João Ubaldo e o Grão-tucano

joão ubaldo

João Ubaldo era escritor de fôlego romanesco. Suas crônicas nos jornais pareciam esboços de um romance. Escrevia aos domingos no jornal O Globo, na mesma página em que o conciso Veríssimo tece suas linhas de mestre no gênero. As crônicas velozes deste faziam com que os parágrafos daquele fossem longorosos , arrantados, prolixos por princípio e vocação.

Nada disso diminui o romancista que já era um dos gigantes da literatura brasileira.

Entrando nos bastidores da Academia, João Ubaldo participou de um caso que pode ser contado a partir do ponto de vista da influência do poder político e econômico nas eleições dos acadêmicos.

Após a morte de Lord Marinho, em 2003, a viúva Lily manifestou o desejo de que FHC tomasse posse da cadeira do falecido. O Senhor Privataria agradeceu e disse que não disputaria a indicação. A verdadeira motivação para isso estava num artigo do escritor baiano, cujo final fez adiar o sonho de imortalidade do pai do neoliberalismo do Auriverde Pendão.

“… E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais.”

Foi preciso o autor de Sargento Getúlio criar animosidades com o PT e ter a saúde fragilizada para os acadêmicos fazerem seu conchavo para dar imortalidade a FHC.

Enquanto os convidados Vips ouviam o discurso do debutante, centenas de soldados da Tropa de Choque isolavam o quarteirão da ABL, criando uma barreira militar entre manifestantes e o tradicional Túmulo das letras.

Ao passar sua obra em revista, FHC recordou que seus “primeiros trabalhos sociológicos foram sobre a condição da vida dos negros e sobre o preconceito racial”. Falava, especificamente, de seu livro de estreia, Cor e Mobilidade Social em Florianópolis, de 1960. Momentos depois, quando os convidados se aglomeravam numa fila improvisada para cumprimentar o novo acadêmico, Gilberto Gil teceu um breve comentário: “Pois é. Também pensei nisso quando ele citou o livro. Eu era o único preto na plateia. Mas é sempre assim, em todos os lugares de elite no Brasil.”

Anúncios
Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: