STF, impunidade, pesos, medidas

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No dia 24 de abril deste ano, o ex-presidente Fernando Collor de Mello foi absolvido pelo STF, por falta de provas, de todos os inquéritos, petições e das quatro ações penais que haviam culminado no escândalo de corrupção que levou ao seu impeachment, em 1992. O ex-presidente acusado de enriquecimento ilícito (alguém se lembra das cascatas da Casa da Dinda?), o ex-presidente do sequestro da liquidez, da demissão ilegal de funcionários públicos, da segunda abertura dos portos, saiu-se bem no fim das contas. Não amargou um único dia de prisão, teve os direitos políticos cassados por dez anos (não fizeram falta para ninguém) e ficou por isso mesmo. Hoje, ele é senador pelo depauperado estado de Alagoas e goza das prerrogativas e imunidades desse cargo.

Os mensaleiros, responsáveis pela compra de votos para aprovação de projetos de interesse do governo (grande novidade no país – a emenda da reeleição do presidente Fernando Henrique saiu de graça), estão presos. A imprensa, que outrora investigou incansavelmente o caso Collor, não pareceu importar-se muito com a sua absolvição no STF em tempos presentes.

A notícia da semana é a escalação de um diretor-executivo de revista de grande circulação (aquela-cujo-nome-não-se-fala-porque-traz-azar), Otavio Cabral (casado com a editora de um jornal de grande circulação nacional), para orquestrar (prefiro o termo “formar quadrilha”) a campanha de um cidadão chamado Aécio Neves à máxima governança de um país que parece ser ingovernável. Este último, por sua vez, viu-se involuntariamente atrelado ao caso de polícia que entrou para os anais sob a alcunha de “caso do helipóptero”.

O caso em foco agora, se não fosse verdade, seria uma piada pronta. O “helipóptero”, com meia tonelada de cocaína, pertencia a um grande empresário mineiro e senador por Minas Gerais, aliado de partido (PSDB) e amigo pessoal do supracitado presidenciável. A imprensa, a justiça e a polícia rapidamente se desinteressaram do caso. A cocaína literalmente caiu do céu, e o único quase condenado foi o piloto. Sempre se soube que os grandes responsáveis pelo tráfico de drogas são políticos, juízes, delegados etc., e que o resultado brilhante desse lucrativo comércio transnacional (320 bilhões de dólares segundo estimativa da ONU) não fica com traficantes de pé rapado no alto de favelas. Vejamos o que é possível fazer com meia tonelada de cocaína.

Meia tonelada = 500.000 gramas. Vendida a porções de um grama (em termos de cocaína, uma quantidade generosa), além de atender às necessidade de meio milhão de usuários, ao preço de 100 reais, isso daria 50 milhões de reais em receita. Agora, no campo das suposições, digamos que essa meia tonelada original fosse “batizada”. Sabe-se que a droga chega ao consumidor final muito misturada. Talvez não seja exagero supor que, no mercado, essa quantidade inicial seria multiplicada por seis, o que daria: 3 milhões de gramas para vender, 3 milhões de usuários atendidos e uma receita de 300 milhões de reais.
O piloto do “helipóptero” foi por fim absolvido (a meia tonelada de cocaína não pertencia a ninguém, foi parar lá por extravio, desses que acontecem com malas em aeroportos em filmes de comédia de terceira categoria). O caso do “helicóptero da alegria” foi enterrado junto com o jornalismo investigativo (ou pelo menos foi o atestado de óbito do jornalismo investigativo imparcial). Agora, o recém-liberto piloto está escondido, temendo por sua vida. É compreensível em um país em que as pessoas não parecem dar muita bola para o crime de queima de arquivo. Foi assim com um sujeito chamado… PC Farias. Quem sabe em que termos se daria a absolvição do famigerado Fernando Collor de Mello caso seu tesoureiro e parceiro de crimes estivesse vivo, para ser convidado a depor e para cumprir outros pequenos rituais jurídicos congêneres.

Agora, imagine se fosse o amigo de um amigo de um vizinho do Lula com uma ponta de maconha… Quero deixar bem claro aqui que não estou defendendo a lisura de ninguém (até porque não há), mas que existe uma clara diferença de pesos e medidas, só um cego não vê. Ou alguém acha que a meia tonelada de cocaína do helicóptero da alegria era para “consumo recreativo” de alguns empresários e políticos mineiros de projeção nacional? Ou, ainda, que o Collor, coitado, foi vítima inocente de alguma conspiração elaborada pela Grande Irmandade Branca? Entre falta de provas e embargos infringentes, em breve estarão todos soltos, e no Brasil todo mundo é inocente (não adianta, como tivemos a oportunidade de acompanhar, correr para os ministros do Supremo).

Mas e a imprensa nisso tudo? O papel da imprensa, em qualquer país ou regime, deveria ser o de fazer exatamente esse tipo de cobrança do poder público. Cobrança por clareza, honestidade e competência no uso do dinheiro da população. O problema, no entanto, é que nunca houve liberdade de imprensa no Brasil: ou ela é francamente censurada por alguma ditadura, ou ela está conglomerada nas mãos de umas poucas famílias que ainda são mais ou menos as mesmas desde que Samuel Wainer escreveu “Minha razão de viver”. Aí vinga a velha máxima: “Aos amigos tudo, aos inimigos algo mais do que o rigor da lei”. E quando a imprensa abre mão desse seu papel, ela se avilta, se retrai e se diminui, e perde sua razão de ser. E quando ela privilegia seus grupos de partido e de classe, coloca-se contra os interesses do país e do povo.

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “STF, impunidade, pesos, medidas

  1. Equívoco Humano

    O texto ia bem até chegar no vizinho do Lula, o que eu discordo. O Lula, o Sr. sabe nada inocente, teve um filho que passou de auxiliar de zoológico a mega empresário, segundo o Lula um Ronaldinho dos negócios. Só se forem negócios excusos, uma aquisição de de debêntures de uma empresa recém aberta, conversíveis em ações para mascarar a compra, uma empresa de telefonia e largas linhas do BNDES deixam bem claro o esquema bem armado para o enriquecimento do Filho, bem mais que vizinho, do sr. Lula. E o STF? PF? Procuradoria Geral da República? Pois é. E quando um resultado de um julgamento do STF não serve que se faz? Troca-se a composição do ministério, os novos são indicados pela Dilma. cria-se uma figura de embargos infringentes, nunca usado nesta instância, e se julga de novo. Transforma uma quadrilha em grupo de reza. Aliás alguém me explica os critérios de julogamento, ficou estabelecido que Zé Dirceu era o Mandante do esquema, Marcos Valério o Executor, como pode a pena de Marcos Valério ser maior que a do Zé Dirceu? É como prender o piloto do helicóptero(Valério) e soltar o traficante(Dirceu)? O Procurador(engavetador) Geral da República não ofereceu denúncia contra o Lula, quando Marcos Valério afirmou e mostrou o pagamento de R$ 100.000,00 de despesas pessoais do ex-presidente, fora o fato que ele foi o principal beneficiado do esquema do Mensalão. O Valério e o piloto do helicóptero estão com medo, tem medo de sofrer o mesmo destino de PC Farias e de Celso Daniel. Então a cegueira da justiça é a única coisa comum a todos os partidos. Mas não sejamos inocentes, quem tem primazia na cegueira, é quem que indica a composição do STF e os Procuradores do MP. Por fim, esperar alguma coisa da imprensa, como se existisse imprensa independente em algum lugar. Alguns puxam para o Aécio, outros para o Lula, depende de onde vem o “cascalho”.

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