O fascismo não fuma e odeia xereca, mas adora copa do mundo

Ministério da Saúde: você realmente interrompeu meus satanismos para isso?

Ministério da Saúde: você realmente interrompeu meus satanismos para isso?

Preâmbulo inesperado e que não tem nada a ver com resto do texto. Hoje, dia 11 de junho de 2014, na véspera da copa do mundo, começaram as prisões arbitrarias de militantes, perigosos candidatos a Paulo Leminski, que planejavam fazer chover no grande piquenique da Fifa. Em Goiânia, tais prisões começaram ontem. Está para sempre decretado o divórcio entre gostar de futebol e a organização mafiosa e planetária que em tese zela por ele. Está também decretado, pelo governo brasileiro, sem mais disfarces, o AI-2.014 sob o qual, doravante, vivemos. Eu disse que isso não tem nada a ver com o texto de hoje, que reflete sobre a fascistização da sociedade? Ops, acho que me enganei. Disse que era inesperado? Errei de novo: estava tudo dentro do programa, junto com as tabelas dos jogos e o colorido dos ingressos. Agora voltemos ao assunto principal de hoje: xereca e cigarro.

Como se não faltasse com o que se preocupar e como se não houvesse já leis de exceção e autoritárias o suficiente a serem promulgadas em um único ano legislativo, eis que o ministério da saúde tira da cachola mais uma peça jurídica de restrição ao consumo de tabaco. A nova lei, na verdade uma regulamentação da legislação já existente, apenas endurece as restrições já estabelecidas.
A parte que mais afetará a vida dos fumantes, quando da sua entrada em vigor, prometida para os próximos meses, é a ampliação dos espaços onde será proibido fumar. É o tipo de iniciativa que pode parecer boa, à primeira vista, uma vez que, diz-se, 200 mil pessoas morrem por ano em decorrência do cigarro só no Brasil. Isso, no entanto, é uma típica confusão proposital entre “uma porrada de macarrão” e “um porrão de macaquinho”. Tais restrições dirigem-se, na verdade, à proteção do não fumante, que não deve ser exposto aos perigos do fumo passivo.

Cigarros: unindo as famílias desde a época do Pleistoceno

Cigarros: unindo as famílias desde a época do Pleistoceno

A indústria do tabaco foi, nas últimas décadas, pesadamente e com razão condenada por ocultar resultados de pesquisas que demonstravam os malefícios do cigarro. O problema é que, em uma reviravolta bastante constrangedora, nos últimos dez anos o que tem sido colocado em questão é a validade dos estudos promovidos pelos algozes dos fumantes. Ao que tudo indica, os riscos do fumo passivo foram muito exagerados para justificar a histeria moralista e antidemocrática das cruzadas contra o cigarro (disponibilizo links ao fim). Há, inclusive, um delicioso episódio de South Park falando sobre esse exagero. Nesse episódio, uma fábrica de cigarros é apresentada como a encantadora Fantástica Fábrica de Chocolate, e os antitabagistas são mostrados como vilões estereotipados de filmes B (imagem com a qual eu tendo cada vez mais a concordar). O programa é tão elucidativo que ele deveria ser passado nas escolas.

http://videolog.tv/940896

As campanhas antifumo divulgam estudos manipulados para disfarçar como sendo de interesse comum a imposição fascista de restrições aos direitos das pessoas de fazerem o que bem entendem. Coloco a questão da saúde em uma perspectiva estritamente autogestionária: se a pessoa quiser consumir substâncias que causem danos apenas a ela mesma, como cigarros, drogas, álcool, gordura ruim e todos os remédios falsamente apresentados como menos danosos do que os itens já citados, isso é uma questão de fórum pessoal na qual o Estado não tem nada que se envolver. É na mesma linha de raciocínio que o aborto e a eutanásia deveriam ser encarados: como direitos fundamentais de gerenciamento da própria vida e da própria morte, mas que inacreditavelmente somos até hoje obrigados a reivindicar (devido, apenas, à obtusidade religiosa de alguns, imposta fascistamente a toda a sociedade).

E não me venham aqui equiparar isso às campanhas contra a vacinação infantil: fui bem claro, ninguém tem nada a ver com decisões individuais sem impacto nenhum na coletividade. Não é o mesmo caso aqui, pois quem deixa de vacinar o filho, além de colocar a vida do próprio em perigo, ameaça, por uma série de razões muito simples de entender, os filhos de todo mundo. Uma criança não vacinada no meio de uma população vacinada pode estar relativamente segura (dependendo da doença), mas ela é também um espaço aberto para mutações virais de onde podem surgir variações imunes às vacinas existentes, além de uma série de outros riscos.

E sobre as inevitáveis xerecas

Outra notícia estarrecedora da semana foi o repúdio em moldes francamente nazistas à performance das Xerecas Satânicas, de Raíssa Vitral. Entre a enxurrada de acusações estapafúrdias à performance e à artista, só faltou o velho bordão SS de “arte degenerada”. Tive a oportunidade de conhecer Raissa uns anos atrás, na Lapa. Ela se define como uma guerrilheira da cultura. Suas performances têm objetivos e uma ideia forte e relevante por trás, além de utilizar os meios adequados para alcançar tais objetivos (o que já é mais do que a maioria dos artefatos ditos culturais dos dias de hoje contêm). De maneira geral, a artista debate a questão da mulher e da gerência do corpo feminino, que, infelizmente, na nossa sociedade patriarcal e influenciada em demasia por ideias religiosas que remontam à Idade da Pedra Estúpida, continuam a ser “questões”.

Seus trabalhos são, sim, chocantes, e ela trabalha o tempo inteiro com o grotesco (favor ver o significado do conceito, em arte, antes de falar besteira). Não gostou? Não assista de novo e pare de encher o saco. Quando você vai ao cinema ver um filme estrelado, digamos, pela Sandra Bullock, você sabe mais ou menos o que esperar. Com o trabalho de Raíssa, passa-se o mesmo, e você sabe que encontrará pela frente entranhas e coisas difíceis de assistir. E eu achando que as pessoas tinham adquirido maturidade o suficiente para não se chocarem mais com manifestações artísticas, depois de Zé Celso ter sido assimilado até pela burguesia, que ele tanto incomodou nas décadas de 1960 e 1970.

A direção da faculdade e do evento, muito coerentemente, colocou-se na mesma hora em defesa da performance e da artista, mas não parece que isso impedirá investigações, sindicâncias e aborrecimentos. Muito menos ameaças de morte que, agora, já se tornaram rotineiras na sua vida. O brasileiro ainda tem muito o que aprender sobre xerecas, tanto sobre as satânicas quanto sobre as “comportadas” (como, por exemplo, respeitá-las, acima de tudo). Na verdade, o mundo inteiro ainda tem muito o que aprender sobre xereca, e o trabalho de Raíssa é, nesse sentido, educativo. Deveria passar nas escolas junto com o vídeo do South Park.

Conclusão

Todo mundo fala que cigarro mata, mas ninguém lembra das vidas que ele salva. Quantas vezes eu acendi um cigarro ao invés de cortar o pescoço de algum idiota inconveniente. À medida que envelheço, retorno cada vez mais ao anarquismo e às posições libertárias que me marcaram ao longo da vida. O que a minha experiência pessoal me ensina é que projetos autoritários, além de antipáticos, nem sequer resolvem os problemas a que eles se propõem resolver, e que pessoas autoritárias são as menos qualificadas para exercerem as posições de comando a que elas, invariavelmente, aspiram.

Hoje, invadiram o meu segundo lar, o botequim, e me disseram o que eu devo e não devo fazer lá. Me dizem que eu tenho que ser feliz a qualquer custo e bailar ao embalo daquela musiquinha irritante da copa da globo, digo, do mundo. Querem também dizer a Raíssa que tipo de trabalho artístico ela pode ou não realizar. Estamos, como muitas vezes disse neste espaço, ladeira abaixo no quesito liberdades individuais. Comportamentos prejudiciais ao coletivo, ao planeta, à humanidade têm sim que ser revistos, e cabe até mesmo um certo grau de imposição para a mudança desse modelo capitalista e suicida que impera. No entanto, e é isso que caracteriza o fascistização, querem reprimir exatamente aquilo que pode nos salvar e nos redimir: arte, protesto, xereca e cigarro.

Para saber mais sobre as mentiras que os não fumantes contam:

http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,ERT68821-15565,00.html
http://www1.unimed.com.br/nacional/bom_dia/saude_destaque.asp?nt=6370

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Categorias: Sociedade | 6 Comentários

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6 opiniões sobre “O fascismo não fuma e odeia xereca, mas adora copa do mundo

  1. Enfim um texto tabagista! 😀

  2. Este teu texto me anima a, em breve, escrever um texto tabagista!

  3. Pingback: A Privatização da Buceta | bichocoletivo

  4. Excelente texto! Tb escrevi um texto sobre as xerecas e citei seu blog como fonte. Se tiver interesse em ler o texto: http://bichocoletivo.wordpress.com/2014/06/13/a-privatizacao-da-buceta/
    Abraços!

  5. Republicou isso em bichocoletivoe comentado:
    Também sobre o caso da Xereca Satânik: “querem reprimir exatamente aquilo que pode nos salvar e nos redimir: arte, protesto, xereca e cigarro.”

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