E la nave va

*Por Andressa Maxnuck

 AndressaOdeon
Há exatamente uma semana comentava com amigos que não são do Rio, mas que se mudaram pra cidade recentemente: “se um dia acabassem com o Rio de Janeiro, gostaria que preservassem duas coisas – o Odeon e o Theatro Municipal”.

Fiz o comentário logo após uma sessão naquele cinema. Como num ato premonitório, fui tomada de assalto pelo desejo de fazer algo que não fazia há muito – pegar um filminho no Odeon no fim do expediente. Passei os últimos anos trabalhando longe da Cinelândia e ocupada com projetos profissionais; tendo retornado àquela região, com a vida mais organizada, tive uma vontade irrepreensível de voltar a frequentar a obra-prima da arquitetura dos cinemas do antigo Estado da Guanabara.

AndressaOdeon2

Interior do Odeon

O Cinema Odeon (também chamado de Odeon BR ou Petrobrás) foi inaugurado em 1926, no auge dos cinemas da Cinelândia. Atualmente é um dos poucos cinemas de rua que não se tornou uma igreja protestante ou uma drogaria, depois da homogeneização da experiência cinematográfica em salas multiplex, mantidas em centros comerciais ou em shoppings centers. Vem sendo gerido pelo Grupo Estação, uma resistência nos cinemas de arte e no circuito off-Blockbuster.

Além de integrar a história da cidade, o Odeon também é parte da minha própria memorabilia. Quando criança, vi pérolas da pirotecnia das indústrias Disney e Universal naquelas salas, levada pela mão dos meus pais – alternando com idas ao vizinho Palácio, finado há alguns anos.

AndressaOdeon3

Fachada do Palacio

Com um interregno na adolescência, quando frequentava as salas do São Luiz e do Cine Largo do Machado (que virou, como acima alertado, uma igreja protestante), voltei a ser habitué do Cine Odeon dos anos 2000 em diante. Foram sessões furtivas na hora do almoço; Festivais do Rio; Cachaças Cinema Clube (seguidos das festas no 2° andar do cinema, antes que elas passassem a ocorrer na sede espelhada do Bola Preta, na Rua 13 de Maio – igualmente finada, após longa disputa judicial); Animas Mundi; Curtas Cinema; Maratona Odeon (esta no singular, pois fui apenas a uma – não é um programa muito adequado a uma narcoléptica); Festivais de Filmes de Montanha.

Quando hoje li uma nota do Sindicato das Empresas Exibidoras Cinematográficas, avisando do encerramento das atividades do cinema em 4 de junho de 2014, resolvi correr para a minha última sessão naquela sala tão histórica e tão bem guardada no meu relicário sentimental. Embora tenha ouvido toda a sorte de boatos sobre se tratar de um fechamento temporário, pareceu-me o mesmo tipo de eufemismo que ouvi quando realizaram a clausura do Cine Paissandu – assisti, em 29 de agosto de 2008, a última sessão exibida no epicentro carioca da Nouvelle Vague e do Cinema Novo: Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups), de François Truffaut.

AndressaOdeon4

Cena final de “Os Incompreendidos”

Cancelei todos os compromissos e rumei em direção ao Odeon. Chegando à Praça Floriano, um ostensivo policiamento para um ato grevista marcado para aquele horário. Pensei: “que se dane se aqui fora virar um campo de guerra, o Rio de Janeiro já está acabando mesmo e não vai sobrar uma das únicas coisas que eu gostaria que restasse das cinzas”. Comprei meu ingresso pra sessão seguinte, independente do filme.

Quando ingressei na sala já haviam soado os sinos que são o preâmbulo de cada sessão realizada ali. Passados os trailers, tem início o filme. Um filme péssimo. Minha última noite no Odeon não merecia uma recordação tão vil. Foi como terminar um namoro lindo com uma trepada ruim.

Fui embora com poucos minutos de filme, para deixar em suspenso um fim que nunca chegará.

 

Odeon é um chorinho com música de Ernesto Nazareth composta em 1910, escrita em homenagem ao cinema (e como hoje choro, caiu bem o gênero musical):

Cena final de Os Incompreendidos, de Truffaut:

 

*Andressa Maxnuck fez sua estréia como convidada no dia 02/04/2014 com o texto Culpabilização da vítima: um denominador comum e voltou a publicar em 16/04/2014 com o texto  2800 minutos em Bangkok.

Anúncios
Categorias: Cultura, Sociedade | Tags: , , , , | 4 Comentários

Navegação de Posts

4 opiniões sobre “E la nave va

  1. Obrigado por tratar desse tema e não o deixar passar em branco pelo blogue.

  2. João Schittini

    Penso que também teria interrompido o coito e me furtado ao gozo desabitado de alma. Deixaria para qualquer outro momento a satisfação da sanha frívola. Não gostaria de ser depositário da lembrança do encerramento daquelas cortinas vermelhas, salvo em uma catarse de êxtase e de amor. Se “só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas”, uma votação para a última sessão de cinema seria um ato de generosidade, senão misericórdia. Os momentos no Odeon permanecem nas rédeas de meus olhos. Obrigado pelo texto, Andressa. Parabéns!

    • Andressa Maxnuck

      Obrigada, João Paulo =)
      Gostaria que aquelas cortinas jamais se encerrassem, mas, uma vez que esse triste evento veio a acontecer, me senti obrigada a ser depositária daquela lembrança. Em parte, porque tenho por hábito aproveitar as coisas até a última gota; por outro lado porque, também por característica, gosto de lindes – e os termos finais, ainda que menos belos que os marcos iniciais, nos ajudam a realizar o fim e a impermanência das coisas.
      Entretanto, o fim de um namoro lindo, como o que tive com o Odeon, não poderia merecer nada menos (como vc bem observou) do que uma catarse de êxtase de de amor. Foi assim que, no dia seguinte à redação do texto, o dia mesmo de fechamento do cinema, fui dar um novo final a esse romance: voltei ao cinema, à verdadeira última sessão da sala; dessa vez, o filme já conhecido, era todo poesia e sentimento.
      Sentei-me, subversivamente, com outrxs apaixonadxs – porque esse senhor de 88 anos tem muitxs amantes -, no segundo andar, que estava interditado, sob constante ameaça de expulsão pelos lanterninhas. Ouvi os sinos, prelúdio das sessões de sempre. No escuro, sem que percebesse, desviei os olhos da película para observar-lhe a face, a tez, os traços mais particulares, para lembrar-lhe para sempre. Vi o descer das cortinas. Desfechei um beijo.
      Às vezes a vida nos dá a oportunidade de dar um fim belo a uma história de amor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: