melhores colégios, que aparenta ter uma bagagem cultural elevada, não consegue passar em uma prova? Será que as bancas estão perguntando sobre Lênin? Será que os gabaritos são stalinistas? Mudaram a matemática? A gramática é sindicalista? Ou será que existe a insinuação leviana de que todos os concursos são fraudados?

O historiador (meus amigos historiadores estão com um embrulho no estômago), mas a formação do sujeito é em história, continua:

“O terceiro escudo foi formado na imprensa, na internet, entre artistas e vozes de aluguel, sempre prontas a servir a quem paga mais.”

Esse rapaz é um brincalhão. Faz algum sentido acusar, em uma coluna publicada em O Globo, a imprensa de funcionar como “escudo” do governo? Em que país ele vive? Que jornais ele lê? Os grupos de comunicação brasileira fazem sistemático ataque ao governo de forma, inclusive, irresponsável. Basta ver as manchetes de O Globo, a página do Uol do grupo Abril, ou a capa da Veja (não vou entrar no mérito das colunas assinadas no semanário direitista) para perceber que essa acusação é uma das maiores bravatas já escritas em toda a história de publicações do jornalismo brasileiro.

Quanto a artistas recrutados para a propaganda ideológica, há um verdadeiro acordo. Não sei até que ponto todos os artistas fornecem seu apoio a um partido ou campanha sem outros interesses. É claro que, restiringir isso ao PT ou criticar essa atitude de forma exclusiva ao partido governista beira à hipocrisia. Quem não se lembra de Regina Duarte dizendo “eu tenho medo” em 2002?

Mantendo a tenacidade, continuei a leitura, encontrando o seguinte trecho:

“As dezenas de milhares de militantes vão – se necessário – criar todo tipo de dificuldades para a implementação do programa escolhido por milhões de brasileiros. Aí — e como o Brasil é um país dos paradoxos — será indispensável ao novo governo a utilização dos DAS (cargos em comissão).”

Aqui, nosso intrépido opositor do PT, fala das ações que o novo governo (o mote é que a oposição vencerá as eleições) deverá tomar em sua gestão. Segundo ele, os funcionários públicos deixarão de fazer seus trabalhos por conta de uma oposição entrincheirada que se formará nas repartições públicas. Isso não é mera teoria da conspiração, mas a tentativa de justificar uma política de aparelhamento das estatais de forma direta.

Sim, a esquizofrenia chega ao auge quando se acusa o PT de “dominar” a máquina do estado e colocar a “companheirada” nas estatais (por meio de concursos públicos) e, contra isso, defende claramente o uso de indicações políticas (é isto que significa o DAS, o cargo em comissão: a ocupação de uma função pública sem concurso, pela livre nomeação por parte do dirigente) na máquina do governo!

Ou seja, nessa visão torta da realidade, concurso público é a forma de aparelhar o estado. E o governo sério é aquele que coloca para receber salário público pessoas que não fizeram concurso, pessoas indicadas politicamente pelo governo. Mas não era exatamente isso que se criticava no PT? Não é à toa a afirmação de que o Brasil é o país dos paradoxos: os oxímoros começam nas ideias que se apresentam. Em realidade, o que se faz aqui é uma ofensa sem tamanho aos servidores federais do país, um ataque à sua honestidade, ao seu caráter. É considerar que todos aqueles que passam nos concursos públicos padecem da mesma canalhice daqueles que escrevem em alguns jornais.

Seguindo na leitura, encontrei a parte em que se manifesta a ideologia da “direita divertida”, que faz afirmações sem conhecimento ou distantes da verdade apenas para aumentar a popularidade de seu discurso conservador:

“É bom não duvidar do centralismo democrático petista. Não deve ser esquecido que o petismo é o leninismo tropical.”

Em primeiro lugar, cabe a breve explicação do que é o centralismo democrático, característico de organizações de inspiração comunista. O centralismo consiste na discussão interna da organização sobre determinada questão, com defesas de posições diversas e a resolução, normalmente por votação, da posição única da organização. Assim, mesmo que internamente algum grupo defenda uma ideia diferente, todos se comprometem a adotar como sua a deliberação definida após o fechamento da questão.

O PT, ao contrário do que a direita divertida insiste em dizer, não é uma organização de inspiração comunista. Pelo contrário, é um partido cujo pluralismo de posições é uma característica tão forte que lhe redeu inúmeras críticas dentro dos fóruns dos movimentos sociais. São muitos os casos em que há tendências (forma como são chamados os grupos dentro do PT) concorrendo umas contra as outras na direção de entidades, tamanha é a divergência das opiniões. Dentro do partido, então, nem se fala! Só não há uma briga de foice pela direção, pois os petistas abandonaram tanto a foice quanto o martelo faz muito tempo.

Acusar o PT de ser leninista ou de tentar implementar uma república socialista no Brasil ou é sinônimo da mais pura ignorância política ou de uma inescrupulosa maneira de amedrontar a população quanto à verdadeira atuação do campo socialista ou comunista. O oportunismo eleitoral propicia o palco que é oferecido pela imprensa para que se vomitem quaisquer idiotices para a população.

A pior das situações é ver-se obrigado a defender o PT – que fez de tudo para ser criticado – apenas para mostrar que as críticas ao governo são inúmeras, mas que não podem, em hipótese alguma, dar margem ao oportunismo de quem quer fazer um novo trem da alegria nas empresas públicas e estabelecer o medo generalizado contra quem defende políticas sociais sérias (o que não é o caso – na maior parte das vezes – do PT).

Recuar, no entanto, não significa assumir como verdadeira a dicotomia eleitoral que tenta se impor: a do pior contra o menos pior. O momento eleitoral é favorável para se aprofundarem os debates acerca do que realmente importa: a organização do campo da esquerda nacional em busca da construção de um programa com alternativas para se apresentar ao país, que possa estimular e trazer trabalhadores e camponeses para o cenário das conquistas reais, frutos da união e da luta incansável de toda uma classe explorada.

 

Link da publicação em O Globo: http://oglobo.globo.com/opiniao/adeus-pt-12388207

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Categorias: Política | Tags: , , , , , , , | 4 Comentários

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4 opiniões sobre “Adeus, razão. Ou “Deu PT no cérebro”.

  1. Equívoco Humano

    Este texto foi meu pior aproveitamento de 4 minutos na minha vida, quer sentar no colo do Lula? Não fica dando voltinhas senta logo de uma vez!!! 39 Ministérios, médicos comprados de Cuba “sem revalida”, Petrobrás, Mensalão, Porto em Cuba. Só pode estar a soldo, ridículo.

    • Rodrigo Miguez

      Levou só 4 minutos pra ler? Deve ser por isso que não entendeu.

      • Equívoco Humano

        Rodrigo Miguez:
        Vou te explicar o que eu não entendo: como se faz crítica passando mão. Sempre este papinho sou contra o PT, mas não inventaram a corrupção. No texto tem escrito:”A pior das situações é ver-se obrigado a defender o PT – que fez de tudo para ser criticado – apenas para mostrar que as críticas ao governo são inúmeras, mas que não podem, em hipótese alguma, dar margem ao oportunismo de quem quer fazer um novo trem da alegria nas empresas públicas…”, e o que foi feito na Petrobrás? É tão ridículo quanto a tese do concurso público, que ele diz que leu, eu não li. Inchaço de funcionários públicos, acho difícil que seja por concurso público, já que temos 39 ministérios, se isso não for para captar apoio político(mensalão oficial) e para lotar de CC, eu não sei para o que é. Se me convencerem da necessidade do Ministério da Pesca(compra de lanchas???), minha vida vai mudar muito. Não entendo como se faz saúde, importando e pagando por médicos, sem revalida, de Cuba. Médicos sem nenhum controle de formação para quem mais precisa? Pode ser veterinário, pajé, enfermeiro, não precisa muito, qualquer coisa serve e pagamos 70% do valor para os companheiros Castro, isso é política social? Mensalão, nem vou falar muito pois todos concordamos que não foi um julgamento midiático só não entendo como o Mandante(Zé Dirceu) recebeu menos pena que o Executor(Marcos Valério). Aliás não levo mais a sério quem defende os petistas mas não defendem o Marcos Valério. Porto em Cuba, deve ser porque aqui no Brasil não existem necessidades em infraestrutura, aliás para que investir no Brasil, estamos em pleno emprego. E a copa né, os maiores doadores de campanha são as grandes empreiteiras. Aí eu começo a entender por que o Lula insistiu nas 12 cidades sedes, para construir estádios. Quase R$ 2 bilhões para fazer o Mané Garrincha, teve estádio praticamente do mesmo tamanho que custou R$ 475 milhões. Segundo um outro autor deste site o bolsa família é sucessor de um bolsa escola criado pelo FHC, então o PT não foi o inventor das bolsas. Também não acredito que nenhum partido acabe com nenhuma bolsa, aliás acho inclusive que ampliarão as bolsas, não por bondade mas porque uma atitude contrária seria um suicídio político O que eu não entendo é como não enxergam o trem da alegria atual, não acredito em burrice, não acredito em cegueira(Lula mensalão), mas acredito em soldo. Ninguém é mais fiel que um homem comprado. Além do mais quando alguém faz a opção pelo bandido por ser um mal menor é porque a sua própria moral se corrompeu. Quando faz batendo e assoprando é por covardia, não teve nem a hombridade de se alinhar com a camarilha que defende. Finge ataques para depois dizer, “achas que é um texto defendendo o PT?”, para quen ataca. E para os Prós diz “mas também tem políticas sociais sérias”. Enquanto isso, o Trem da Alegria segue dilapidando o Brasil, Viva a copa do mundo:https://www.youtube.com/watch?v=N80f0IxsBbQ

  2. Alexandre Bollmann

    Mais um texto muitíssimo bem colocado, embora não sei se há tanto proveito em ficar dando voz a essa gente estúpida. Por isso, fico om o final, que pra mim é o que realmente importa: “O momento eleitoral é favorável para se aprofundarem os debates acerca do que realmente importa: a organização do campo da esquerda nacional em busca da construção de um programa com alternativas para se apresentar ao país, que possa estimular e trazer trabalhadores e camponeses para o cenário das conquistas reais, frutos da união e da luta incansável de toda uma classe explorada”

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