Pra não dizer que não falei de jogo

O Polvo Paul prevendo a vitória final da Espanha. Não será uma contradição um povo que produziu alguns dos filósofos mais importantes dos últimos duzentos anos confiar na clarividência de um molusco?

O Polvo Paul prevendo a vitória final da Espanha. Não será uma contradição um povo que produziu alguns dos filósofos mais importantes dos últimos duzentos anos confiar na clarividência de um molusco?

Gostaria de iniciar este texto com uma declaração séria e pessoal, antes de partir para o deboche completo e anárquico com o qual pretendo prosseguir. Quando foi anunciada, uns 6 e tantos anos atrás, a realização da copa no Brasil, fiquei feliz. Antevi a possibilidade de sediar um grande evento como esse como interessante, do ponto de vista profissional, pois afinal de contas trabalho há anos com tradução (entre outras coisas) e imaginei que se abririam para mim, assim como para pessoas de diversas outras áreas, oportunidades. Também imaginei um clima de euforia e festa, como um carnaval fora de época, com a participação de alegres torcedores de diversas partes do mundo, algo que tem tudo a ver com o espírito e com a dinâmica da cidade. Tolo eu. Não antevi a profundidade dos problemas que viriam a reboque, e que já mencionei neste mesmo blog ad nauseam. Após um ano participando, na medida das minhas possibilidades, das manifestações que ganharam corpo a partir do ano passado, imaginei que, com a aproximação do evento, terminaria por entrar minimamente no clima do evento e compartilhar, pelo menos um pouco, da alegria que ele traz para tantos. Não que eu fosse abandonar a firme oposição aos seus aspectos grotescos, como as remoções e os etcéteras passíveis de serem multiplicados à indigestão. Mas imaginava que, sem nenhum temor de incoerência, poderia participar de um confronto com a polícia durante um protesto e, em seguida, mesmo que estropiado, correr para um botequim e assistir animadamente a uma partida qualquer, do Brasil ou não. Infelizmente, isso não se mostrou possível. O novo recrudescimento (acreditem, à luz da situação, isso não é um pleonasmo) da repressão acirrou também a minha oposição e essa desgraça dessa copa. Da mesma maneira, a memória das roupinhas de crianças queimadas pela tropa de choque na Aldeia Maracanã também não ajudam em nada. Tenho um sentimento de frustração, de que roubaram, de mim e de parte da população, uma festa da qual participaríamos com grande entusiasmo, caso ela tivesse sido realizada em bases menos espoliatórias.

[…]

E o Transversos ganha o seu primeiro suplemento esportivo desta copa. Aqui os resultados de todas as partidas serão profunda e profissionalmente analisados. Como temos sempre um olho no futuro, além dos pés fincados, com firmeza, no presente, o blog contratou os serviços de um bicho vidente para palpitar sobre os resultados vindouros.

Por enquanto, as equipes mais tradicionais, as chamadas favoritas, pouco mais do que decepcionaram. O Uruguai foi derrotado pela Costa Rica. Não vi exatamente uma zebra aí. A minha geração só conhece a frustração da “tragédia de 50” a partir da leitura de Nelson Rodrigues. Desde que tenho memória pessoal nítida de copa do mundo (1986), a ausência da Celeste de mundiais é mais comum do que a sua presença, e não temos lembrança de alguma atuação memorável desse país. A França, por sua vez, humilhou Honduras, o que não foi difícil tratando-se de um time inferior com um jogador a menos. A atuação desastrada (foi mais para retardada) do Brasil contra a fraca Croácia (sim, fraca, pois não importa o que digam, a Croácia é, no melhor dos casos, um time médio) somou-se a esta triste relação. Precisar de “apito amigo” para vencer aquela partida foi um ingresso instantâneo para a ala da vergonha dos mundiais. A Espanha dispensa comentários.

Mas vamos ao que importa, a introdução, no mundo científico do esporte, da gatinha Suflê. Há um longo e glorioso histórico de animais paranormais em copas do mundo. A da Alemanha serviu de pano de fundo para a consagração de Paul, o polvo, como o infalível cephalopa que não errou uma única das suas previsões. Nesta edição, temos toda uma claque de concorrentes, a maioria dos quais Suflê já derrotou ainda nesta primeira fase do certame. Do Japão, por exemplo, há notícias de um segundo polvo e de um pinguim que, com suas supostas habilidades paranormais, haviam assegurado a vitória japonesa sobre a Costa do Marfim. Suflê já derrotou, portanto, dois médiuns concorrentes, porque suflê, ainda que gato, nunca gostou de peixe cru. E apostou seus bigodes na Costa do marfim.

O problema de Suflê é que ela, como todo gatinho, é bastante intransigente em relação aos seus protocolos de soneca, e pode ignorar solenemente (leia-se cagar e andar) os nossos pedidos de antecipações de resultados. O jogo Nigéria x Irã, por exemplo, foi dos solenemente ignorados (leia-se cagados e andados) pela nossa heroína. Coloquei as bandeiras dos dois países na sua caixinha de areia, de onde ela seleciona as suas melhores previsões, e ela permaneceu na sua pose típica de gato, esparramada no chão e balançado calmamente a ponta do rabo, sem apitar nada sobre o resultado, não se sabe se por pachorra felina ou em silencioso protesto contra o homossexicídio perpetrado por esses dois países. Além disso, Suflê também não deu opinião sobre Inglaterra x Itália. O clima de Manaus é péssimo para a sua deslumbrante pelagem angorá.

