O grevista vagabundo e o homem cordial

 ibge greve

Minha primeira recordação de movimento sindical organizado remonta aos anos 80 quando, a caminho da escola primária, eu ouvia pessoas com discursos enérgicos reivindicando melhores salários e condições de trabalho. Eram trabalhadores do IBGE, naquela época sediado na Mangueira. Sempre me chamou a atenção antes mesmo de eu compreender a militância de uma tia minha no movimento feminista ou em outros de suma importância pela luta por direitos.

Já naquele tempo, muitas pessoas diziam: ah, querem saber de nada! Não gostam de trabalhar esses vagabundos! Devem pedir para sair, que está assim de gente querendo o lugar! Eu considerava que havia algo errado. E que a substituição de quem luta levava a que as condições de trabalho piorassem indefinidamente.

Hoje enxergo com clareza que, com bastante habilidade, estabeleceu-se a cultura do homem cordial nas relações de trabalho. Tal cultura baseia o equilíbrio entre custos e benefícios, considerando que os ganhos indiretos, tais como a satisfação em integrar a organização ou em realizar o trabalho pelo qual é responsável, agem na vida dos funcionários como uma cachaça. Quem trabalha em determinadas instituições entenderá com mais profundidade o teor etílico da referência. Comparação já ouvida por mim em várias falas de integrantes de diferentes categorias profissionais quando se referem ao gosto pelo trabalho.

O homem cordial não aponta desmantelo, não trata de mazelas, não faz críticas ao universo de que participa. Se possível, torna-se amigo de todos para assim conceder e obter favores, amalgamando as esferas pública e privada. Permite ligações pessoais no ramal do trabalho, oferece carona em carro oficial, utiliza espaço público para ganhos particulares. Boa gente, camarada, sorri para todo mundo e, principalmente, não faz greve.

Claro que não afirmo que os não grevistas sejam essa espécime de homem cordial. Mas tenho minhas dúvidas se há algum homem cordial que fuja à descrição.

Nesse contexto de luta travada (com toda a polissemia do adjetivo) entre direção e grevistas, os cordiais operam de maneira perniciosa: enfraquecem a autoimagem dos demais trabalhadores, são escorregadios quanto a suas possíveis convicções, fazem cara de paisagem e acenam como os pinguins de Madagascar, sem avisar que o navio não tem mais combustível.

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Categorias: Crítica, Política, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , | Deixe um comentário

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