Shine on!

S-Y-D

Outro 07/07. Mais um aniversário fúnebre de Syd Barrett, falecido nessa data, em 2006, aos 60 anos, vítima de complicações decorrentes da terrível, silenciosa e cruel diabetes. Ano passado, também publiquei aqui no blogue um texto em homenagem ao músico floydiano, Wish you were here, que vale ser lido, visto (e ouvido), até porque tentarei me repetir o mínimo possível nesta nova homenagem. Acho que, naquele texto, falei mais de Pink Floyd. Neste, tentarei falar mais de Syd em si. Claro que a interface entre um ponto de vista e outro é muito ampla.

syd dead

Claro que há, pelo menos, duas razões pra todo esse reconhecimento. Primeiro, o Pink Floyd é A banda, roquenrol decantado em seu estado mais puro e virtuoso. Depois, não dá pra se falar sério de Pink Floyd sem se passar obrigatoriamente por Syd.

Muita gente, até mesmo alguns fãs, acham, por vezes, maximizado o culto ao guitarrista, nascido Roger Kieth Barrett, tendo nos tempos de faculdade de arquitetura em Cambridge, se tornado Syd. Na verdade, participou ativamente dum único álbum do Pink Floyd, o primeiro, o antológico The piper at the gates of dawn, de 1967. Das 10 faixas do álbum, 7 eram de total composição de Barrett e ainda mais 2 eram dele, em coautoria com os demais músicos da banda. Aliás, foi ele a presença que impulsionou a banda, desde antes de ser o Pink Floyd, mesmo antes de ser o The Pink Floyd Sound (nome de transição da banda, em 1966). Na banda ancestral ao Pink Floyd, o Sigma 6, que com Roger Waters, Richard Wright, Nick Mason, Bob Klose (o Pete Best floydiano), Syd já era a figura de proa nos bastidores e no palco.

Os cinco membros do Sigma 6, banda ancestral ao Pink Floyd, em 1965, em Cambridge.

Os cinco membros do Sigma 6, banda ancestral ao Pink Floyd, em 1965, em Cambridge.

[Arnold Layne, um dos primeiros singles do Floyd, contando as aventuras dum travesti cleptomaníaco de roupas íntimas femininas, a mercê nos varais.]

O estilo de início de carreira do Floyd, com a cara de Syd nele, era bem diferente do que nos acostumamos a chamar de Pink Floyd. Melodias simples em bases harmônicas nem tanto e uma instrumentação bem básica, com riffs de guitarra que, hoje, soam um tanto como datados, ainda que de bastante vanguarda pro fim dos anos 60. Isso tudo com alguns sons incidentais, talvez único fator a se desenvolver profundamente na trajetória sonora  floydiana, e uma ambientação melódica que captava o clima lisérgico que se queria traduzir em acordes. Eis, de forma bastante simplista o som do Pink Floyd no breve, mas marcante período Syd Barrett.

[Lucifer Sam, uma canção de Syd para seu gato.]

No 2º álbum, A saucerful of secrets, de 1968, já lisergicamente catatônico, ele comporia apenas uma faixa, Jugband blues, com uma letra bastante perturbadora, possível expressão de seu estado na banda,  dentro e fora dos palcos, uma ausência constantemente presente, decorrente do intenso convívio com LSD, o que levaria a banda a uma decisão que seria um dos maiores divisores de águas de sua história: primeiro contactar David Gilmour, que ensinara Barrett a tocar guitarra, para lhe suprir nos shows quando este “apagasse” e, depois, o ex-mestre se tornaria o guitarrista definitivo da banda, além de principal compositor dela, uma mudança de rumos bastante drástica, responsável pelo som do Pink Floyd que hoje conhecemos.

[Jugband blues, a derrocada derradeira de Barrett]

 

syd2O outrora líder floydiano ainda manteria uma curta e cada vez mais extravagante carreira solo. Lançou dois álbuns, The madcap laughs, em 1969 e Barrett, em 1970. Produtor dos dois álbuns, David Gilmour relata alguma dificuldade no trabalho cotidiano com Syd e seu comportamento altamente desconcentrado. Em 1988, a gravadora EMI ainda lançaria Opel, um apanhado de canções inéditas. A mesma gravadora ainda editaria a coletânea definitiva de Barrett, com o sugestivo título Wouldn’t you miss me, em clara alusão aa profunda reclusão que o próprio artista se impôs. Curiosamente, a data de lançamento do álbum nos Estados Unidos é 11/09/01, uma boa data para esquecimento, sem dúvida. Nessa reclusão autoimposta, Syd passou a se dedicar aa pintura e aa jardinagem. Muito pouco se sabe de sua vida nesses anos. Pelo resto da vida, continuou a receber pelos direitos autorais do Pink Floyd, como já confirmado mais de uma vez por sua mãe.

Uma de suas poucas aparições conhecidas foi justamente a famosa visita surpresa e anônima ao estúdio durante uma das sessões de gravação, em 1974, do álbum Wish you were here, que seria lançado no ano seguinte em sua homenagem. Depois, nunca mais se veriam.

O que terá sido da vida de Syd após 1970? Ele saiu do Pink Floyd e foi ao submundo da cena alternativa. O que terá sido isso? Que dores terá sentido? Que frustrações? Que sonhos ainda nutriu? Terá sido feliz?

Afinal, Barrett é tão fantasticamente importante por ter se tornado uma permanência, embora ausente, na carreira do Pink Floyd. Além de contribuição musical, ele deixou ali sua ausência, a culpa por ela gerada e um sentimento contínuo de ajuste de contas, de reparo necessário na própria história da banda. Ele virou um referencial de limites e limiares. Ele continuou a ser um farol, não intenso, mas oscilante em meio aas penumbras de lembranças e esquecimentos da biografia floydiana. Da apoteose musical de Shine on you crazy diamond aa simplicidade acústica de Wish you were here, Syd foi mantido ali por perto, com seu brilho difuso.

for sydComo Roger Waters diria no show de 2005, reunindo a formação clássica do Pink Floyd, após duas décadas separados, no Hyde Park, em Londres, como parte do Live 8, organizado por Bob Geldof, ator e músico (o personagem Pink do filme The Wall), “Isso tudo também é por Syd”.

Barrett foi, assim, uma força propulsora que levou o Pink Floyd a regiões nunca antes visitadas na música.  Canções que buscavam, em sua multiplicidade de acordes e efeitos melódicos, essências perdidas, despercebidas, obscurecidas, mas com um brilho próprio que só poderia ser notado dum certo ponto de vista existencialmente muito específico. Barrett, enfim, se entranhou na alma do Pink Floyd. Seu brilho todo peculiar acabou por se esmaecer, em meio aas extensas viagens de LSD, mas não se apagou. Barrett: a lembrança inacabada da projeção de tudo o que ele mesmo poderia ter sido.

syd-all

Shine on é um cumprimento imortalizado dentre floydianos e uma doce permanente citação a Barrett. SHINE ON!

 

 

 

 

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