Tirando Satanás da xereca

Em que pese o clima pré-Copa- a qual, com certeza, não vai ter… a pompa e aplausos ovacionalmente acríticos que lhe imaginaram justo aqui no “país do futebol”- rolou, não a bola, mas um acontecimento, há quase duas semanas- em 28 de maio mais precisamente, que ganhou grande e bizarra repercussão: Xereca Satânik, a Festa, no campus da UFF, em Rio das Ostras.

facebook-xereca-satanik

Como ainda está em tempo, como seria interessante o tema não passar em branco por aqui e como o país não é só do futebol, mas também, dentre tantos outros itens, de xerecas, de todos os tipos, inclusive satânicas, vamos a ele.

Em primeiro lugar, chama demasiadamente a atenção o conteúdo de profundo desprezo, no mínimo, gerado pelo evento e repercutido em tantos comentários. “Uma mistura de ritual satânico com filme de terror pornográfico”, segundo depoimento creditado como de um servidor da própria universidade em questão. E essa é das opiniões leves. Claro que houve quem aproveitasse o ocorrido pra culpar o PT, afinal, até prova em contrário, tudo é culpa deles. “Universidade Federal em tempos petistas: vagina é costurada em evento chamado “Xereca Satânik”na UFF”, conforme consta no blogue do senhor (toc-toc-toc, batendo na madeira) Reinaldo Azevedo. É a Dilma do capeta…

Aliás, o furor das reações se inicia pela própria manifestação da Polícia Federal, ao anunciar a abertura de inquérito para apurar “as circunstâncias da utilização do patrimônio público federal para festa realizada na última quarta-feira [28 de maio]”. Isso depois duma enxurrada de manifestações escandalizadas, dentre os presentes na festa e os que dela tomaram conhecimento pela internet, com o propalado consumo exacerbado de álcool, drogas, rituais satânicos, orgias e, claro, a suposta costura vaginal. Tudo isso amplamente divulgado como elementos que compuseram a famigerada celebração.

Como disse meu querido Pedro Estevam Serrano em Carta Capital, “menos moralismo e mais dignidade no debate”. Ora,se falar de consumo de álcool só pode ser brincadeira. Ah, claro, a questão de onde foram armazenadas as bebidas. Mas, isso podia ficar na competência de apuração interna da universidade, não? Não foi isso que gerou todo o afã de grotescas críticas ao evento, honestamente. As tais supostas drogas, até podem ser um elemento real motivador de crítica, afinal vivemos numa sociedade hipócrita o suficiente pra que, nessa crítica, não estejam computados antidepressivos, moderadores de apetite, calmantes, ansiolíticos e tantos outros congêneres.

satã- peluciaAgora, a crítica que acho mais curiosa, do ponto de vista da explicitação do moralismo reinante, é do satanismo. Pra começar- e já tratei disso anteriormente aqui no blogue- acho muito curioso que, em geral, o respeito aa liberdade de culto não inclua o satanismo. Ora, respeito aa pluralidade de crenças inclui todo mundo, não? Pessoalmente, vejo várias coisas que considero bizarras em várias religiões, mas tento muito, muito mesmo aceitar tais práticas. Só pra dar um exemplinho, os católicos praticam canibalismo com o corpo e o sangue de seu deus. Sei que tem a história do milagre da transubstanciação do corpo e da carne, mas, afinal, é de corpo e carne que tô falando mesmo pra justificar a prática canibalista. Pra mim, é de todo grotesco. Não creio que os católicos devessem ser tratados com olhar de reprovação social por isso. O mesmíssimo, pra mim, se aplica ao satanismo e quaisquer outras crenças.  Claro que excetuo daí práticas de sacrifício. No mais, falo com muita tranquilidade e equidistância, como ateu, o que, por mais que muitos não consigam entender, não é não ter crença em Deus, mas sim não ter crença em deus ou qualquer outra manifestação sobrenatural. Espero que tenha ficado claro.

E a história do crânio humano usado em ritual de magia negra. Ora, até pensei na companhia de autores de William Shakespeare sendo autuada, depois de uma das apresentações de Hamlet, na Inglaterra elizabetana: “Teje preso, seu Will. Precisamos levar o tal Yorick aí pra delegacia pra apuração. Ele precisa contar pra gente se é humano ou não.”. Ora, e o que seria de toda a literatura ultrarromântica sem os esqueletos verdadeiramente humanos?! Aliás, Frankenstein- creditado apenas a Mary Shelley, mas composto com auxílio de seu amigo, amante e parceiro Lord Byron, segundo biógrafos, em noites de abuso de drogas e orgias, até hoje não devidamente averiguadas por quaisquer inquéritos (deve ser culpa da Dilma também…)- nasce justamente do contexto de ampla reviração de ossos humanos que proliferaram no séc. XIX, nas mais diversas áreas de interesse.
hamlet-yorickE, por fim, como não poderia deixar de ser, chegamos aaquela que na verdade é a origem de tudo, a xereca. A xereca dita customizada no evento da UFF. Eu realmente não sei o que se fez da dita cuja em questão. Li vários comentários revoltadíssimos e impropérios quanto aa possibilidade da costura. Também li, comentários de solidariedade e apoio, inclusive institucionais, da própria UFF, ao evento como um todo. Aliás, o Xereca Satânik fez parte da programação do curso de Produção Cultural, dentro duma disciplina cuja temática era “Corpo e resistência”. Os próprios organizadores, atribuem a performance- como a tratam- a uma denúncia dos abusos ao corpo feminino e denúncias de estupros na região. Vale pontuar que a moça que teria sido alvo da costura em questão tem sofrido uma série de ameaças. Será que a PF tratará disso também?
De novo, recorrendo a meu caro Pedro Serrano, no mesmo artigo lincado acima, “costurar a própria vagina, por mais repugnante que pareça a qualquer adulto de bom senso, é um ato que nada ofende terceiros. O direito de liberdade é garantido também para proteger decisões estúpidas dos indivíduos.”.  Não sei se é preciso esclarecer, mas “não ofender terceiros” significa que não vitimiza ninguém mais, além daquela que se voluntariou ao ato em questão. Vou mais longe, como já disse, quem sou eu pra saber o que houve de fato. A hipótese da costura me parece bizarríssima. Mais que isso, até incoerente como forma de protesto, num mundo que ainda luta amplamente contra mutilações genitais em mulheres, por exemplo. Então, vamos torcer pra que não haja disseminação da prática. Já imaginaram as vovós com suas agulhas e linhas de tricô e crochê… Argh! Tenso.
De fato, isso tudo só pode ser coisa de Satanás. Afinal, cristãos, em geral, e católicos apostólicos romanos, em especial, têm verdadeira abominação por atos de autoimolação ou aa perspectiva de se ofertar o corpo aa fustigação de outrem, correto?
De todo modo, num evento com maiores de idade e por livre e espontânea vontade de todos, sobretudo da que serviu de cobaia ao corte e costura, tentar a construção duma execração por moralismo é dum autoritarismo absurdo. Quanto ao suposto uso de dinheiro público pra isso, é uma discussão que, primeiro precisa caber ao nível institucional e acadêmico do curso, da universidade e, de novo, é questão, em primeira instância, interna aa universidade, apuração essa já iniciada.
Só que há um senso comum que julga que o fato de algo lhe parecer grotesco, horrendo, já seja o suficiente pra execração pública, proibição, condenação.
Já houve tempos assim. Joana D’arc que o diga, talvez a mais famosa xereca satânica da história. Ah… a xereca, início de tudo,  órgão fundamentalíssimo de toda a história da humanidade, em qualquer sentido que se possa imaginar, mas suas portadoras, tão satanizadas. Não é aa toa a alcunha de “perseguida”, afinal todo mundo, o tempo todo, está a se meter nelas, a respeito de quase tudo e não apenas saúde e lazer, como seria desejável, penso.
Mais de meio milênio do fim da Idade Média, e as mulheres ainda são súcubos, demônios de aparência feminina que sugariam a vida dos homens pelo ato sexual, na sociedade. Isso me remete também aos mitos da vagina dentada, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Aliás, vale, como digressão, a menção ao filme A vagina dentada (no original, Teeth), dirigido por Mitchell Lichtenstein, um precoce clássico do cinema B, do séc. XXI.
É preciso dessatanizar as xerecas! Melhor ainda seria que elas estivessem fora desse universo de valores, entre o satânico e o sacro. Na verdade, elas são as mulheres que lhes comportam, em toda a sua pluralidade e multifacetamento. Quando se enxergarem, amplamente, que há pessoas completas e inteiriças, senhoras de si, por detrás das tais xerecas, daremos um salto humano.
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