Teve Copa

O fantasma de 50: ao que tudo indica, os fantasmas de 2014 são muito mais assustadores, e não estou me referindo aos estritamente futebolísticos

O fantasma de 50: ao que tudo indica, os fantasmas de 2014 são muito mais assustadores, e não estou me referindo apenas aos estritamente futebolísticos

“Este é o sertão. Uns querem que não seja.”
– Riobaldo – GSV

Domingo, dia da final da famigerada Copa das Remoções, o Estado e a sua polícia se excederam para além de qualquer medida do razoável. Contra um grupo de manifestantes que dificilmente ultrapassou quinhentas pessoas, um contingente de 2.000 policiais, contando choque e cavalaria (espadas em punho) foi designado para abortar um ato que iria da Saens Peña ao Maracanã, em protesto, como já é de praxe, contra os gastos com a Copa e etc. “Iria” em dois sentidos, uma vez que, graças aos corajosos homens da lei, o ato não conseguiu sair da praça, como também, graças às dezenove prisões arbitrárias do dia anterior, o foco do ato mudou completamente, do “não vai ter Copa” para “libertem os presos políticos”.

As prisões do dia 12 de julho estão sendo chamadas pelos advogados de “prisões mãe Dinah”, uma vez que, em um processo permeado pela clarividência do Poder Público, a polícia civil prendeu dezenove ativistas (nove ainda estão foragidos) baseada na pressuposição paranormal de que “os elementos” viriam a realizar atos de terrorismo e violência no dia seguinte.

O que vemos, e é preciso ser muito ingênuo para não entender isso, é que todos os movimentos em oposição aos governos (federal, estaduais e municipais) e contra os grandes eventos (leia-se, contra o grande capital) estão sendo massacrados. Há uma clara articulação entre as esferas de poder, as polícias e a grande mídia para reprimir e criminalizar a legítima indignação que vem sendo demonstrada nas ruas. As ordens vêm de cima e elas são rigorosamente observadas pelos subordinados. O que os poderes têm deixado bem claro, além disso, é que eles são os donos do campinho, e que as regras mudam em seu benefício, toda vez que necessário isso se fizer. O tal Estado de Direito só existe mesmo em favor da manutenção do status quo velho de guerra da sociedade. Quando confrontado por grupos dispostos à sua subversão, o Estado de Direito acaba, e entra em cena o contorcionismo policial e jurídico para justificar qualquer coisa, inclusive a prisão arbitrária e a prisão de menores, em um fim de semana (para tornar a reversão das prisões mais difícil), por um juiz que em tese sequer poderia pedir essas prisões.

Na praça, assistimos aterrados a mais um show de democracia do Estado brasileiro. Domingo teve violação dos direitos humanos, teve menina levando chute, fotógrafo levando chute na cara, policial afanando instrumento de trabalho de fotógrafo. Teve, enfim, um pouco de tudo que não deveria ter tido (inclusive, uma final de Copa do mundo). Para completar, houve o cercamento da praça, que deixou centenas de pessoas presas ali, à mercê da polícia, por mais de duas horas. Qual a justificativa para uma afronta dessas ao direito fundamental de ir e vir, consagrado na nossa dita Constituição Cidadã? As pessoas, pelo visto, “abusaram” desse direito e foram castigadas por causa disso. Deboche à parte, o medo de todos ali (inclusive o meu) era que se repetisse o episódio das escadarias da câmara dos vereadores, quando mais de cem foram presos apenas por estarem sentados ali, após um ato que foi reprimido com particular violência pela PM.

Ontem, tardiamente, os pedidos de habeas corpus de doze dos ativistas foram concedidos (como ainda há cinco presos e nove foragidos, é cedo para comemorar). Mais tardiamente ainda, quatro PMs foram presos, os envolvidos no roubo da câmera e o que quebrou o braço de um jornalista, salvo engano. A única providência capaz de impedir o abuso de poder por parte da polícia é a punição, mas esta só veio (não creio que por coincidência), no fim da Copa do mundo. Como consequência dessa impunidade, o que vimos até hoje foi a incansável repetição das cenas de violência policial que se tornaram o martírio do manifestante no Rio de Janeiro. A realidade é que não há o menor interesse do Estado em coibir esses abusos, desde os leves, como os praticados contra manifestantes, até os gravíssimos, cometidos contra os moradores das favelas. Faz parte daquilo que se chama manutenção da ordem.

O espaço para as ideias relativamente moderadas está se retraindo. É um erro crer nessa mitologia do “manifestante violento”. Violento é o Estado que lança o seu aparato repressivo com força para reprimir o descontentamento e a discordância.

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Em tempo: a nova sensação do país são os Yellow Blocs: os burguesinhos mal-educados que têm dinheiro para pagar a agora caríssima entrada dos estádios (isso não vai acabar com a Copa – os preços continuarão insanos e acabaram com a Geral no Maracanã), mas não entendem nada de futebol (não sabem nem a hora de gritar “olé”). Vaiam a presidente que trouxe a festa especialmente para eles, vaiam hino do país adversário e vaiam a própria seleção (ao invés de incentivar, praticamente eliminando a vantagem de jogar em casa). São os leitores formados pelos Arnaldos Jabutis e Brunos Postantinos da vida. Contra esses, não há repressão nem cerceamento da liberdade de expressão, do direito de ir e vir e de manifestação.

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