Não vai ter copa pra quem?

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Enquanto a bola rola, os corações apertam, mas as cabeças – essas sim – já se deram conta de que a conta não fecha. Os investimentos robustos a título de promoverem um legado de melhorias na infraestrutura logística, entre outras, mostraram-se dribles de recursos inesgotáveis para empreiteiras, empresas de transporte e grandes corporações. O saldo disso para o povo tem sido irrisório, quando não, negativo, verdadeiro gol contra. E o motivo todo mundo já conhece: é que o de cima sobe e o debaixo desce.

A classe média (do ponto de vista ideológico e não meramente econômico) ressente-se do não-lugar, volta seu chute mais poderoso para os mais desfavorecidos, crendo-os portadores de todas as mazelas de suas perdas ao longo dos tempos, mira nos programas de assistência, quando a rede do gol, o alvo deveria ser os grandes monopólios. Não os reconhece como responsáveis, talvez porque ela mesma aspire ao revelado desejo de ser integrante da equipe, que não critica.

A ideologia da liberdade e igualdade apregoadas pelo capitalismo liberal soam até como um emocionante grito de torcida para aqueles que não perceberam as mudanças para a detenção de poder dos monopólios. Como ser livre em tal contexto? Que igualdade de oportunidades é possível num mundo em que não há direitos minimamente assegurados para todos? E não estou falando de Estado mínimo.

Por sua vez, o grito dos excluídos sensibiliza e coloca a reflexão no foco da câmera. É excluído o sem lar, o sem assistência médica, o sem profissionalização e emprego. Mas também é excluído o que não tem direito de protestar, porque, segundo o pai, não se sustenta ainda, É excluído o trabalhador que luta pelos seus direitos e é criminalizado num processo que transforma as disputas trabalhistas em casos de justiça. É excluído o torcedor que perdeu o acesso aos grandes estádios onde, de certa forma, se forjou ainda mais a identidade do país do futebol.

Retornando à questão dos grandes eventos, não, não é característica específica do atual governo a adoração por grandes eventos. A edição recente  da revista História da Biblioteca Nacional expôs um comparativo entre os grandes eventos protagonizados pelo Brasil na tentativa de a um só tempo ocupar lugar de destaque junto aos países desenvolvidos (eu chamaria de colonizadores, imperialistas também) e massagear o ego nacional, na tentativa de eliminar o tal complexo de vira-latas e, pasmem, essa tradição entre o perdulário e o cenográfico, entre a maior festa de todos os tempos e os altos custos assumidos pelos anfitriões nos acompanham desde a república velha.

O que percebo hoje nas ruas é um entusiasmo acanhado. Levaram a paixão nacional para uma biópsia. Os amantes de futebol continuam a sê-lo, mas desconfiados do uso impróprio de sua imagem. Não a querem associada a um amor insano, que se sobrepõe às dificuldades do dia-a-dia, em que pagar por um ingresso no estádio justifica a falta de comida na mesa.

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