Apito inicial : texto do convidado Marcio Barros*

 

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joao estava na fila para comprar o seu ingresso para assistir ao primeiro jogo do brasil na copa do mundo de futebol, que seria celebrado em seu país depois de 64 anos da derrota vexaminosa e fatídica para o Uruguai de então. Vestia sua bermuda jeans recentemente comprada num das melhores lojas da zona sul do Rio de Janeiro. Passeava no shopping Rio Sul, com sua carteira vazia, mas cheia de cartão de crédito, perambulava pelos corredores iluminados e cheirando à lavanda fresca. As luzes intercalavam-se entre frias e quentes, as vitrines promocionavam suas prendas como ÚNICA OPORTUNIDADE. O peito se enchia de alegria, a euforia misturada à adrenalina de poder ter na mão um pedaço de papel que lhe permitiria ver a seleção brasileira em campo. É verdade que não era a mesma seleção de outrora, não tinha Didi, com seu maravilhoso tiro de folha seca, um potente chute desferido pela perna esquerda ou direita, não me lembro agora, o importante aqui era a potência daquele corpo negro para chutar uma bola que quase sempre era convertida em alegria para o povo. Não tinha Garrincha, desacreditado por todos devido à sua má formação congênita nas pernas. Esse sem crédito seria considerado um gênio do futebol. Nunca foi parado pelos adversários, senão com pernadas desferidas com raiva e vergonha da humilhação sofrida segundos atrás. Era incontrolável, burro, analfabeto, bêbado, alcoólatra e superava tudo isso em campo. Fazia com que as pessoas se esquecessem da sua dependência e o chamassem de O GÊNIO DAS PERNAS TORTAS. Não tinha Pelé, Amarildo, Zagalo, Gérson, Manga, Vavá. Não tinha João Havelange.

Não tinha estádios padrão FIFA.

Mas joao estava ali, no shopping para comprar seu presente pessoal, um ingresso para o jogo do Brasil, fosse qual fosse, desde que no Rio de Janeiro. Quando joão se deu conta, ao seu lado esquerdo estava ela ali, cobrindo o corpo frio e branco do manequim. Detalhes que não tinha visto antes em nenhuma outra, cortes e acabamentos inovadores, comprimento abaixo dos joelhos e era de jeans, como ele sempre quis comprar e não pôde, mas agora joão tambem não podia, porque também, como antes em toda sua vida, não tinha dinheiro, mas joão tinha uma carta na manga, ou melhor dizendo um cartão na carteira. Entrou e aproveitou a oportunidade única e comprou em 12 vezes sem juros. Viu também enquanto pagava a sua bermuda dos sonhos, uma camiseta de botões com a estampa em xadrez azul e vermelho, baixou o olhar e viu também um tênis de marca internacional, meias, olhando mais detalhadamente via que aquele manequim ao lado do caixa estava vestindo sua bermuda ainda não comprada. Imaginou que com todos esses apetrechos e prendas, tudo estaria perfeito e assim o fez, levou tudo, camisa, meia, carteira, mesmo já tendo a sua na mão, bermuda, óculos de sol com lentes azuis. Pagava em 24 vezes com juros ou podia optar em permanecer em 12 vezes sem juros e subir o valor da mensalidade. joão que quase se esquecia o porquê estava ali, que era para a copa ou ao menos para seu ingresso de um jogo, pensou rapidamente e optou por 24 vezes com juros de 35% para que sobrasse crédito para a compra do seu ingresso. Saiu da loja diretamente para o stand da FIFA, para não cair mais em tentação.

Uma entrada, por favor,

300 reais, senhor.

Dessa vez sem pensar, sem titubear, joão deu seu cartão de crédito e efetuou a compra como se estivesse indo ao hospital ver o nascimento do seu filho. Retirarei essa comparação porque a mesma me lembra que o primogênito de joão havia nascido em um hospital público, sua mulher, já em trabalho de parto, se contorcia de dores sentada em uma cadeira fria e descascada pelo uso de numerosos corpos que ali se sentaram. Daria à luz ali mesmo, traria ao mundo josé da silva, que teria a primeira experiência fora do útero, o chão gelado e sujo do hospital da cidade. Vou associar sua alegria ao primeiro certificado de formação estudantil dele mesmo. Desculpem-me, mas tenho que retirar essa comparação também. joão não era analfabeto, mas também não tinha formação nenhuma. Estudou até a 4ª série e teve que deixar os estudos para poder ajudar sua mãe em casa, com a comida e os afazeres domésticos. Seu pai tinha sido assassinado na famosa Chacina da Candelária quando testemunhava perplexo que aqueles que foram destinados a nos proteger atiravam em seus amigos ainda no gozo do sono. Via que corriam os que podiam e também assim o fez. Nada mais a fazer além de correr. Sentia que algo o atingira pelas costas e queimava seu peito quando percebeu um segundo impacto da sua cabeça, apagava-se toda a claridade de seus olhos, não deixando tempo nem para pensar em joão, que ainda não tinha nascido e apenas era gestado por sua mãe Ludimila, em seu útero, cálido e confortável.

Seu ingresso, senhor.  Bom jogo!

Obrigado, dizia joao com um pedaço de papel na mão como se fosse o seu primeiro carro.

Sei que começo a ser repetitivo, mas não estou tendo sorte com minhas comparações de sentimentos do nosso personagem joão.

o caso é que joao também nunca teve um carro, nem mesmo um fusca. Sua bicicleta foi donativo de uma instituição filantrópica, quando essas ainda existiam.

