Somos todos pachecos

pacheco

Machucou-se o garoto-propaganda Neymar. Um país inteiro em comoção, uma aflição compartilhada por 200 milhões de corações. O sofrimento de um ícone, de repente, uniu pela dor a nação. Dias antes, um viaduto em construção – que deveria estar pronto para o mesmo evento – ruiu, ceifou a vida de dois brasileiros e deixou mais duas dezenas feridos. A comoção não existiu. Talvez nem mesmo o fato tenha existido na cabeça de muitos.

O futebol traz seus paradoxos a cada quatro anos ao “país do futebol”. De uma hora para outra, milhões de pessoas passam a amar seu país e defendê-lo visceralmente. A vitória é uma necessidade, uma obsessão, uma verdadeira obrigação. Heróis clássicos envergam a camisa amarela e colocam o país na ponta de suas chuteiras. Mais que um esporte, é a afirmação nacional que entra em campo.

Sim, pois é a conquista do título que nos redime. Uma Geni em forma de povo. Todo o descompromisso social, o individualismo, a sonegação, a falta de ética e o jeitinho precisam ser compensados com a superioridade com a bola nos pés. Escolas, hospitais, transportes: ela vem para nos salvar, ela vai nos redimir. Bendita Copa. Prove aos gringos que isso é Brasil. Que somos representados pela deusa Nike (um trocadilho que já nasce pronto) da vitória. Não somos vira-latas, estamos no topo do mundo.

Ai de quem ouse ser dissonante!

No campo, o capitão lê a mensagem contra qualquer discriminação sob aplausos de um público essencialmente branco. As crianças que entraram junto dos atletas transbordam sua felicidade perfiladas junto aos ícones nacionais. Entre elas, nenhum dos sorrisos é negro ou índio. Mas isso não importa agora, vamos ao hino, vamos às lágrimas. Respeitem esse país, ouçam essas vozes! Depois de enxugar as lágrimas e respirar fundo, é a hora de vaiar com força a música do país adversário. Isso é um estádio de futebol, não um convento, ora. Protegida pela multidão, surge nossa xenofobia hipócrita.

Éramos todos macacos quando um espanhol arremessou uma banana em campo contra Daniel Alves. Espanhóis são racistas. Orgulho de ser brasileiro, o povo das diferenças. De repente, não mais que de repente, em um lance de jogo, Neymar estava fora da Copa. Deixamos de ser macacos, havia um culpado. E uma cor. Macaco era o negro colombiano, vilão eleito e perseguido pelo vingador espírito brasileiro. Ofensas, inclusive, à filha de seis anos do atleta da Colômbia, que recebeu insultos por seu pai e recebeu votos de que fosse estuprada ou tivesse a coluna machucada tal qual o menino-gênio do futebol brasileiro.

Brasileiros com orgulho e com amor. Muito amor, percebe-se. Entretanto, nas redes sociais, ninguém foi ao mural dos donos da empreiteira responsável pelo viaduto que caiu postar-lhes: assassinos. O orgulho desta nação termina na segunda página, quando deveria começar a história séria.

Preferimos, no cotidiano, continuar no jeitinho, sem nos importar com o problema alheio, pois quem morre de fome, sem atendimento nos hospitais ou debaixo de escombros não merece ter sua dor compartilhada pela sociedade. O Neymar está fora da Copa, tragédia. Professores estão fora da folha no Rio de Janeiro porque fizeram greve, silêncio. Daqui a duas semanas falaremos mal da educação do país. Mas de forma genérica, sem mover uma palha em direção a qualquer solução. É o compromisso descompromissado que nos leva exatamente a ficar no mesmo lugar, enquanto fingimos nos mover para a solução.

Não que o futebol seja culpado por isso, jamais! Apenas devemos lembrar que é um esporte, nada mais que isso. Emocionante, cativante e espetacular, acima de qualquer coisa. Mas, qualquer superioridade brasileira é meramente ilusória, pois restringe-se não só a esse campo temático, como também se limita no tempo e às circunstâncias esportivas da conquista. O futebol, traço cultural brasileiro, espelha o que a sociedade tem a oferecer.

Talvez por isso joguemos sempre baseados no talento, na criatividade, no jeitinho, no craque, no indivíduo, pois o Brasil é assim: buscamos soluções imediatas e mágicas, vivemos esperando um salvador da pátria para resolver os problemas, preocupamo-nos apenas conosco e os problemas são sempre individuais (e, se possível, dos outros).

Quando, no futebol, não temos esses recursos, ainda assim a vitória é necessária, pois “não desistimos nunca” e, se necessário, bateremos no adversário para bater o adversário. Não é por acaso que o Brasil é a equipe que mais fez faltas na Copa. No fatídico jogo de Neymar (pelo que li, ele parecia ter morrido, não se contundido apenas), o Brasil cometeu 31 faltas – recorde da competição – e caçou implacavelmente o craque do time adversário. Os jornais estampam que o “Brasil se impôs com força ao adversário”. Mas o rival, mesmo tendo cometidos menos faltas, foi “violento”. Sem a pretensão da análise esportiva, a parcialidade jornalística é marca brasileira que muitos voltarão a perceber e a acusar dentro de duas semanas.

Não vemos o futebol como esporte coletivo, pois nossa sociedade despreza quase que por completo a coletividade. Preferimos o talento nato, moleque e descompromissado ao esforço, trabalho e dedicação. Apreciamos o drible e o golaço individual bem mais que o gol obtido por meio de trocas de passes ou jogadas ensaiadas.

A imprensa chora nossa perda. Relembra Copas passadas para revigorar forças e unir ainda mais o Brasil. Em 1962, no Chile, foi Pelé o contundido a ficar fora da Copa. Em seu lugar entrou Amarildo, o “possesso” e deu conta do recado. Especialistas discutem onde estaria esse “Amarildo” no elenco brasileiro. Procura-se em 2014 por um Amarildo, que comoção. Algumas famílias e amigos ainda choram outras perdas. Relembram meses passados e perguntam por toda a favela até hoje onde está Amarildo. Os acusados pelo crime já foram inocentados. Talvez seja culpa da Fifa. Enfim, parece que um faz bem menos falta que o outro. Ainda que o primeiro seja tão somente uma metáfora. Pra frente Brasil, salve a seleção. Melhor que tentar salvar o próprio povo.

No fim, somos todos “pachecos”. O verde e o amarelo tomam conta de todos os lugares. A condenação contra os hereges que se levantam contra a pátria e ousam não gritar Brasil é fulminante. Serei linchado por este texto (sorte a minha não ter tantos leitores!), por não me adaptar. A ditadura do pensamento único patriótico me pergunta: não é brasileiro? Por que não se muda daqui? Há pouco ou quase nada a se garimpar em pensamentos nestes tempos de ludopédio. Não há mais nada, apenas a necessidade de afirmação de um povo órfão de si mesmo. Antes que alguém venha me acusar do discurso raso: não, uma Copa não elege presidente, não esconde os problemas. Pelo contrário, uma Copa acaba por mostrar exatamente quem somos, como pensamos e de que forma agimos. Infelizmente.

Anúncios
Categorias: Reflexões, Sociedade | 1 Comentário

Navegação de Posts

Uma opinião sobre “Somos todos pachecos

  1. Alexandre Bollmann

    É isso aí Walace, o viaduto cai, em Pedrinhas continua se demonstrando que existe sim pena de morte no Brasil, mad o que importa é a Copa. Vejo os jogos com meus filhos, torço, mas ensino a eles que não é por um jogo de futebol que temos dr ostentar bandeiras no carro ou na janela. Tb já fiquei sem salário por fazer greve. Mas de que tudo isso importa? Pra frente Brasil.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: