O sapateado do diabo

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Pascoal era uma criança estranha. Não gostava daquilo que os outros meninos gostavam. Não se entusiasmava por máquinas e por esportes. Não sabia de cor nomes de jogadores e não torcia por nenhum esporte. Era calado, mas, principalmente, sério. Não sofria ameaças nem implicâncias das outras crianças, nem da rua, nem da escola, pois a sua postura, o seu silencia e as suas palavras acabavam por inspirar respeito. Outro, provavelmente acabaria sofrendo perseguições e hostilidade. Mas não Pascoal. Pascoal era um mundo a parte. Ele não irritava, apenas não se envolvia, mas quando falava com as outras crianças, ah!, elas escutavam. E como escutavam. Pascoal contava histórias, muito bem contadas, que mexiam com todos. Ele emprestava, sem saber, sem dominar técnica narrativa nenhuma, vida a todas as suas palavras. E as demais crianças seguiam as suas narrativas, encantadas, perplexas, pois algumas das histórias de Pascoal deixavam-nas assustadas, ao ponto de não dormirem por meses. Uma história, em particular, perturbou todos os seus amiguinhos de escola. Foi uma história que nenhuma criança de sete anos deveria contar. Na verdade, uma história que jamais deveria ter sido contada a uma criança de sete anos, talvez, de nenhuma idade. A história,mais ou menos como consigo recordar, que me tirou a paz e o sono por quase um ano na minha infância, é a que segue.

Era uma vez uma menina muito, muito ruim. Ela não tinha amigos, pois tratava todos como servos. Sua amizade acabava, quando o sue interesse acabava, e ela era incapaz de qualquer gesto que não visasse ao seu próprio benefício, ou ao que, pelo menos, ela entendesse como seu benefício.

Um dia voltando da escola, ela entrou no pequeno cemitério que havia no caminho para sua casa. Uma vez lá, ela entrou em um mausoléu há muito abandonado. Ninguém nunca soube por que ela fez isso. Ela não contou na época, e hoje é tarde demais. No entanto, do jeito que era, certamente ela acreditou que havia algo a ganhar naquela tumba. Talvez uma joia ou alguma riqueza esquecida, mas, como dito, jamais se saberá ao certo.

O fato é que, indiferente ao que esperasse, tudo que ela encontrou lá dentro foram caixões de madeira ressecada e envelhecida. De dentro de um deles, onde ela imaginava haver apenas ossos empoeirados e há muito descarnados pelos vermes e por bactérias necrófagas, uma voz baixa, porém clara, se fez ouvir. Ela murmurou através da treva essas palavras: “menina, essa terra já conheceu muito sangue e muito sofrimento, para enfim se tornar a casa de homens livres. Está muito errado agir como se você fosse uma senhorinha de escravos”. Foi esse o precioso conselho da morte. Mas a morte era sábia, afinal, ela é a única entidade que tem o tempo sempre ao seu favor, e percebe que a menina era uma tola. E o conselho, por mais sábio, na orelha do tolo se perde entre o lóbulo da orelha e o cérebro. Ela era rica, por que ouviria palavras presumivelmente vindas de uma pilha de ossos carcomidos por baratas?

E ela voltou para casa, de mãos vazias e sem maiores considerações pelo que acabara de passar (pessoas tão egoístas não são dadas à reflexão). À noite, no entanto, viria em breve a cobrir esse lado do mundo, com os seus temores e os seus pesadelos. Em sua cama, dormindo, a menina fora acordada, à meia noite, pelo som de baques vindos do telhado. A princípio, apesar de contrariada pelo barulho em hora tão inconveniente, ela pouco se preocupou com o fato. Mas à medida que os minutos passavam, o sim foi ficando mais alto. Ela foi reconhecendo nele uma espécie de ritmo, um compasso, uma cadência, como se se tratasse de uma dança sem música. Alguma coisa estava dançando no seu telhado, acima da sua cabeça, e dançava cada vez com maior animação. Agora, finalmente assustada, ela procurou abrigo escondendo-se sob o seu cobertor, tecido de panos caros e bons.

Na manhã seguinte, a menina não foi mais vista pelos pais. Ao procurar pela vizinhança, eles ficaram sabendo que um grande vulto, com os pés em chamas, fora visto se movimentando sobre o seu telhado. Uma lenda local contava que, antevendo um futuro repleto de maldades, o diabo com a permissão de deus colhia almas infantis por antecipação. E que ele, antes disso, marcava a casa amaldiçoada com a sua dança. Quando voltaram para melhor examinar o quarto, os pais viram que a sua cama estava coberta de sangue, e que no meio dela havia uma grande cruz, aparentemente desenhada no sangue por um único dedo, grande e grosso. Ao que tudo indica, a menina ouvira de madrugada o sapateado do diabo, e dizem que até hoje, sob a luz de certas luas, é possível, ao passar pela casa, à noite, escutar os gritos dados pela menina, quando ela fora arrastada da cama para o inferno.

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Categorias: Verso & Prosa | Deixe um comentário

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