Sempre utilizou o transporte público, ônibus, trem, viu todas as mudanças desses, as boas e as más. Viu o motorista cobrar a passagem, colocarem a inovadora catraca, o amigo do motorista que agora cobrava as passagens por ele. A mesma catraca ir para frente e para trás com motivos de melhorias do transporte utilizado. A única melhoria que assistia pacificamente, por crer não ter forcas para dizer que não, foi a do aumento das passagens e o da conta do banco dos donos de empresas de ônibus.

joao saía do shopping center, feliz da vida por ter nas mãos um precioso e inesquecível ingresso da copa do mundo de futebol. Foi caminhando ate o ponto de ônibus e ali pegaria o que fosse ao seu destino, chamado lar.

O jogo aconteceria às 20h, sendo ainda 13h da tarde teria suficiente tempo de ir a casa e tomar um banho frio, porque não podia se permitir o relaxante banho quente já que não tinha a luz em dia e o serviço temporariamente estava cortado por  uma fatura  de 256 reais. O ônibus chegava no ponto exatamente junto com joão que mexia nos bolsos da bermuda nova em busca de moedas para a passagem que já chegava aos 3 reais. Pagou ao motorista e se sentou na terceira fila da direita, ao lado da janela, que lhe dava uma vista privilegiada do que acontecia lá fora. Passando pelo campus de Comunicação e Radialismo da UFRJ, sempre lembrava que seu desejo de menino era ser professor. Queria lecionar, ensinar e perceber que em algum lugar ele era admirado e também o centro de tudo. joão da silva, professor de comunicação. Pensava que poderia ajudar aos que não podiam ter uma boa educação, e na curva para a esquerda que fazia o ônibus em direção ao centro da cidade, lembrava que essa profissão que tanto almejava, era agora esquecida pelo governo. Tinha a consciência de que não valia a pena financeiramente ser hoje professor, senão por amor.

Chegava depois de 35 minutos ao seu destino no bairro de São Cristóvão, tempo recorde para uma viagem que normalmente demoraria ao menos mais 30 minutos. Entrou em casa correndo e já tirava a blusa com muito cuidado, a bermuda jeans como se fosse a roupa íntima de um deusa, para que nada de mal a passasse. Entrava no banheiro e cada gota gelada da água sem energia que caía na sua face, despertava ainda mais a alegria e euforia de poder ir ao estádio assistir à seleção. Saiu de casa em disparada indo em direção ao estádio do Maracanã, no bairro vizinho. Foi a pé para economizar um pouco mais de dinheiro. Hoje já havia se sobrepassado os gastos. Caminhando pelas ruas de São Cristóvão, via as pessoas felizes, ansiosas, diante da TVs dos bares e lugares que transmitiriam o jogo primeiro da Copa. Um em especial chamava sua atenção, o mais cheio de pessoas que os outros, mais alegres com mais algazarras. Tinha nesse TRIGO DA CANCELA, assim se chamava, uma grande TV de 64 polegadas, sistema de som espalhado pelos cantos do local. Impressionado, olhava o relógio e decidiu se apressar porque já se faziam horas para a partida. Cruzou a rua e entrou na Quinta da Boa Vista. Por ela cruzaria até o imponente e renovado estádio de futebol, Maracanã, agora com o padrão FIFA.

Levava nada mais que 100 metros dentro do parque quando foi surpreendido a cassetadas pelos policiais que passavam correndo em direção aos que estavam mais adiante. Sem ainda entender o porquê, via de longe um corre-corre e bombas de gás lacrimogêneo saltando por todos os lados. Tentou se levantar ainda zonzo, passou a mão direita na nunca e sentia o sangue quente escorrendo pelas costas. Olhou que entre seus dedos tinha uma massa escura não identificada, mas antes que pudesse levar as duas mãos outra vez a cabeça, bruscamente e sem nenhuma explicação estava sendo algemado pelos policias que vinham atrás dos que lhe haviam golpeado.

O calor insuportável do camburão negreiro trazia a joao o desespero de ter tomado a decisão errada de ir pela Quinta, a cabeça doída horrores. Não restava mais que esperar chegar na delegacia e explicar o mal entendido ainda em tempo de poder ir ao jogo.

Pensava que coisa pior podia acontecer a um cidadão de poucos recursos neste momento. Lembrava da sua conta de luz atrasada e que, com o mesmo valor do ingresso, podia ter pago um serviço de 30 dias em vez de um prazer de 90 minutos.

No estádio, tudo pronto.  A presidenta olha o relógio, passa um olhar autoritário para os de ao lado, ministros, embaixadores, ex- jogadores de futebol outrora queridos e atualmente odiados, chefes de estado, outros presidentes de outros países. joão saía do camburão e entrava na delegacia, com o olhar assustado e fixo em um senhor de terno e gravata rosa no fundo da sala e pensou: a esse explico tudo e estarei solto rápido.

No estádio, construído com milhões de reais do dinheiro público que foram desviados da educação, saúde, escolas, hospitais, professores e formação de qualidade profissional, se levantava a nossa presidenta e autorizava o apito inicial do jogo.

*Marcio Barros, carioca quase 40 anos, mangueirense, botafoguense e amante da literatura portuguesa. Gosta de mitologia de uma maneira geral, grega, egípcia e nórdica. Adora cozinhar e ler um bom livro. Escritores preferidos, entre tantos, Machado de Assis, Fernando Pessoa e José Saramago.

 

 

 

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