Pelo amor de deus, tragam de volta a URSS

guernica 3

Há uma lenda, cuja veracidade nunca consegui apurar, de que Picasso teria respondido a militares alemães a pergunta “foi você que fez esse quadro?” com a seguinte negativa: “não, foram vocês que fizeram”. Como se sabe, a obra aqui reproduzida (Guernica) representa o bombardeio aéreo sofrido pela cidade homônima durante a Guerra Civil Espanhola por aviões alemães, apoiadores de Franco. Em uma interpretação usual da obra, a lampadinha no centro ao alto da pintura representa a luz da razão abandonando o quadro geral da civilização. Difícil não pensar nisso hoje, quando o número de palestinos mortos na nova edição do ataque à gaza chega perto dos 2.000. A luz parece, definitivamente, ter fugido do cenário.

Muito se tem falado sobre o genocídio cometido contra o povo palestino, em nome da segurança do Estado de Israel. Segurança é uma espécie de palavra mágica que justifica, tanto aqui como lá, toda sorte de excessos e atrocidades. Leis de segurança nacional invariavelmente servem para cancelar direitos daqueles caros à democracia burguesa desde John Locke. Vide a nossa própria experiência recente, tanto dos anos de ditadura militar, quanto na reedição pelo congresso deste ano, para fortalecer a repressão ao povo nas ruas que luta por maior participação política na condução do país. Para muitos israelenses, dá-se exatamente o mesmo. De mãos dadas com o genocídio palestino, há leis severíssimas para conter a oposição interna às políticas ultradireitistas do Likud. É o caso por exemplo de Mordechai Vanunu, técnico nuclear israelense que passou anos preso, em regime de incomunicabilidade, por ter aberto o jogo em relação ao programa nuclear do seu país (Israel até hoje não nega nem confirma ter a posse da bomba nuclear). Pessoas que se recusem a prestar o longo serviço militar do país também amargam anos de cadeia (objeção de consciência não é um conceito muito valorizado por lá), e opositores de esquerda à guerra são sistematicamente perseguidos.

Talvez alguém se pergunte qual a razão de se ressaltar sofrimentos israelenses nesse momento, mas creio que temos de ter sempre em mente a diferenciação entre o Estado fascista de Israel e a questão dos judeus, até para nos diferenciarmos do antissemitismo que, mais uma vez, está crescendo no mundo. Antes mesmo da nova ofensiva israelense, os judeus franceses já haviam iniciado uma imigração do país, devido à ascensão do ultranacionalismo (Front National, agora dirigido pela horrível Marine Le Pen) e pelo recrudescimento dos ataques a símbolos e locais do judaísmo (sinagogas, escolas judias, cemitérios etc.). Em um país como a França, com uma longa e deplorável tradição de perseguição aos judeus, e em um continente que perpetrou o que até hoje é de longe o maior genocídio da história, isso são péssimas notícias. O ponto central de toda a forma é: não são apenas os humanistas do mundo e os judeus mundo à fora que se opõem à nova versão de atrocidades israelenses, mas a própria população de Israel está longe de apoiar unissonamente a violência que tem caracterizado a relação com os palestinos.
Para piorar, há ainda uma grande hipocrisia do mundo árabe de maneira geral em relação à questão da palestina. Países de governantes da região usam o discurso pró-palestina muitas vezes em benefício das próprias agendas, sem nenhuma consideração real para com a sorte desse povo. Uma solução, que seria uma péssima solução, pois um povo inteiro não deve ser removido da sua terra natal, seria assimilar os palestinos a algum país vizinho. Afinal são todos árabes, são todos mais ou menos da mesma religião e falam mais ou menos a mesma língua. É de se esperar que essa assimilação não seria assim tão traumática, e terras há de sobra (muito mais do que na reduzida área de Israel, pelo menos). Porém, ninguém nunca se prontificou. Desde a guerra de independência (como ela é conhecida nos manuais escolares de Israel) em 1948, os palestinos foram sendo continuamente expulsos do seu território, que cada vez encolhe mais. E se tornaram, a partir de então, um povo de campos de refugiados. O primeiro país a recebê-los em massa foi a Jordânia, que jamais no entanto os assimilou. Viveram segregados e em péssimas condições, até que os conflitos decorrentes disso se tornaram insustentáveis, e o rei Hussein mandou seu exercito massacrá-los. Esse episódio ficou conhecido no mundo árabe como Setembro Negro (daí que veio o nome do grupo terrorista palestino que atacou a delegação de Israel nos jogos de Munique). Foram então mandados para o Líbano, onde encontraram mais campos de refugiados e mais massacres – campos de Sabra e Chatila, quando os maronitas (cristãos árabes) que deveriam proteger esses campos viraram para o lado e fingiram que não estavam vendo enquanto o exercito israelense perpetrava o massacre.

