O Tatu e a Taça

Tudo começou com o sabiá. Depois vieram o papagaio, via Disney, as araras, via Dona Miranda, o mico leão, o boto, até o cão vira-lata. Mas eis que chegou a hora e a vez do tatu. Bola e tudo, em sintonia com o tema-mor do país. O bicho certo, no lugar certo, na hora certa. Tudo perfeito. Mais do que uma alegoria a se concretizar, um sinal divino, via a pressupostamente habitual sabedoria da tal Mãe Natureza.

tatu bola

[Sei que a piada é infame, mas não resisti…]

fulecofuleco2

Ah, Tatu… tanto falam do ornitorrinco, mas tá aí um mamífero esquisito também, não? Com carapaça e tudo. Único animal, além do ser humano, a adquirir lepra. Insetívoro, é capaz de ingerir mais de, numa única noite, mais de 8500 insetos. O grande exclusor de cotias. O Tatu rala, aliás, rala e rola, como boa bola.

 

E logo o Tatu, consagrado símbolo de atraso, de atavismo; taí o Jeca Tatu de Monteiro Lobato que não nos deixa mentir. Tudo bem que o velho Lobato é uma referência de conservadorismo, em variados matizes, em nossa história cultural, mas lá estava o símbolo do tatu, sobrenomeando a caricatura caipiresca do atraso, da ignorância, da limitação.

jeca tatu 2Mas, tudo passado. Agora, o Tatu é bem outro. Coisa moderna: um Neotatu, desse brasilzão besta e abestado.

E a Taça? Objeto de adoração, de devoção! Quantas peregrinações a ela seriam feitas no país da bola, no país do tatu-bola? Ela, a Taça, apanágio dos heroicos vencedores, meta de tantos, em todo o globo e ao longo da história. A Taça, presumidamente um graal contemporâneo, virou, vejam só, literal, queimação. O artefato, antes sacro, profanado.

De Luiz Lopez Série Troféu. Troféu 4. Objetos diversos. 12 x 10 x 30 cm. 2013. Importada do texto Fifa: navio pirata, do Moacir de Sousa.

De Luiz Lopez
Série Troféu. Troféu 4. Objetos diversos. 12 x 10 x 30 cm. 2013. Importada do texto Fifa: navio pirata, do Moacir de Sousa. Uma réplica ao alcance de todos.

Afinal, o que se passa no país do Tatu-bola, pátria de chuteiras, país do futebol? Cadê as ruas decoradas, o exacerbado nacionalismo bissexto, as bandeirinhas aos montes nos carros, os bolões em todo o canto, pelo menos?

não vai ter copa 3

Ora, a Dona Fifa ainda não entendeu, mas parece que se descobriu que Copa na casa dos outros é refresco.

copa- vergonha

A Fifa, em conluio com os governos daqui, bolando planos pra grandes lucros e sórdidas triangulações, enquanto o povo rebola.

A população sem saber o que rola, enrolada por autoridades, iniciativa privada e pela Fifa, antes, enquanto ou depois que a bola rola.

O Tatu bola e o povo bolado.

O Tatu bola e os manifestantes enquadrados.

Mas, ainda assim, a empreitada neocolonialista da Fifa (e em dois aninhos do COI) parece que babou. Vai se torcer pelo Brasil, imagino (não eu, desde 1986), mas não tem o laissez-faire, laissez-passer que se imaginava.

 

* Dividindo aqui uma bolação sócio-histórico-linguística, ao lembrar dos três, belíssimos por sinal, nomes pro mascote da Copa, Amijubi, Zuzeco e Fuleco, não tem como não passar pela minha cabeça uma bolação. Há um preconceito antigo e que, a rigor, remonta a tempos coloniais de que língua e/ou povos “desenvolvidos” recorrem mais frequentemente a encontros consonantais, ainda mais se triplos ou quádruplos e por aí vai… Em contrapartida, línguas “atrasadas” seriam marcadas por intenso vocalismo, como bem comprova o estereótipo que se tem sobre línguas africanas− comumente chamadas de dialetos, quando, em termos linguísticos, dialeto nada mais é do que o uso regional de certa língua, por exemplo, dialeto carioca, gaúcho, baiano, sem qualquer conotação que sequer remeta aa língua inferior, sublíngua ou o que o valesse. Quando a Fifa indica esses nomes pro mascote brasileiro, todos formados por sílabas tal qual em suarabácti− processo de mudança linguística que consiste em se desfazer grupos consonantais por acréscimo vocálico, como se vê, por exemplo em fulô para flor− não há como não se desenhar em minha mente conspirativo-paranoica todo um cenário de desdém e preconceito.

Em tempo, como sempre ocorre com os preconceitos, se for o caso mesmo, há premissa falsa aí. Inclusive, são as vogais os elementos de articulação inovadora. Consoantes são produzidas por animais, mas só os humanos produzem vogais.

Só pra comparar com outros mascotes doutras copas: http://guiadoscuriosos.com.br/blog/2012/11/26/todas-as-mascotes-da-copa-do-mundo/

 

P.S.: em terra de Fuleco, a seleção japonesa vem jogar com o Pikachu na blusa! Grande Japão!

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Uma opinião sobre “O Tatu e a Taça

  1. É… este autor tem que admitir, envergonhado, que caiu num hoax sobre a camisa do Japão. :/

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