Septuagenariamente geniais (ou Quando Eleanor Rigby encontra Geni!)!

chico paul

Imagem, infelizmente inédita, recolhida do Diário Pernambucano.

Um texto PRA LER e OUVIR!

Semana de 15 a 21 de junho: 18 de junho, 72 anos de Paul McCartney e  19 de junho, 70 de Chico Buarque, genialíssimos, contemporâneos e definitivos artisticamente, cada um em seu contexto. Suponho eu que Chico e Paul, embora grandiosíssimos, nunca se tenham conhecido pessoalmente. Ou, se isso ocorreu, não mereceu a publicização biográfica de nenhum dos dois. Os universos são por demais distintos.

Esses dois ilustres senhores não têm em comum apenas a proximidade de datas e de idade. Ambos são ícones emblemáticos, cada um em sua fatia de público e de estilo, marcaram época, são símbolos de toda uma geração de artistas que ainda estão na estrada, atravessando gerações: dum lado, Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin, os músicos remanescentes do Pink Floyd (estes últimos uns 5 aninhos, em média, mais jovens), doutro lado, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil…

[Simplesmente com David Gilmour, do Pink Floyd!]

O Roque iniciado pelos garotos de Liverpool mudou o mundo. A MPB, aqui, mudou nossa fatia de mundo também, num momento que socialmente pouco tinha da experimentação de liberdades com que o mundo do roquenrol anglófono e seus fãs lidavam.

Tivesse Paul composto apenas “Yesterday”, a canção mais regravada da história, segundo o Guiness Book, e Chico tão somente “Construção”, por exemplo, já mereceriam ser relembrados. Mas fizeram tanto mais que isso. Paul foi o alicerce musical da banda que mudou pra sempre a história do roque. As bases harmônicas e as melodias utilizadas hoje pelas mais diferentes bandas ainda são as que ele criou nos Beatles. Chico, por seu turno, solidificou toda uma obra que ainda é a maior referência no país daquilo que foi alcunhado Música Popular Brasileira, ainda que essa, de fato, não seja tão popular assim, no sentido de ser um código dominado e acessível ao povão.De todo modo, Chico extravasa o país. é respeitado em todo o continente e fora dele, como Violeta Parra, Mercedes Sosa…

No caso do velho Macca, nos anos de Beatles, suas canções são, inevitavelmente, creditadas a Lennon/McCartney. Esse acordo de parceria encobre quais composições foram de um ou de outro. Pra quem acompanha as canções dos fabfour com ouvido mais sensível, é, em geral, bem distinguível quais canções são de Paul, quais são de John e as efetivas parcerias, mais frequentes no início de carreira. Assim, o crédito Lennon/McCartney reúne cinco situações diferentes: músicas feitas em efetiva parceria, músicas feitas só por Paul, as feitas só por John, as de McCartney com auxílio de Lennon e o contrário. Aqui, uma lista bem montada com as reais composições de Lennon/McCartney: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_can%C3%A7%C3%B5es_creditadas_a_Lennon%E2%80%93McCartney.

Chico e Paul têm em comum ainda o fato de ambos terem vivido casamentos longos e profundamente identitários de sua própria produção artística, num misto de extensão de parceria e inspiração: Marieta e Linda!

Chico é daqueles nomes que, de tão consensuais, chegam a criar dissenso, numa espécie de aforisma rodrigueano. Eu próprio vivo entre a condição de fã voraz e crítico ressabiado, em relação ao compositor dos olhos de ardósia. Ele é mesmo avassalador. Algum mínimo cuidado não há, então, de fazer mal. Ainda mais se considerarmos o poder de sedução inerente de Chico, por sinal, também compartilhado pelo beatle do olhar triste. Afinal, os dois também dividem um surpreendente e incomum culto feminino, ainda mais quando devotado a senhores dessa avançada e, no caso deles, prestigiosa faixa de idade. Em se tratando de Chico, ainda surge, costumeiramente, a declaração de “Como Chico sabe cantar a alma feminina” ou simplesmente “Ah… Chico…” totalmente suspirante. Chico e suas tantas vozes: a mulher, o cronista, o crítico ácido, o boêmio… Tantos Chicos…

Aliás, Paul também tem muitas facetas. Encará-lo como o mocinho bem comportado de baladinhas românticas é de todo ingênuo. Paul, além das melodias que o consagraram, é um músico completíssimo, com uma noção de instrumentação rara (toca também bateria, piano/teclado, guitarra). Não bastasse, é, certamente, um dos maiores baixistas de toda a história do roquenrol. A carreira solo dele, com presenças marcantes de Linda, do Wings (banda que ajuda a definir os rumos dessa carreira) e de seu trabalho solo puro sangue mais do que atestam isso. Paul se aventurou ainda noutras paragens, em parcerias mil, assim como Chico. Uma dessas muito infeliz com o miserento Michael Jackson, que já foi de seus melhores amigos, até lhe passar a perna e comprar os direitos autorais das canções dos Beatles antes dele, depois de o próprio Macca lhe revelar que estava a se organizar pra isso. Em resumo, o império Jackson vem de seu próprio sucesso e dos direitos dos Beatles. Faltam adjetivos depreciativos pra nomear o tal Michael Jackson, não? Mas, voltando aos vários Pauls, desde os Beatles, o mocinho do rosto afetuoso é um experimentalista, como se vê no Álbum Branco e ao longo da carreira solo do baixista.

Já Chico, em suas múltiplas facetas, chegou a “parir” Julinho da Adelaide, compositor de “Acorda, amor”, “Jorge Maravilha” e “Milagre brasileiro”, subterfúgio para Chico, visado demais pela censura a certa altura, ter suas canções liberadas. Julinho chegou a dar entrevista. Dentre outras coisas ditas, ele não gostava de Chico Buarque. Grande Francisco, um fanfarrão do bem!

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Entrevista concedida por Julinho, Chico, a Mário Prata, uma total zombaria com a ditadura. O próprio Mário fala sobre a entrevista em http://www.chicobuarque.com.br/sanatorio/abre_julinho.htm

No quesito personagem, aliás, Paul se tornaria personagem de si mesmo após o vigoroso boato de sua morte, supostamente simbolizada pela capa de Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band, pela mão pairando sobre sua cabeça.

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Os dois gênios ainda dividem o fato de serem muito mais prestigiados e venerados por suas composições bem mais pretéritas do que pelas atuais. Não é simples analisar o porquê disso. Nem pretenderei aqui fazê-lo, pois seria um novo artigo inteiro; talvez dois (Mas os deixo com uma dica de análise com a qual não necessariamente concordo em muitos pontos no que diz respeito aa obra do Chico: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/06/1472521-analise-boa-como-antes-obra-atual-de-chico-buarque-nao-fala-com-o-presente.shtml). Contudo, me parece que, muitíssimas gerações aprenderam a amar Paul e Chico nos seus nascedouros e, hoje, ainda esperam não necessariamente as mesmas canções, mas o mesmo impacto, inclusive nos contextos de sociedade em questão. Isso é irreproduzível, ora. Outros contextos, outras demandas, outros necessidades, outros mundos. Chico e Paul em si mudaram bem menos como talvez muitos de nós, do que a realidade factual aas suas voltas, ou, possivelmente mais significativo, aos recursos disponíveis em nossas vidas pra se lidar com esse mundo.

Sir James Paul McCartney e  Francisco Buarque de Hollanda nada mais têm a provar. Sorte nossa os termos, e eles ainda fazerem tanto sentido, há gerações! Quantas de nossas paixões, afinal, não têm relação ou tiveram, ainda que limitado, contato com pelo menos um dos dois? São muitos os sentimentos envolvidos.

Com certeza, se Eleanor Rigby encontrasse Geni, evitaria, empenhadamente, seu linchamento! E iniciariam uma bela e delicada amizade.

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Categorias: Crítica | Tags: , , , , , , , | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Septuagenariamente geniais (ou Quando Eleanor Rigby encontra Geni!)!

  1. Flavia Belo

    Puxa, o colega é mesmo um grande intelectual! Além de entender bem de literatura, política, etc, ainda manda bem no que se refere à musica!!! Achei tão legal aquela parte que vc fala de podermos “sentir” onde temos a real contribuição de cada um da parceria Lennon/Macca nas letras das músicas! Queria era poder ir logo lá naquela lista q vc mencionou e ficar lá analisando essas nunces… Minha filha teve dificuldades para ler seu texto, eu a ajudei e ela AMOU!!! PARABÉNS!!!

  2. 😀 Que BOM, Flávia! Transgeracional o texto!

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