O racismo foi inventado pelo PT: “Pena que o povo não entenda porra nenhuma”

O professor de História André Luiz Ribeiro

O professor de História André Luiz Ribeiro

Cena 1: Dia 18 de novembro de 1889, Aristides Lobo, um dos “pais da República”, escreve, no jornal Diário Popular, o célebre artigo em que declarara que o povo assistira à Proclamação “bestializado”. Referia-se, talvez sem o saber, à total alienação a que a população fora submetida. Tão ao largo estavam dos eventos históricos que se desenrolavam diante dos seus olhos, que muitos “acreditaram seriamente estar vendo uma parada”.

Cena 2: Dia 18 de julho de 1945, desembarcam no Rio de Janeiro os primeiros membros da Força Expedicionária Brasileira, retornados da vitoriosa campanha da Itália. São ovacionados pela cidade inteira, mas, na prática, enquanto força militar, não existem mais. A FEB fora dissolvida poucos dias antes do retorno, e os praças, caso único no mundo, desfilaram desarmados na parada de retorno. Ao que tudo indica, Vargas, ainda na vigência do Estado Novo, temia ser derrubado pelos soldados que ele mesmo enviara para lutar contra ditaduras estrangeiras.

Cena 3: Um dia qualquer de um ano qualquer da segunda metade do século XX. Uma burguesinha mimada e chata passa para um programa de doutorado, na cidade do Rio de Janeiro. Ela ingressa nele imediatamente após o mestrado, pelo qual ela foi paga por dois anos, mas durante os quais ela nunca abriu um livro, e pouco ou nada compareceu às aulas. No doutorado, ela espera obter uma terceira bolsa, agora a tal “bolsa sanduíche”, para passear na Europa durante um ano (sem estudar igualmente nada, é óbvio). A família tem perfeitas condições de pagar por esse passeio, mas ela prefere ir com o dinheiro público (ela chama isso de independência), tirando a oportunidade de alguém que gostaria de estudar de verdade, e que precisaria e mereceria a bolsa de verdade.

Cena 4: Dia 23 de maio de 2014, a presidente Dilma Rousseff, por meio do decreto 8.243, tenta fortalecer a participação da sociedade no processo político do país, com a criação da Política Nacional de Participação Social. Não tive sequer tempo de estudar o tal decreto direito, e ele já estava praticamente enterrado. O Congresso teme perder prerrogativas. O jornalismo o atacou por todos os lados, com certeza sem lê-lo (saber do que algo realmente se trata atrapalha na hora de mentir).

Cena 5: Dia primeiro de julho de 2014, o burlesco Arnaldo Jabor escreve mais uma crônica pitoresca em um jornaleco de direita para o qual ele presta os seus serviços. Nela, ele tenta ridicularizar a frase da presidenta de que foi uma elite branca que a vaiou no estádio, dias antes. Para sustentar sua argumentação, ele seleciona frases de Lula também falando da tal elite e chama o povo de burro em duas ocasiões (uma delas deu o titulo deste humilde escrito). O brilhante articulista também parece responsabilizar o PT pelo racismo e pela luta de classes no Brasil (ao que tudo indica, a versão mais esquizofrênica e alucinada da direita está tentando construir uma visão nesses termos).

Cena 6: No mesmo dia da publicação de tão brilhante crônica, o mesmo jornal noticia que um professor negro escapou por muito pouco do linchamento, no Balneário São José, em São Paulo. Para provar que era professor, um dos bombeiros que o resgatavam exigiu que ele desse uma aula sobre Revolução Francesa.

Há uma ligação e uma continuidade histórica entre todos esses eventos. A demofobia das elites do país já foi bastante estudada. Foi essa demofobia que sempre excluiu a população da participação no processo político e social brasileiro. Essa elite, temerosa em perder seus privilégios, jamais armaria a população, nem mesmo para ajudar a derrubar uma monarquia falida que não mais representava os seus interesses. Também foi ela expressa no retorno dos pracinhas, quando os heróis militares foram desarmados por um ditador que, em breve, terminaria derrubado de qualquer forma. Há muito tempo que digo que a corrupção não acabará prendendo corruptos, mas com medidas concretas para acabar com os seus mecanismos. Uma dessas medidas, é evidente, seria trazer a população para participar da vida política, via criação de fóruns que empoderem as pessoas, como discussões de orçamento nas esferas municipais, criação de conselhos de cidadãos e etc. A veemência com que tais propostas foram recentemente rechaçadas mostra que os nossos caçadores de corruptos (já foram chamados de “caçadores de marajás”) só estão interessados em prender membros do partido adversário da vez, e nunca em procurar uma solução real, ainda menos uma que passe por armar (simbolicamente) o povo.

A “meritocracia à brasileira” é um dos instrumentos mais fortes da manutenção desses privilégios, tanto que todos esses alucinados de direita afins ao Jabor e à sua infeliz croniqueta lutam com ferocidade pela sua manutenção. O problema da tal meritocracia é que ela não existe, o que existe é uma violenta pré-seleção social que mantém as pessoas das classes “certas” nas posições sociais certas. É o que permite, por exemplo, que a nossa amiga que vive de bolsa de estudo e não estuda não a perca. A bolsa e a viagem são benefícios sociais pré-selecionados, e para mantê-los importa muito pouco o que ela produzirá (ou melhor, não produzirá), pois a sua vaga já estava reservada (trata-se de uma espécie de cota informal, garantida por leis não escritas, mas solidamente estabelecidas).

Foi essa mesma política de cotas invisíveis que garantiu que por décadas, Arnaldo Jabor, o cineasta de um filme, vivesse às custas da Embrafilme, sem produzir absolutamente nada (quando o Estado cansou de sustentá-lo, ele foi trabalhar para a direita para criticar… os privilégios concedidos pelo Estado). A sua croniqueta aqui mencionada não poderia ter sido mais infeliz. Na sua ânsia de garantir a manutenção do status quo, das pessoas “certas” nas posições sociais certas, ele tenta desastradamente usar frases contra a elite branca, algumas tiradas ridiculamente dos seus contextos originais, ditas por Lula, pela Dilma e por membros do PT. Faz ela coro, de maneira ora mais, ora menos direta, ao discurso da inexistência do racismo no Brasil, e da discriminação que os brancos, coitados, sofrem com políticas de cotas raciais, por exemplo (que aparecem na confusa croniqueta erroneamente como uma criação do PT). Trata-se portanto de um malabarismo pseudoteórico para demonstrar que no Brasil não havia luta de classes antes do PT e, claro, que aqui nunca houve racismo.

A realidade invariavelmente desmente esses idiotas e as suas tentativas de ocultá-la, no entanto, essa peça de fantasia desmoronou, frente ao absurdo social e racial brasileiro, em tempo recorde, uma vez que a mesma publicação, no mesmo dia, noticiou que um professor negro e amarrado foi obrigado a dar uma aula sobre Revolução Francesa para provar que não era um ladrão e não ser linchado (a nossa realidade é um pesadelo roteirizado por Ionesco e dirigido por Buñuel). Mais uma vez um episódio “jornalístico” ressalta involuntariamente a falência desse discurso e dessa classe.

Sou favorável às políticas de cotas, assim com ao bolsa família. A única crítica razoável e esses projetos é que eles, enquanto programas de emancipação do homem, representam muito pouco (embora representem muito para as populações por eles retiradas da fome e da miséria). O PT tem defeitos o suficiente, e há críticas o suficiente a serem feitas ao partido e ao seu governo. Por favor, parem de inventar besteiras. Também seria de bom-tom se pessoas que foram privilegiadas a vida inteira, de uma forma ou de outra, tivessem a educação e a honestidade de parar de atacar programas sociais generosos e inéditos no país. Não sejam hipócritas como o Arnaldo Jabor e lembrem-se: vocês todos estudaram em universidades públicas, pelas quais vocês não pagaram nada. Vocês todos receberam bolsa passeio na Europa ou nos Estados Unidos, ou têm as melhores pensões, ou as melhores aposentadorias, ou os melhores cargos públicos, ou os melhores financiamentos de casa própria, ou tiveram algum projeto alguma vez de alguma forma qualquer paga, ou isenta de impostos, pelo governo.

Observação final: nesse país mau e surrealista, os bombeiros são uma organização militar. Bombeiros têm porte de arma de fogo, o que significa que eles tinham a autoridade e os meios para impedir o linchamento. O que diabos deu na cabeça dessas pessoas para pedirem uma aula para o camarada comprovar que era professor? E se a aula sobre a Revolução Francesa não procedesse, eles deixariam linchar (estilo, é “só” um preto, podem linchar)? Uma vez que ele deu uma aula convincente, ele “apesar” de ser preto não foi linchado, “só” foi levado para a delegacia, onde foi preso, passou dois dias e ainda vai responder criminalmente pelo roubo do bar, uma vez que o proprietário, que o espancou, não retirou a acusação.

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Categorias: Política | 5 Comentários

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5 opiniões sobre “O racismo foi inventado pelo PT: “Pena que o povo não entenda porra nenhuma”

  1. Equívoco Humano

    Interessante é que fica estabelecido que qualquer bolsa de estudo de mestrado ou doutorado foi dinheiro jogado fora. Generalização tacanha e grosseira, que inviabiliza completamente toda a construção do texto, o que ainda reforça com a criação da cena 3, que pretende ser um espelho da realidade. Quando um artigo e escrito sobre o teórico senso comum(todo mundo sabe que…) é porque o autor é preguiçoso ou mentiroso ou por fim comprado. É ainda estranho que uma pessoa que tenha conhecimento suficiente para fazer toda esta argumentação, ache que não é do interesse do Brasil(ou qualquer país) pesquisa e desenvolvimento. Toda a bolsa para estudo concedida torna obrigatório a apresentação do resultado da pesquisa(mestrado ou doutorado), se o controle sobre isso não funciona, é o que tem que ser corrigido. Mas me chama a atenção com tantos assuntos práticos, Petrobrás, Gamecorp, Copa(custos e isenções), Mensalão, 39 ministérios, Investimentos em países Vizinhos, compra de médicos(sem revalida), por que o autor se incomoda de escrever sobre este assunto quase tangencial a realidade, e de maneira tão comprometida a ponto de criar um cenário e generalizar grosseiramente? Pois se somos a sexta maior economia do mundo e temos a maior carga de Impostos no mundo, como podemos o 85º no ranking mundial do IDHM, sem ter uma monstruosa e significativa corrupção para combater? Acho este assunto bem mais relevante do que qualquer outro, pois este está diretamente ligado as necessidades de quem mais precisa. Só para deixar claro, meus estudos foram em intituições privadas, nunca tive bolsas, nunca tive um projeto que dirá digno de isenções, e meu plano de aposentadoria é o público. Sou completamente favorável a bolsas sociais, com metas e fiscalização(como qualquer outra bolsa), acho inclusive que utilizadas corretamente, ajudam no crescimento da economia, pois diminuem o entesouramento, fora que são instrumentos importantes para diminuir abismos econômicos. Concluindo minha verborragia, não consigo entender porque o texto nunca bate de frente com a corrupção instalada, sempre diminuindo ela, como se isso fosse quase nulo. Como se estes escandálos não comprometessem a economia, o custo de vida, os serviços públicos e a própria democracia. O texto parece que está compromissado com o projeto petista, mas apenas dissimuladamente, apontando o PT como um mal menor. Se for, qualquer arumentação aqui é perda de tempo. Se não for, vou deixar uma demonstração clara e prática de como a democracia está sendo corroída. No processo do mensalão(compra de votos no Congresso), ficou estabelecido que o Zé Dirceu era o cabeça e o Marcos Valério era o executor. Como pode, sem o STF estar comprometido a pena do Marcos Valério ser maior que a do Zé Dirceu? Fica claro que o Congresso está a soldo e o STF também. Independência dos poderes é vital para democracia, fica bem claro a independência e harmonia entre os poderes não existem mais na terra brasilis. Quer ser útil a sociedade brasileira, combata isso. Se estás a soldo, mantém esta tua mesma linha, é o que tu faz para viver. Meu consolo é que neste trem desgovernado somos todos passageiros…

    • pauloffred

      Só li a primeira linha e bastou para perceber que vc é analfabeta

      • Equívoco Humano

        Resposta coerente com o texto. Cheia de ódio e desprovido de argumentação!!!! Obrigado por demonstrar, trouxa!!!

  2. pauloffred
  3. pauloffred

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