Estupro: de quem é a culpa?

Era apenas uma menina quando foi assediada pelo tio. Assistia à TV e ele se chegou num movimento de aproximação dos lábios. Quando entendeu, assustou-se e assustou-o. Ele partiu alvoroçado. Nunca contaram a ninguém. Não queriam magoar a tia. Não queriam tragédia na família. O pai com certeza mataria. Acordo mudo na cumplicidade entre vítima e agressor. Depois de muito tempo, aceitou uma bala do tio, que chorou um sorriso de desculpas.
Era apenas uma moça quando foi agredida pelo namorado da irmã gêmea. Voltavam de uma festa. A irmã veio mais cedo. A poucos metros de casa, o rapaz golpeou-a a murros. Desfaleceu. Não se lembra bem da violência. Passou a maior parte do tempo desmaiada. Sua memória surge em flashes que ela preferia não ter vivido. A dor maior foi a irmã não acreditar. Imagina-a morta desde então. O rapaz, temeroso da justiça local, procurou os caras da boca para acusá-la de difamação. Quando eles apareceram, ela ainda estava caída aos prantos no banheiro. Mostrou o corpo ferido e a calcinha suja de sangue para provar que foi um ato não consentido. Os manos queriam cumprir a sentença, ela intercedeu. Não queria carregar esse peso na consciência. Encontra constantemente o agressor por acaso. Moram na mesma comunidade.
Era apenas uma jovem quando foi abusada pelo rapaz com quem saía às vezes. Já haviam transado, mas isso não era credencial para o que se seguiu. Ele forçou o contato. Ela, agora não. Ele, quem manda sou eu e ninguém vai ouvir e ninguém vai acreditar, você está na minha casa. Ele a ameaçou . Ela, muda, não resistiu à decepção e fez-de de morta. Abandonou-a sem dinheiro bem longe de casa.
Era apenas uma mulher vivendo um novo amor após casamento desfeito sem chance de recomeço. Infelizmente ainda moravam juntos. O homem exigia respeito com o membro rijo entre suas coxas. Pai de seus filhos. Não moram mais juntos. Ela o encontra para entregar e buscar as crianças.
Era apenas uma mulher divorciada à procura de um novo amor. No caminho, encontrou um homem gentil, agradável, conhecido seu de algum tempo. Na primeira noite em que saíram, ele resolveu passar em casa. Pediu que ela subisse com ele ao apartamento. Disse que tinha uma surpresa. Ao demonstrar resistência ao contato físico precipitado, ele a esbofeteou. Traumas. Apanhara do companheiro antes. Não teve forças. Ele continuou. Quando ela pensou que já era demais, tocam a campainha. É outro amigo agressor. Com a alma em pedaços e o corpo estraçalhado dos abusos, é deixada no ponto de táxi, com um beijo de me liga.
Além de não serem fictícias, o que todas essas situações têm em comum é o estado de fragilidade imposto às mulheres por conta de viverem numa sociedade que as condena pelos abusos sofridos. Será que tenho de retribuir os doces que recebo? Será que eu ignorei os olhares do cunhado e deveria ter evitado as ruas mais escuras e desertas? Será que ir à casa de um homem solteiro significa obrigatoriamente ter de manter relações sexuais com ele? Será que eu deveria engolir o sêmen do ex-marido como pena pela transgressão de ousar amar?
Cada resposta negativa ecoa como um grito que foi silenciado pela inocência ou pela experiência: como saber?, como não perceber? A sociedade distribui para as mulheres manuais de boas maneiras que tentam moldar as formas de se vestir, de gesticular, de se expressar, de se relacionar. Manuais que ditam também a que horas sair, por quais ruas andar, que lugares evitar. Manuais de uma sociedade que tenta ensinar as mulheres a se protegerem, quando deveriam ensinar os homens a se respeitarem. Não podemos mais permitir o silenciar das vozes.

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Categorias: Cultura, Reflexões, Sociedade | Tags: , , | 9 Comentários

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9 opiniões sobre “Estupro: de quem é a culpa?

  1. Flavia Belo

    Estupradores pra mim são psicopatas. Psicopatas DEVEM ser mortos. São como animais selvagens diante de um humano. Vc está numa selva, com uma arma na mão, e se vê diante de um leão rosnando pra vc! O que vc faz??? Bem, eu atiro! Sem pestanejar! Ou ele, ou eu. Ele matará outras pessoas! Eu não! Se pudesse, salvava muitas outras presas desse maldito predador!!! Se me colocassem uma situação dessas na minha frente, escolho salvar a vítima de uma agressão tão hedionda!!!! MATO o estuprador! Isso é um animal selvagem. Não! Com o perdão aos animais selvagens, que matam por sobrevivência! Isso ñ é um animal selvagem, não!!! É um monstro! Não existe culpado além do próprio estuprador! Monstro doentio que deve ser exterminado quando pego no flagra!!! Eu não piscaria! E dane-se quem discorda!!!! Já SEI que é o que EU FARIA com esses monstros!!! Sem sombra de dúvida!!!

  2. Equívoco Humano

    Não há crime mais abjeto…

  3. Daniel Rocha

    Eu vi problemas diferentes. O primeiro foi pedofilia e isso tanto acontece com meninos quanto meninas. Nesse caso, não vejo como ensinar o homem a ser gentil. O cara é doente. Se há alguma coisa a fazer é ensinar a família a denunciar e não ficar calada.

    O segundo, não entendi muito bem. Os bandidos mudaram de ideia e iam pegar o cara? Foi isso? Bem, nesse caso vejo que o corpo policial destinado a atender mulheres deveria ser generalizado para todas as delegacias e não somente em especializadas.

    O terceiro sim é machismo e é algo que pode ser modificado. Idem o quinto. O quarto é semelhante, mas nesse a mulher aparentemente sucumbe ao machismo, colabora, aparentemente. Então é o caso de não só combater o machismo, mas fazer a mulher ser mais mais ativa.

    Acho que a conclusão foi superficial. Não é uma questão de se comportar de boas maneiras. É questão de ter a motivação abrir a boca para denunciar e ter alguém que possa acolher a queixa crime de maneira adequada. Não vejo como ensinar que machismo é ruim e sim que a mulher ou a criança possa ser temida. Quanto a pedofilia, o caso é doença mesmo, e cabe a família, ou algum membro dela, de ter segurança ao denunciar.

    • Aline Silva

      Todos os exemplos envolvem abuso sexual em que as vítimas são mulheres e essas mulheres repetem o ciclo de se culparem pela violência sofrida. No mais, agradeço a leitura e o comentário. Você entendeu bem, sim, o segundo exemplo. Só não entendeu que a justiça da delegacia não chega às favelas nem nesses casos nem em vários outros.

      • Daniel Rocha

        A justiça da delegacia chega sim, e aos montes, com cada vez mais violência. Senão, não haveria tanto negro e pobre sendo esculachado e nem traficante andaria armado. Ultimamente, a policia é a própria bandidagem no local, principalmente aqui no RJ, capital. É miliciano demais. Não sei como anda nas outras capitais.

  4. Aline Silva

    Daniel, acho que está havendo mero descompasso semântico entre nós. Foi você quem afirmou que “o corpo policial destinado a atender mulheres deveria ser generalizado para todas as delegacias e não somente em especializadas” e eu quis frisar que as mulheres vítimas de violência dentro das comunidades dificilmente chegam às delegacias. Conheço casos de mulheres que denunciaram violência doméstica e receberam a intimação para entregarem ao agressor. Como assim??? No mais, agradeço mais uma vez a interação.

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  7. Pingback: Dois pesos: estupro coletivo nas mídias | FeminAGEM

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