Pelo direito de falar asneira: “Pena que o povo não entende porra nenhuma” parte 2

Seria tão bom se o inferno existisse

Seria tão bom se o inferno existisse

Semana passada escrevi aqui no blog um texto propositalmente agressivo, quase um desabafo, motivado pela leitura de uma croniqueta particularmente infeliz saída em um desses jornalecos de direita de baixo profissionalismo e nenhum compromisso ético. Entre outras maravilhas, a tal croniqueta reclamava do racismo que os brancos sofrem, insultava o povo brasileiro (de onde vem a frase-título acima) e fazia toda a sorte de malabarismo para desqualificar os críticos à sociedade racista e elitista em que vivemos. Tratava-se na verdade de uma defesa da “elite branca”, tentando demonstrar que ela não existe (ou seja, que não há racismo nem luta de classes no Brasil). Como bem escreveu Charles Baudelaire, e lá se vão uns bons 150 anos, “o melhor truque do diabo é fingir que ele não existe”. E assim seguimos aturando repaginação em cima de repaginação do discurso da democracia racial e da sociedade supostamente igualitária em razão da sua “natural” benevolência e generosidade. “Conversa para boi dormir”, como se diz lá em Cruz Alta.

Talvez, uma das coisas que mais tenham me atingido, na croniqueta (além da infeliz coincidência de sua publicação com o quase linchamento de um professor negro), foi constatar que o seu autor, figura pública e não pouco desprezível, usasse para sustentar as suas posições argumentos que recorrentemente são usados para desqualificar muitos textos aqui do blog. Há, portanto, uma via de mão dupla aí. Esses “pensadores” de direita formam leitores histéricos e raivosos, que por suas próprias limitações intelectuais repetem seus argumentos, mas com mais ódio e menos compromisso ainda com fatos, dados, fontes, objetividade, imparcialidade e etc. No entanto, esses jornalistas e pseudojornalistas às vezes acabam eles mesmos apelando para os métodos dos seus leitores. Sim, irritei-me e dei uma resposta à altura e inflamada. Não me arrependo nem um pouco e juro fazer isso mais vezes.

Tanto pela minha militância de rua, quanto pelo que escrevo, passo por muitos aborrecimentos. Já sofri ameaça de morte, tentativas de invasão do computador, do facebook etc., recebo recorrentemente insultos de todo o tipo, no blog e fora dele (quando me envolvi na campanha do #nãomerecoserestuprada# foi o auge). Quem está na luta passa por isso. É inevitável, o que não torna, de forma alguma, agradável ter de ler comentários idiotas de leitores que parecem nem sequer ter lido os textos direito, sem compromisso nenhum em dialogar ao menos com o que de fato foi escrito, e menos ainda com a gramática.
Reitero todavia tudo o que escrevo. Vivemos um momento deprimente, em que de um lado há um governo em tese de esquerda, mas que beneficiou banqueiros e o capital internacional como poucos e que tem um projeto desenvolvimentista predatório e índiocida, e, de outro, uma elite de feições claramente plutocratas que resiste com ódio rábico aos mínimos avanços sociais promovidos por esse mesmo governo.

A realidade é que essas pessoas, representadas por intelectuais do naipe de Rodrigo Constatino et alii, estão apavoradas com a perda de privilégios que se desenha para os seus horizontes. Acostumados há décadas a terem acesso exclusivo aos melhores postos de trabalho e aos melhores benefícios sociais disponíveis, eles ficam completamente indignados com a repartição, no entanto mínima, desses privilégios (acesso à educação e à cultura e etc.), via programas sociais sejam de inclusão de minorias (como cotas) ou sejam de viés distributivo (como o bolsa família). Direitos são benefícios extensíveis a todos, ou que visem à correção de desequilíbrios e desigualdades, ou então são a contraparte de deveres. Direitos que não atendam a nenhuma dessas premissas não são direitos, são privilégios.
Infelizmente, em nosso país, uma das grandes forças estruturadoras desses privilégios é a universidade pública, que até hoje tem cursos quase exclusivamente cursados por ricos brancos (aqueles das elites brancas que não existem, segundo o raciocínio da croniqueta desinfeliz). O que realmente me consterna e me choca é ver pessoas que foram privilegiadas a vida inteira, se portarem com arrogância e prepotência, como se realizadores de grandes feitos fossem, ao ponto de se crerem no direito até de humilhar os outros. Eu me pergunto: será que essas pessoas não percebem que elas tiveram todas as facilidades? Que elas não têm nenhum mérito, pois sempre encontraram todas as portas abertas (portas estas hermeticamente fechadas para a maioria)? Talvez, o que tenha faltado falar no texto de semana passada é que eu também sou beneficiário desse sistema de “cotas invisíveis”. Não tive dificuldade nenhuma para conseguir o meu primeiro emprego em uma editora. Cheguei branco e com meu diploma da UFRJ, e o entrevistador não precisou de mais nada. “Está contratado”. Talvez seja esse o terrível racismo contra os brancos a que o autor da croniqueta se refira: a dificuldade de se tornar desempregado, para gozar do privilégio do Seguro Desemprego. Eu apenas não sou cínico o bastante para ignorar isso e tão pouco tenho a indelicadeza de me sentir superior a quem quer que seja, por causa disso.

E não me custa nada lembrar que o meu objetivo central, semana passada e agora, seja apontar esta realidade ridícula: os produtores do discurso ideológico contra cotas e contra programas sociais (assim como seus raivosos apoiadores) são, de regra, beneficiários de todos os privilégios, a começar do acesso ao ensino superior gratuito e de qualidade. Trata-se da luta mais egoística de todas: a que não quer abrir mão nem do menor dos anéis, mesmo correndo o risco de um dia perder todos os dedos. Não custa lembrar também que o ensino superior brasileiro foi em grande parte desenhado durante a ditadura militar, e carrega vários ranços disso até hoje, inclusive da meritocracia. O mais surpreendente é ver que ainda há quem defenda a não mudança, que luta para a manutenção de um sistema de acesso fora da realidade social do país, assim como contra qualquer tipo de avaliação da qualidade do que é produzido, mesmo que um simples esquema peers review. Não querem, pois só têm a perder, e nada a ganhar. A demofobia não cede, e o povo continua não chamado a pegar em armas.

Para finalizar, odiei também as críticas às asneiras que o Lula fala. Isso já é o cúmulo. Pessoas que falam em racismo contra brancos só podem estar de sacanagem. Elas querem que até o direito de falar merda se torne um privilégio? As próximas passeatas terão que fazer reivindicações muito esquisitas…

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Categorias: Política | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Pelo direito de falar asneira: “Pena que o povo não entende porra nenhuma” parte 2

  1. Equívoco Humano

    Leitores que parecem não ter lido o texto recebem respostas deste tipo: “Só li a primeira linha e bastou para perceber que vc é analfabeta”, Nunca me posicionei contra cotas aliás R$ 25,4 bi distriduídos no Bolsa Família pena que não foi mais, porém R$ 18,7 bi na refinaria Alves e Lima(orçada em 2 bi) na Venezuela, 1,9 bi no Mané Garrincha, R$ 1,7 bi em Passadena, R$ 1,3 bi reforma do Maracnã, não sei quanto no Porto de Cuba, mensalão(fontes oficiais). Se isto não é digno de textos e mais textos, se achas que estes escândalos são compensados pelos avanços sociais, se és adepto do rouba mas faz, por fim se a independência dos 3 poderes não é prioridade para ti, segue ignorando tudo que eu falo. Ou leia a primeira linha e seja truculento como foste da última vez. Seguiremos, trabalhando em instituições privadas, pagando uma das mais escorchantes cargas tributárias, sem utilizar o SUS, fazendo toda(absolutamente toda) formação em instituções privadas, não tendo segurança pública, e com infraestrutura precária (vide custo Brasil) e rezando para morrer cedo pois não podemos contar com aposentadoria digna. Sem ameaças.

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