O Hamas, pelo seu lado, também é um grupo terrorista e indefensável. Diferentemente da antiga OLP, que era uma frente da qual vários grupos faziam parte, a maioria dos quais eram laicos (havia nacionalistas, marxistas e etc., todos com o programa comum da independência de Israel), trata-se de um grupo de forte orientação religiosa e que tem poucos pudores em prejudicar os próprios palestinos na consecução dos seus objetivos (Hamas é uma sigla que significa em árabe “palestina livre do mar ao Jordão”, o que implica na anulação dos judeus do Estado de Israel). Porém, ao que tudo indica, no momento eles perceberam o que Arafat e a OLP perceberam há 20 anos: que Israel é militarmente invencível naquele território. Ao que parece, eles estão com predisposições a retornar à mesa de negociação, mas como Israel não atende nenhuma das suas reivindicações, todas razoáveis, eles optaram por retornar a “política dos mísseis” (ao final, listo essas reivindicações).

Não parece haver saída para cenário tão lúgubre. No curto prazo, pelo menos, não creio que de fato haja. A população palestina no entrementes segue submetida a sofrimentos indescritíveis e em escalada. A solução não virá de estados árabes desinteressados, pois eles simplesmente não existem. Afora isso, mesmo que quisessem, não é do ponto de vista político, e menos ainda do militar, que eles poderiam vencer Israel. No entanto, essa política genocida e burra está plantando a destruição no longo prazo daquele país. Além de ter se tornado um Estado francamente fascista, é um país que depende fortemente do poder militar e das costas quentes junto aos EUA para sobreviver. Manter-se em uma posição de ponta do desenvolvimento e do investimento em tecnologia é uma incerteza. E poder militar passa, a hegemonia americana também. Nesse dia, entregue à própria sorte, como poderá Israel sobreviver sem apoio internacional nenhum e cercado por uma vizinhança agora com todas as razões do mundo para odiar o país? É um raciocínio curto-prazista e equivocado, equivalente àquele que nos leva a dormir tranquilos à noite ignorando que o apocalipse já começou e que o mundo está à beira do colapso.

Há muito o cenário no território de Israel foi desenhado pela ultradireita do país e pelo fanatismo religioso dos ortodoxos e a sua insistência em avançar os assentamentos em áreas palestinas como um verdadeiro apartheid, com uma população oprimida, morando em enclaves, com menos direitos e fortemente segregada. Semana passada, como provocação, escrevi que era hora do mundo iniciar boicotes e retaliações, como as que conduziram com muito sucesso à ruína do regime da segregação sul-africano (sem desconsiderar a oposição interna da população negra guerreira e organizada, que também implodiu o sistema por dentro). Penso, porém, que a mesma solução não se aplica assim tão fácil à Palestina. O regime da apartheid havia deixado de ser interessante para o ocidente havia tempo, quando ele caiu (como a expulsão do país da Commonwealth deixou bem claro). Enquanto os EUA mantiverem a sua política de controle (direto ou indireto) de todas as fontes de recursos energéticas do planeta, Israel será um mal necessário. O preço que o país pagará, no entanto, será caro. O pior quinhão, é evidente, fica com os palestinos. E eu temo que eles se tornem mais um povo desaparecido da história, como os babilônicos, os fenícios ou os etruscos.

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Eu nunca imaginei que em minha vida fosse assistir à reedição de tantas desgraças de um passado que, acreditava eu, estivesse superado. Judeus fugindo de uma Europa em crise e cada vez mais intolerante, relações Israel x mundo Árabe voltando à estaca zero e, no nosso glorioso Brasil, a reestruturação do Centro de Informações do Exército para cuidar do “problema” dos movimentos sociais. Tragam de volta, por favor, a União Soviética.
Minha honesta pergunta aos entendidos, pois eu realmente não tenho uma resposta para isso: o SNI foi extinto pelo Collor. O Fernando Henrique acabou com os ministérios do exército, da marinha e da aeronáutica. Esse processo se chamou de “desmilitarização das forças de segurança”. Por que CARALHOS o CIE está sendo reestruturado durante o governo Dilma?

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