A torcida virou caso de política

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Há uma insistente vontade de transformar a Copa do Mundo em eleições. Quase uma ditadura de opinião que obriga a um posicionamento contra ou a favor do governo com declaração de voto e campanha para a oposição. E, como ocorre em torcidas apaixonadas, só há o maniqueísmo superficial e cego a ser oferecido como argumento.

De repente, falar mal da Copa virou fazer campanha para o Aécio. Defender avanços sociais importantes passou a ser sinônimo de vestir a camisa do evento. Sem meio-termo, sem diferenças. Tudo em um mesmo saco de gatos, ou dois sacos de gatos, no caso. Parece mesmo que o próprio tema perdeu o sentido e diluiu-se nas entrelinhas dos pressupostos e subentendidos que revelam percepções estereotipadas de ideologias pré-estabelecidas.

Vejam o exemplo da abertura da Copa. Achei a cerimônia feia, sem graça. Acusaram-me de estar criticando por má vontade, que as outras Copas tiveram aberturas semelhantes, que o evento foi à luz do dia, que isso, que aquilo. Ora, quer dizer então que o senso estético que se dane? Já que as outras aberturas foram feias, pasteurizadas, sem emoção, isso não me dá o direito de criticar que esta seja mais uma na fila das diluições artísticas? Não temos mais o direito à opinião artística? Estava feio, sim. Mas não foi culpa do PT, ora.

Por mim, uma meia dúzia de artistas cantando animadamente e balões coloridos soltos pelo ar teriam um efeito igual ou melhor. E sairia mais barato. Um mosaico de torcedores, tão repetido nas arquibancadas pelo Brasil nos campeonatos daqui, seria algo interativo e emocionante, com certeza. Isso não quer dizer que eu vá de Aécio em outubro. Apenas que meu gosto para atrações artísticas permanece conservado depois de anos de FH e PT.

Vaiaram a presidenta, xingaram a presidenta. “Que povo sem educação! Que vergonha para o mundo inteiro!” Fico estarrecido ao ver que, na defesa de alguns, valem os argumentos toscos que não valem para a página seguinte. Nelson Rodrigues, há anos, já nos ensinava: “No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio e, se quiserem acreditar, vaia-se até mulher nua.”

Vamos dividir o tema por partes, para entendê-lo mais profundamente. Primeiro, xingar alguém em um estádio de futebol não é uma “agressão” às famílias, ao contrário, é o espaço culturalmente em que isso é aceito! Meus primeiros palavrões da vida foram proferidos no Maracanã, jamais fora dele. Tentar enxergar uma questão sexista neste caso (“não é um xingamento que se dirija a uma mulher, ainda mais à presidenta”) é, no mínimo, hipócrita, visto que, eu – e provavelmente você, leitor – já xinguei a mãe do árbitro várias vezes na arquibancada ou sofá.

Com relação a quem estava no estádio ter o direito ou não ao xingamento, a questão é mais grave. Nas ruas, as mesmas palavras são direcionadas aos governadores e prefeitos, portanto a questão não é o ato em si. Sim, todos têm o direito ao xingamento, ainda que não concordemos com o alvo. E, de fato, com os ingressos caríssimos, aquele não foi um xingamento que se possa dizer popular, mas foi representativo de uma camada da sociedade.

Há quem atribua o ato a uma claque montada para este fim. Que seja. O PT já montou inúmeras claques, inclusive de aplausos. Continua sendo legítimo. E, por mais “coxinha” que seja a manifestação, dizer que não pode acontecer é um contrassenso sem tamanho.

Por fim, vem a esquizofrenia de que tudo isso combinado é uma vergonha para a imagem do país. Calma lá! Quer dizer que a polícia enfiar o cacete em manifestantes e imprensa, o poder público desalojar indígenas, sumir com moradores de rua entre outras “intervenções urbanas” não é uma vergonha para a imagem do país? Mas não era esse o momento de mostrar nossa insatisfação ao mundo inteiro? Mas, xingar a presidenta não pode? Pau que bate em Chico, dá em Francisco também.

É claro que há o paradoxo sensacional de vaiar o PT por conta da corrupção e falta de ética e comemorar efusivamente a “malandragem” do jogador que simula um pênalti para alcançar a vitória. O Brasil, em geral, adota a norma da “ética dos outros”, na qual os outros estão errados por seus desvios, mas o indivíduo pode continuar sonegando imposto de renda, roubando a tevê a cabo, baixando o mp3 sem pagar, dando a cervejinha pro guarda etc. Brasília, em última análise, é o espelho de nós mesmos.

Criticar a organização da Copa não é ser pró-Aécio, é simplesmente não esconder a incompetência dos governos federal, estaduais e municipais que, em sete anos, não conseguiram entregar nem a metade do que prometeram e o que ficou pronto ainda está inacabado. Ora, não há como negar que foi uma farra de recursos públicos e que a Copa saiu mais cara do que deveria. O PSDB vai aproveitar-se desse fato na eleição? Ora bem-feito para o PT! Que fosse mais competente na execução e fiscalização das obras.

A culpa não pode ser minha ao criticar o que deve ser criticado. O PT não pode escravizar a esquerda a defender um projeto que não nos representa apenas por ser um mal menor! Não vou aceitar ser refém dos erros alheios. Se oportunistas aparecem para bater à direita, o responsável é o próprio PT, não a esquerda, ora! Aliás, o Partido dos Trabalhadores presta um desserviço quando se coloca na posição esquerdista, coisa que não é há muito tempo!

Há tempos eram os esquerdistas radicais aqueles que torciam contra a seleção. Hoje, torcer contra é fazer campanha do Aécio? A seleção brasileira não é a Dilma, não é o PT! E eu, por exemplo, não me sinto obrigado a torcer a favor ou contra o Brasil na Copa. E isso nada tem a ver com a patriotada quadrienal que asininamente zurra por todos os cantos. Ao contrário àqueles de ocasião, eu adoro futebol e minha torcida fiel vai só para o meu time. Na Copa, eu torço pela seleção que joga um futebol próximo do meu ideal tático ou técnico ou que vá me conquistando por conta de sua forma de jogar. Se o Brasil quer minha torcida, que jogue bola.

Para fechar o domingo, vale lembrar que esse começo de Copa nos mostra uma competição esportiva muito boa, apesar dos muitos erros na organização. Devemos cobrá-los agora também, como fora cobrado antes, como deve ser cobrado depois. Às ruas, seja para comemorar, para protestar ou para as duas coisas simultaneamente. Criticar não é apostar no caos, na política do “quanto pior melhor”, como talvez seja a ideia de alguns oportunistas. É apenas não aceitar na passividade a tese oposta, e igualmente deplorável de que “o menos pior está bom”.

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Categorias: Política, Reflexões | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “A torcida virou caso de política

  1. Equívoco Humano

    Concordo, só acho que o PT é um mal igual, não um mal menor.

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