“Eu acuso”

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Incompetência é um perigo mesmo. Nos últimos dias, revelações estarrecedoras da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), informalmente conhecida como Delegacia de Repressão a Crimes Imaginários (DRCImg), apresentaram ao público provas sólidas (são as palavras deles) para incriminar as lideranças (também nas palavras deles) das manifestações violentas (idem) que perturbaram a ordem no Rio de Janeiro ao longo do último ano. As provas consistem em relatos de testemunhas desconhecidas (para proteção delas, dizem), em conversas telefônicas grampeadas autorizadas pela justiça e em bombas, materiais explosivos (gasolina, pólvora etc.), facas e uma arma de fogo apreendidos nas casas dos manifestantes presos há quase duas semanas. Os mandados de prisão foram expedidos segundo a firme convicção das autoridades de que os elementos criminosos realizariam ações violentas na final da Copa do mundo. Não esquecendo que entre as apreensões, constaram livros, bandeiras, cartazes e material de panfletagem de maneira geral.

Após a apreensão desse material, resta a pergunta: onde explodiram todas essas bombas? Quantas vítimas elas fizeram? Quem faz bombas, afinal de contas, tem alvos e uma agenda (fabricação de bombas por hobby, eu nunca ouvi falar). Era de se esperar que, uma quadrilha tão bem organizada como a que foi apresentada pelas reportagens da rede Globbels, com níveis hierárquicos definidos e distribuição clara de tarefas, já tivesse ao menos um atentado bem-sucedido no currículo, nem que fosse apenas explodir bancas de jornal, como já foi moda por aqui. Porém, não há. Nunca houve atentados a policiais com bombas de fabricação caseira nas manifestações, a não ser em casos claramente plantados pela própria polícia. Houve, também, o caso do cinegrafista, que terminou em morte e com prisão de dois manifestantes (em uma história ainda muito mal contada e com os dedos sujos da Globo por todos os lados). De resto, de concreto, umas poucas explosões sem maiores consequências, e o fato é que os manifestantes sempre saem perdendo. Já são mais de dez mortos desde que tudo começou, um sem número de feridos, alguns com lesões permanentes, e muitas prisões. Os ataques a policiais, que se suspeita serem praticados muitas vezes por provocadores infiltrados, foram realizados com rojões e artefatos do gênero, não com bombas.

Então, por que as perseguições a tantos ativistas ligados aos protestos iniciados no ano passado? No começo de tudo, a grande mídia apoiou os protestos, quando ela ainda cultivava a esperança de transformar tudo em um “fora Collor” muito ampliado e antipetista. Mas quando a direita organizada foi expulsa dos atos e os conservadores de maneira geral pularam fora da disputa pelo controle das manifestações que se seguiu, quem permaneceu nas ruas foram militantes de esquerda mais radicalizados, e o movimento evoluiu para greves trabalhistas e reivindicações coerentes e organizadas de movimentos sociais. Daí, a coisa mudou de figura, e a criminalização por parte da imprensa e do judiciário entrou em pleno vapor (a polícia, clarividentemente, já havia começado antes destes últimos). Os ativistas passaram a ser tratados como criminosos de alta periculosidade. E então todas as armas para desqualificar a voz das ruas passaram a ser válidas (e a serem empregadas). A escolha de Sininho para essa função demonstra essa mudança. Primeiramente, ela foi colocada para dar um ar de inconsequência juvenil e de pequena burguesia revoltada para as manifestações (a globbels chegou a chamá-la de “patricinha hipócrita” duas vezes). Na edição dessa segunda do jornaleco do grupo Marinho, ela foi apresentada como uma perigosa terrorista no topo de uma organização criminosa (editoria, por favor, decida-se). No dia seguinte, foi a vez de atacar os sindicatos que vieram de uma longa sequencia de greves (professores, petroleiros, garis) ligando-os a uma suposta rede de financiamento da violência em manifestações (em uma matéria envergonhante, intitulada “Conexão sindical”). Hoje, foi a vez do PSOL. A conveniência disso tudo é clara.

Ao contrário do que até mesmo pessoas de esquerda têm sustentado, não foram as táticas Black Bloc que, como previsto, serviram de instrumento para a direita criminalizar os movimentos sociais. A violência, como já disse aqui várias vezes, parte quase invariavelmente da polícia. Foi a polícia que esvaziou as manifestações, e ela o fez na base da porrada. A maioria das pessoas (não me refiro a leitores do Globo e da Veja) ainda apoia as manifestações, mas tem medo de continuar participando. A transformação das “lideranças” (vocês não sabem como é incrivelmente ridículo escrever esta palavra aqui) em terroristas é estratégia na verdade já batida, e usada aqui e acolá pelo mundo inteiro, sempre para desacreditar quem luta por mudanças sociais (fizeram o mesmo para desarticular o Occupy Wall Street): trata-se da transformação dos militantes em inimigos do povo, pelos verdadeiros inimigos do povo, via difamação programada. É evidente que essas prisões foram políticas, como a própria apreensão de livros não deixa de apontar.

Protestos de junho do ano passado: precisaram de muita bomba de gaz lacrimogêneo para mandar todo mundo de volta para casa

Protestos de junho do ano passado: precisaram de muita bomba de gaz lacrimogêneo para mandar todo mundo de volta para casa

O que é realmente apavorante para as classes dominantes nos manifestantes hoje presos e perseguidos é que, assim como os seus apoiadores, eles estão sobredeterminados na construção do socialismo, e na hora em que isso se transformou em alianças com setores mais amplos, como garis, professores e rodoviários, e foi-se desdobrando em ações práticas e diretas, como greves e a tentativa de abrir a caixa preta do transporte público na cidade, por exemplo, a repressão reapareceu na sua brutalidade mais crua. As pessoas estão sendo presas com base em declarações de testemunhas invisíveis, por crimes que não ocorreram e pela construção de bombas que não existem. As conversas das escutas transcritas para ilustrar as matérias do Globbels são constrangedoras por não provarem absolutamente nada. São conversas entre namorados, pai e filha, muitas vezes regadas à exageração juvenil dos próprios feitos. Há também, alega-se, uma interceptação de conversa em que um membro da FIP diz que “mataria um policial”. Bem, depois de ver, com meus próprios olhos, agentes do choque atirarem bala de borracha em mulher grávida, ameaçarem estuprar uma jovem da Aldeia Maracanã, abrirem a cabeça de uma amiga minha com cassetete entre centenas de outras proezas, eu poderia dizer que eu mataria TODOS os policiais do choque (caros poderes públicos, eu estou apenas ilustrando um ponto, não se emprenhem demais em mostrar que eu tenho razão, por favor).

O título “Eu acuso” vem da carta intitulada “J’accuse”, escrita por Émile Zola e publicada pelo jornal Aurore, em 1898, em defesa do oficial do exercito Frances de origem judia, Alfred Dreyfus, acusado de traição e responsabilizado pela derrota da França na guerra franco-prussiana (1870-1871). O caso Dreyfus foi uma armação grosseira de um governo corrupto e incompetente para justiçar uma derrota militar humilhante do começo ao fim. Na carta, integralmente publicada na primeira página do jornal, Zola acusa nominalmente os generais e membros do governo responsáveis pela farsa. Mas o que o caso nos ensina, é que uma imprensa de fato coerente, ética e independente pode ser o melhor aliado para derrotar uma injustiça cometida contra um indivíduo (e, claro, contra toda a sociedade). Não gozamos no entanto desse privilégio no Brasil, onde a grande imprensa (salvo honrosas exceções) é venal, corrupta, aliada aos poderosos e fortemente dependente do Estado (mesmo que ela critique um partido governista específico) via verba de publicidade, isenções, sonegações e diversos tipos de maracutaia e, portanto, está sempre contra os interesses do povo.

Diferentemente do Aurore, a nossa gloriosa imprensa cria as vítimas e as dá de bandeja aos governos, para que eles as usem para desmantelar as reivindicações da sociedade, venham elas de categorias profissionais, como professores, venham elas de movimentos sociais organizados, tradicionais ou não. Enquanto isso, as luzes se apagam à nossa volta. Escreve isso enquanto ainda posso, enquanto não é proibido, e esperando que os companheiros nos cárceres do capital estejam bem, e os foragidos, bem escondidos.

Da série “perguntas que não querem calar”:
1) Se o processo corre em segredo de justiça, a ponto de nem os advogados terem acesso a ele, como a Rede Globbels obteve, como ela mesma declarou, acesso exclusivo a ele?
2) Quem foi o imbecil que autorizou a Globbels a tornar públicas as gravações das escutas telefônicas SIGILOSAS de pessoas que ainda não foram julgadas e de pessoas contra as quais sequer há processo aberto?

OBS.: no mesmo dia da publicação deste texto, os manifestantes foram soltos. Segue um link de denúncia sobre o caráter da investigação e das provas apresentadas pela polícia. É constrangedor: http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-07-24/ex-lider-da-fip-e-a-principal-testemunha-em-inquerito-contra-ativistas.html

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