Novos e velhos costumes ou porque não gosto do #nãovaitercopa

Os linguistas afirmam que a linguagem é o sistema dos sistemas. Ela é que constitui o que mais importa da vida simbólica, porque a língua é o principal sistema de organização da subjetividade – o nosso lado de “ dentro”- e é ela também que torna possível os homens se comunicarem. E é só pela comunicação que os homens são capazes de criarem juntos, entre si e para si mesmos, o mundo que habitam e deixam a seus descendentes – como nenhum outro animal. Bahktin, um dos meus linguistas preferidos, formulou algo desta ideia em linhas memoráveis

“Tudo o que me diz respeito, a começar por meu nome, e que penetra em minha consciência, vem-me do mundo exterior, da boca dos outros ( da mãe, etc.), e me é dado com a entonação, com o tom emotivo dos valores deles. Tomo consciência de mim, originalmente, através dos outros: deles recebo a palavra, a forma e o tom que servirão para a formação original da representação que terei de mim mesmo. Elementos de infantilismo na autoconsciência ( “ Será que mamãe gostaria de mim assim…”)às vezes persistem até os nossos últimos dias ( a percepção e a representação de si, do próprio corpo, do próprio rosto, do seu passado, num tom enternecido). Assim como o corpo se forma dentro do seio (do corpo) materno, a consciência do homem desperta envolta na consciência do outro”.

E com estas ideias ele prossegue, dizendo que graus variáveis deste infantilismo ocupam nosso inconsciente. Com o passar dos anos, é claro, nossa consciência, vai sendo impregnada de outras consciências e vivências, vai elaborando suas próprias fórmulas, certezas a respeito de si e do mundo. Inclusive enganos, auto-enganos e mentiras. Mentiras assumidas como verdade que também orientam nossas vivências, novas consciências de si e do mundo, é claro.

E antes que pensem que estou devaneando por devanear, esta crônica é curtíssima e tem a ver com este prólogo. É que há tempos prometi, para algumas pessoas, falar por aqui da minha opinião sobre essa palavra de ordem que alguns movimentos sociais adotaram, o “nãovaitercopa”. Achei, como disse a vários ativistas, que foi um péssimo slogan para reinvindicações todas justas : denunciar a precariedade em que ficaram os “removidos”, reivindicar justiça para eles (o cumprimento da lei, nada mais que isso!) e expor as falcatruas do poder privado, que enfia a mão no dinheiro dos impostos, enquanto grita que o Estado não presta, (mas largar de mamar do dinheiro público, nem pensar).

Eu pensava, e ainda penso, que é uma “palavra de ordem” despolitizadora dando poleiro, como deu, para todo tipo de papagaio de pirata. Deslocou, com se viu, o debate para o campo das paixões, ao invés de aprofundar o debate político. Eu pensei que não tinham levado em consideração uma coisa importante. Somos um país conservador, autoritário e grande parte da nossa população adulta é infantilizada. Sendo assim, a palavra de ordem iria ecoar, como ecoou em muitos ouvidos, como aquelas frases maternas: (não fez a lição de casa?) Não vai ter sobremesa ! (não se comportou direito?) Não vai ter cinema! Daí muita criança repetir só para experimentar este lugar da “autoridade”. Daí também ter tanta gente magoada, triste mesmo, como ficam as crianças contrariadas. E crianças contrariadas não escutam nada mais que a gente tem a dizer. Continuo achando que mais despolitiza a questão que outra coisa.

Por outro lado, admito. Com a ditadura da mídia que temos, é quase impossível colocar na agenda nacional qualquer pauta que não interesse ao Poder Econômico. Em um país conservador e um Estado sempre disposto a lançar mão da máxima força para reprimir os fracos, sempre disposto à máxima leniência com os fortes, que outro apelo ou argumento poderia melhor despertar a atenção da chamada “opinião pública”?

O que está feito não está por fazer. Vai ter Copa mas ninguém mais pode alegar ignorância. Quem está pagando, de verdade, a festa são as duzentas e cinquenta mil pessoas, parte dos que menos têm, dos que menos podem. Os últimos a serem ouvidos, os primeiros a apanhar. Tudo dentro da nossa velha tradição. Por isso, os amantes do futebol e da festa nacional, não precisam se preocupar com a festa estar demorando para esquentar. Podem esperar que quem não se animar na base do álcool, vai estar nas ruas tomando porrada até ficar quente. Tudo dentro da velha tradição.

Meu palpite é que apenas os que estão salivando para tirar casquinha dos flagelados correm o risco de ficar decepcionados. E tem mais : gritar “ escola e hospital padrão FIFA” não é uma boa ideia. Mesmo porque é tudo que o Poder Econômico quer que eles sejam –mas sobre isso, falo outro dia.

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Categorias: Sociedade | Tags: | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Novos e velhos costumes ou porque não gosto do #nãovaitercopa

  1. Ana, possivelmente, não concordo com tudo, incluídas aí as premissas linguísticas. Mas, é uma bela reflexão, de fato. Parabéns! Acho que conseguiu pegar no ponto.

    • Estou aberta aos desentendimentos como um rosto, Anderson ( essa aí é a definição de poeta do Manoel de Barros,rsss). Não me arvoro a poeta mas aprecio o debate. Faça os reparos que entenda profícuos, amigo, que entender e entender-se não tem fim. Desde sempre, grata pela leitura atenta.

  2. Pingback: Não vai ter Copa, mas que a seleção brasileira se lasque… | transversos

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