Bater na Fifa é legal, mas estamos errando o alvo

Fifa

A Copa do Mundo tem sido tratada como um elemento central na disputa político-ideológica que toma conta da sociedade. Movimentos que se colocam contra a realização do evento e voltam, por muitas vezes, sua artilharia de acusações na direção da Federação Internacional de Futebol, a Fifa. No coro dos descontentes, cabem muitos interesses, incluindo-se aqueles mais oportunistas, que veem na Copa e na insatisfação  popular, uma chance para aparecer como solução, enquanto apenas buscam projeção para interesses meramente eleitorais.

Por outro lado, há um verdadeiro saco de gatos na defesa de tudo o que se relaciona à Copa. O Governo Federal, em posição defensiva, busca justificar gastos e acaba atraindo para si toda a responsabilidade pelo evento, deixando que governos estaduais e municipais se escondam e eximam-se de sua “contribuição para este quadro”.

Além desses, há os inúmeros interesses comerciais envolvidos. Empresas buscam evitar as críticas, mas têm medo de sofrerem represálias mercadológicas pela associação de suas marcas aos eventos. Emissoras de tevê ficam entre a vontade de criticar o governo e a necessidade de não diminuir o valor do produto pelo qual pagaram caro para transmitir.

Toda essa confusão traz ataques rasos aos próprios fãs do esporte, em um discurso pra lá de mofado que relaciona o gosto pelo futebol à alienação. O clima na cidade não parece ser de festa, com poucas ruas enfeitadas e uma mobilização bem menor que em Copas passadas. Respira-se desconfiança e até mesmo receio nas cidades-sede. Intervenções abruptas do poder público, como fechamento de ruas e exibição de aparato de guerra pelas ruas, contribuem para o descontentamento popular e a sensação de que a “festa” não é mesmo assim tão festiva.

Não há dúvidas de que um evento em escala mundial é uma oportunidade imperdível para manifestações pela melhoria da qualidade de vida da população. Contudo, a falta de foco pode levar ao alvo errado, independentemente das intenções. O erro estratégico faz com que a Copa possa jogar fora o que seria seu verdadeiro legado: o despertar da mobilização popular pela cobrança das autoridades sobre os direitos sociais.

Culpar a Fifa pelos gastos absurdos é um equívoco sem tamanho. A Fifa não exigiu que os estádios custassem bilhões, nem sequer gostou da ideia de doze cidades-sede em lugar das tradicionais oito. Basta ver que cada assento de estádio brasileiro custou R$ 13.500,00 contra R$ 12 mil gastos na África do Sul e R$ 7,9 mil na Alemanha. Assim como na África do Sul, sofreremos com más escolhas: instalação de estádios onde não há demanda para utilizá-los depois da Copa.

A Fifa não exigiu educação ruim nem hospitais sucateados. Nem mesmo as “maravilhas” prometidas foram exigências da federação: trem bala, VLT, sistemas inteligentes de transporte, entre outros foram ideias de nossos políticos. Focar a crítica na Fifa coloca em segundo plano os responsáveis pelo escandaloso gasto e pela inaceitável incompetência na realização das obras.

Mais ainda, por mais que os gastos na Copa tenham sido excessivos e, provavelmente, irregulares, não se deve fazer a associação tão cantada nas ruas: dinheiro pra copa não, melhor são verbas para a educação. E isso apenas porque o discurso revela ignorância sobre o funcionamento do próprio Estado: não foram retiradas verbas da educação para fazer a Copa!

Só para se ter uma ideia, a média anual que as verbas da educação superam os índices legais é de 25 bilhões de reias por ano. No orçamento de 2014, a lei exigia destinação de 57 bilhões e foram destinados 82 bilhões. Temos de aprender que o problema passa, por vezes, longe da falta de verba. O quanto dessa verba, anualmente, sobra, sem que haja projetos ou uso? Quanto deste montante, que  é repassado para estados e municípios, simplesmente não é empregado?

A Copa é um momento que não pode ser desperdiçado para mostrar que não somos só o país do futebol. Somos o país dos insatisfeitos com a forma de que nossos governos nos tratam. A denúncia agora é fundamental para mostrar ao mundo que o país tem graves problemas a resolver. O que não podemos é agir na pauta da oportunidade. Cobrar que as verbas sejam aplicadas é diário, é local. Transparência, ética, gestão e probidade devem ser defendidas com unhas e dentes nas ruas na Copa e fora dela. Afinal, não dá para querer um país melhor apenas de quatro em quatro anos.

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Categorias: Política | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Bater na Fifa é legal, mas estamos errando o alvo

  1. Jorge Oliveira

    Se bate na FIFA por que é mais uma associação capitalista do Estado para chupar dinheiro da população. Quanto a estar tudo bem, sem faltar recursos prá saúde e educação… este é discurso governista muito sem-vergonha !

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