Suflê não arrepiou um único pelo do seu corpinho ao longo do jogo do Brasil contra o México. O jornalismo especializado não cansou de frisar a dureza deste adversário, pois que ele venceu Camarões (como se isso fosse um feito digno de entrar nos anais do esporte). Ainda assim, nunca passou pela cabeça da gatinha que o Brasil pudesse perder de um time que, embora bom, não chega aos pés do Brasil. Ela sabe muito bem que mesmo uma “seleçaça”, para padrões mexicanos, não chegaria ao chulé de uma “selecinha” brasileira, e que o Brasil não perderia, mesmo a despeito dos esforços dos jogadores e do esquema tático brasileiro para entregar o jogo para os mexicanos. Porém, os pelos de Suflê se eriçaram, como boa Cassandra que é, ao ver que o Brasil só se lembrou que é Brasil, e que o México era só o México, aos 20 minutos do segundo tempo, e que, encontrando a barreira de uma defesa de qualidade, não havia tempo para fazer mais nada (se tivessem jogado futebol por pelo menos meia hora, teriam vencido). Aí ela percebeu que aquele jogo não sairia do zero de conduta. Não que isso faça qualquer diferença no resultado final: o Brasil vai passar como primeiro do grupo A do mesmo jeito, mesmo apresentando esse futebol feio, retrancudo e covarde, que não ousa, não enfrenta e não arrisca. Que ganha copa, mas merecia levar cascudo.

As previsões de Suflê para os próximos e fatais deslances: México vence Croácia por diferença mirrada, Brasil vence Camarões com diferença significativa de gols. Passam os dois para a próxima fase. Suflê, sempre em sintonia com os caprichosos deuses do futebol, indica uma vitória avassaladora da Espanha sobre o Chile, e que a primeira, portanto, enfrentará o Brasil nas oitavas de final. O problema é que as forças ocultas do futebol (e sobre essas Suflê não têm o menor controle) parecem querer providencialmente que o Chile passe de fase, o que facilitaria bem o caminho do Brasil (a “não seleção” do Chile, além de sofrível, é freguês de caderno da seleção brasileira).

Mas além do “favoritismo” do Brasil, tão bem evidenciado pela clarividência de Suflê, descobrimos várias novidades consternantes nesta copa. Uma delas, foi a existência do cargo de “procurador ético da Fifa”, ocupado atualmente por Michael Garcia (taí um sujeito que deve trabalhar muito). Não temos a menor ideia das atribuições desse cargo intangível, mas desconfiamos de que não são muitas. Descobrimos também que há pouco a comemorar e muito a reclamar dos atuais craques do futebol mundial, uma vez que nenhum deles parece estar empenhado à vera no cumprimento das suas obrigações contratuais e profissionais (a exemplo do miserável Ronaldinho na copa de 1998). Cansamos de jogadores talentosos, mas com zero compromisso com o futebol, com os times e com as seleções que representam. Além da falta de profissionalismo, poderiam eles corrigir alguns outros probleminhas. Já que ganham fortunas, podiam investir em umas aulinhas particulares ou em algum tipo de capacitação cultural e intelectual. Não digo que precisemos de jogadores discutindo a traição de Capitu, mas pelo menos, arrumem uns RPs que evitem declarações asneirentas como “o que tinha que ser roubado, já foi”, “uma copa não se faz com hospitais” e derivadas. Um bom Relações Públicas não deixaria Ronaldo Bola e o Eterno Rei Retardo de Ditadura Pelé abrirem as bocas em público em circunstância alguma. Na verdade, dá vontade de dizer, em bom português: “porra, vocês ganham milhões, ou aprendam a falar alguma coisa que preste, ou calem essas bocas”.

Lembrando, para quem porventura esteja lendo este textoi e tenha nascido ontem, que a chamada copa do mundo não passa de um torneio europeu e sul-americano. Não se trata apenas da constatação óbvia de que nenhum país de fora desse eixo tenha vencido uma copa. Mas jamais um país não europeu ou sul-americano foi sequer vice-campeão, e raramente alguém de fora da turminha ficou entre os quatro finalistas (EUA em quarto lugar em 1930; Turquia terminou em terceiro e a Coreia do Sul em quarto em 2002 – et c’est finit). A instauração do critério geográfico pela Fifa abriu as portas para dezenas de timecos, que só aparecem para dar vitórias de bandeja para os reais candidatos e para enfeiar o futebol. A Fifa chama isso de “plantar o futebol em todos os lugares”, mas trata-se, evidentemente, de uma expansão dos negócios. Critério geográfico é bom para a ONU e para os fóruns de representação internacional. No futebol, só serviu para emporcalhar tudo e transformar o esporte em uma máquina de dinheiro ainda mais robusta.

Anúncios
Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: