100 dias nas Filipinas – Parte II

por Andressa Maxnuck

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Preâmbulo: este texto é a conclusão da trilogia do tempo, que teve início com “2.800 minutos em Bangkok e que foi continuada por “50 horas em Hong Kong. Por razões metodológicas e afetivas – as Filipinas são a nação asiática em que permaneci por mais tempo, de modo que é significativamente maior o volume de relatos e de memórias carinhosamente acumuladas -, dividi a narrativa em duas publicações: previamente a esta foi publicada uma Parte I.

OCIDENTE/ORIENTE

De fato a globalização fez milagres no sentido da homogeneização de hábitos e de gostos entre povos. Mas ser uma brasileira na Europa é bastante diferente de ser uma sul-americana no Sudeste Asiático. Pra começar, eu era a mulher mais alta do país – do topo dos meus reles 1,67m (era frequentemente indagada se no Brasil todo mundo era alto como eu – adorava!). Em segundo lugar, o português é absolutamente estranho aos ouvidos filipinos: certa vez me perguntaram em um café se eu era italiana. Ao responder que era brasileira, a moça, quase tendo descoberto a roda, disse: “ah, então isso que você tá falando é espanhol!” Na verdade, fiquei até feliz com o reconhecimento aproximado – em geral, as pessoas me ouviam falando e me miravam com o olhar mais exótico do mundo (pra quem acha absurdo/improvável que não se possa confundir português com italiano ou com espanhol, experimente distinguir tagalog de coreano ou de mandarim).

Outra questão é que, visualmente, você é ocidental. Peruanos, noruegueses, franceses: todos estão no mesmo saco. Se você não é oriental, você é ocidental – e, por tabela, rico. Em Manila, não tinha quase qualquer problema em ter “a cara da riqueza” – ao contrário, os filipinos são dos melhores povos que já conheci e sempre me tratavam de forma carinhosa, educada, cooperativa. Mas, quando ia pro circuito turístico, virava praticamente representante do Fundo Monetário Internacional: preço dobrado, assédio, gorjeta. Eu, que sempre fui turista-de-terceiro-mundo, não gostei muito dessa valorização repentina.

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Propaganda de creme clareador

PADRÕES ESTÉTICOS

Nas Filipinas – e, no Sudeste Asiático em geral, segundo descobri – há uma obsessão por clareamento da pele (penso que na mesma proporção da fissura sul-americana por pele bronzeada): são hidratantes, sabonetes, cremes para o rosto, sessões em salões de beleza. Conforme observei quanto à língua (que a verossimilhança com acento do inglês norte-americano tendia a ter implicações de classe econômica), há uma aparente divisão entre tom de pele e estrato social: os de pele mais clara costumam ser mais privilegiados, os de pele mais escura, menos – como sói ser, aliás, em outras partes do mundo, inclusive no Brasil. Atores, modelos, apresentadores costumam ter a pele mais branca, ditando o padrão de beleza. Achava inusitado, porque penso que a pele mestiça é o que torna os filipinos – e também os tailandeses – mais bonitos aos meus olhos em comparação com outros asiáticos, mas, enfim: devo ter lido muito sobre o Mito das Três Raças, do Darcy.

Para evitar a exposição aos raios solares usa-se, corriqueiramente, guarda-chuva nas atividades ao ar livre. Tentei comprar um guarda-sol oriental, pra ficar com pinta de local, mas não encontrei em lugar nenhum: talvez se trate de uma invenção ocidental para a nossa ideia romântica de Oriente. No mais, sem renegar minhas origens, quando ia à praia/piscina investia, como de costume, na melanina, e ficava estatelada qual uma cobra sob o sol do meio dia – enquanto na areia/clube ficava todo mundo embaixo da barraca, de manga comprida e de sundown.

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Os filipinos se protegem sob a sombra de um guarda-chuva

SALÃO DE BELEZA

Passados poucos dias no país, achei que já era tempo de recobrar a dignidade e decidi realizar atos de higiene e de estética. Cheguei ao salão filipino e encontrei no cardápio de depilação: Brazilian Wax. Que se tratava, nada mais, nada menos, de deixar a bichinha 100% calva. Dá um especial sentimento de patriotismo ser nacional de um país que é conhecido internacionalmente por design de virilha.

A manicure/pedicure pinoy (*filipina) tem algumas diferenças, quais sejam: – elas não fazem as “mãos” e os “pés” por etapas (primeiro cutícula, depois base, depois esmalte dos dois membros, em cada uma das etapas): elas fazem uma mão inteira, depois a outra mão inteira, o pé direito inteiro, depois o esquerdo inteiro; – elas não usam pauzinho de laranjeira: as manicures têm as unhas dos dedos polegares maiores pra fazer a limpeza do excesso de esmalte!!; – rola uma massagem e um estalar de dedos no processo (maravilhoso).

MASSAGEM

Definitivamente a melhor coisa da Ásia é o acesso – seja em termos de possibilidade econômica, seja em termos de disponibilidade a cada esquina – à massagem. Isso é muito, muito maravilhoso. Me sentia totalmente Akeem (Eddie Murphy) em Um Príncipe em Nova York (“Coming to America”, em inglês – meu filme preferido, aliás, conquanto eu ame muito o Kubrick e o Truffaut), como uma monarca cercada de cuidados. Milhares de lojas de massagem pela cidade inteira. Massagem com óleo, sem óleo, sueca, tailandesa, corpo inteiro, só os pés. Tudo isso pela bagatela de 250 pesos filipinos (o correspondente a R$12, mais ou menos). Eu ia toda semana e ficava mais feliz ainda ao pensar que acabara de me proporcionar o nirvana ao custo de uma garrafa de meio litro de Skol. Deus não é brasileiro coisíssima nenhuma: Deus é filipino, tem olhos puxados e fala tagalog.

SERVIÇOS

Nunca fui tão bem tratada na vida. Como mencionei acima, os filipinos são muito queridos, muito amáveis. Quando há uma relação de consumo então, essa educação e solicitude se exacerbam. Até São Paulo virou paradigma baixo nível.

Eram situações como: 1) adentrava a padaria de manhã e era saudada com um “bom dia” sorridente pelo padeiro, pelo caixa, pelo faxineiro, pelo segurança; 2) passava na porta do restaurante aonde havia almoçado dez horas antes e era saudada pelos garçons; 3) saía do banheiro público e ouvia um “obrigada, senhora, volte sempre!”; 4) tomei um capuccino na cafeteria e a atendente me perguntou “senhora, esse vai ser seu pedido nas próximas vezes, pra eu memorizar?”. Isso é inimaginável no Rio de Janeiro, aonde você tem de implorar de joelhos por um chopp para aqueles tradicionais garçons mal-humorados – o que costumamos achar a marca da descontração carioca.

CINEMA

A indústria cinematográfica norte-americana é dominante nas Filipinas: os filmes, com áudio inglês, não costumam ter legenda em tagalog. O cardápio costuma ter aqueles roteiros com explosão de Casa Branca, drones, 7a Frota, silos nucleares e o diabo-a-quatro. Um sexo-drogas-porrada-no-México do Oliver Stone é o máximo de indie movie que consegui encontrar. Tentei ver um filme filipino, mas ele não tinha legendas em inglês.

Diante da velha história de mexicanos, negros, vietnamitas, árabes and so on retratados no cinema como vilões, achei que, estando no Sudeste Asiático, testemunharia um sentimento de solidariedade filipina ao verem, mais uma vez, orientais como terroristas. Pois, não: no filme pirotécnico a que assisti, a plateia vibrava a cada virada do governo norte-americano – especialmente quando o agente estado-unidense virava-se pro norte-coreano e o coagia com um “speak English, man!”. Realmente não entendi nada. Quer dizer, entendi uma coisa: ganham os EUA quatro vezes – com a renda do cinema, com a reafirmação do hegemon, com o marketing do terror e com a cooptação de mais aliados.

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Filmes em cartaz nas salas do cinema Glorietta

SEGURANÇA

Me sentia muito segura em Manila – e não só no Leblon, Makati, onde morava, mas também em Madureira, Quezon City, onde trabalhava. Aliás, é muito raro eu não me sentir segura fora do Rio.

Mas algumas situações me chamavam a atenção. Primeiramente, não era comum eu vislumbrar agentes de segurança pública: via-se muito segurança privada. Além disso, o tamanho dos trabucos que os seguranças carregavam era de impressionar o dono-do-morro – sobretudo em um contexto, ao menos visual, de paz (penso que isso tem muito a ver com o soft power americano no país, e com a decorrente incorporação do sentimento de “estamos sendo atacados” estado-unidense).

Outra coisa curiosa era a revista na entrada de qualquer centro comercial ou shopping center: detectores de metal e abertura de bolsas. Juro que nunca me passou pela cabeça alguma ameaça de ataque terrorista – mas eles devem lá saber o que fazem. Não me opunha a abrir a minha bolsa para conferência, mas era, com frequência, dispensada pelo segurança. Devia ser a minha cara de ocidental.

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Revista na entrada do Mall of Asia, o maior shopping da Asia

De tudo o que vivi e relatei, pude me certificar de que mudar de país não é apenas fazer uma transferência geográfica e apertar a tecla SAP. É reaprender a viver. Aprender a cortar com garfo e colher. Descobrir qual o caminho do metrô. Aonde consertam sapato. Como se chama água oxigenada.

É viver intensamente momentos que, normalmente, são automatizados: a ida pro trabalho, pro supermercado, a leitura do cardápio. É se impressionar com a pobreza alheia, depois de ter-se acostumado com a miséria na porta da sua casa, na sua própria cidade.

É receber estímulos visuais e psicológicos 24 horas por dia, 7 dias por semana.

metro manila

Produção cinematográfica filipino-britânica: Metro Manila, de Sean Ellis.

ilo ilo

Embora seja uma produção cingapurense, Ilo Ilo (nome de uma província das Filipinas) retrata uma situação muito comum, a das filipinas que migram para trabalhar como empregadas domésticas em outros países

 

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Categorias: Cultura, Sociedade | Deixe um comentário

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