O dia em que descobri que não posso ser professora

Vinha acordando todos os dias com saudades da sala de aula. Acontece que sou professora bissexta e explico o motivo. Minha profissão principal talvez seja mudar de ofício de tempos em tempos, na crença insana de que vale a pena trabalhar apenas e tão somente onde posso colocar o máximo empenho, inclusive afetivo. Todas as vezes que me peguei com preguiça ou aborrecimento de preparar uma aula ou ir à escola dei um tempo. Isto, quando o mundo deixa, é a maneira idealizada por todo mundo de ser consumido, me dizem alguns. Mas há também os que sorriem com uma ponta de compaixão por tanta idiossincrasia, em tempos de consensos tais como “a especialização profissional é a única garantia de excelência ! ”. Não contesto mas não me alinho, fazer o quê? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, como reza a velha canção.
Cada um com suas crenças, sou das que acredita que é mesmo necessário haver algo de missionário na identidade de um professor. Mediar a relação de habitantes do tempo presente – cheio de máquinas que executam ordens, sem que seus amos tenham a mais pequena ideia de como elas o fazem – com o patrimônio de conhecimento acumulado por ancestrais que deram duro, durante séculos, para produzir nossas vidas tais como são, me parece em tudo com uma tarefa sagrada.
Ocorre também que a palavra “ sagrado” vem do latim “ sacer” que significa “ dedicado a” e a docência, me parece, das profissões que menos permitem qualquer falta na dedicação ao seu exercício. Também a vejo, de certa maneira, como o trabalho do ator. Qualquer passo falso em cena, qualquer erro na execução de sua arte, pode levá-lo a perder a atenção do espectador – e fazer fracassar a obra- tornando tudo irrelevante. E, como se sabe, o ator é um sucessor laico do sacerdote ritualístico, tendo o teatro em suas origens gregas valor pedagógico tão profundo que, ainda hoje, muito se pode aprender com sua dramaturgia. Além disso, “ profiteri” (aquele que fala à frente, que faz declaração pública) que dá origem à palavra “professor” soa pouco diferente do grego prophetés “ aquele que fala pelos deuses”.
E agora me digam se não é interessante pensar , a partir deste pequeno devaneio lírico- etimológico, sobre as tantas queixas a respeito do grau de autoridade e prestígio que a profissão teve ou deveria ter? O que eu quero dizer é que identificar-se como professor já significou, aqui mesmo nesta geografia, a garantia de um púlpito privilegiado e muitos ouvidos atentos, um amplificador para sua voz sempre ligado, uma credencial de autoridade quase inconteste.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Creio que só eu e meus contemporâneos da era pré internet e seus mecanismos de buscas sabemos o quanto custava obter uma informação qualquer, ainda que se tivesse dinheiro para adquirir uma Enciclopédia e suas atualizações ou uma boa biblioteca na escola. Só nós, os que tivemos professores dedicados o suficiente a nos instruir – e não apenas nos informar- e, sobretudo, nos ensinar como operar relações entre diferentes campos do conhecimento e aplicá-los ao nosso cotidiano e à vida, sabemos a diferença que pode fazer um profiteri que não desiste de você, por mais que sua estupidez o irrite.
Tive a imensa sorte de contar com dezenas deles pelo caminho e talvez, também por isso, tenha tanto respeito e gratidão por eles quanto tenho por quem me gerou e protegeu enquanto não pude fazê-lo com autonomia.
Daí que, no começo do ano, avistando um concurso para professores da rede pública em cidade da região da grande São Paulo, resolvi me inscrever e prestei o exame. Tantas coisas aconteceram desde então que acabei me esquecendo do assunto. Por isso, foi com surpresa que recebi o telegrama convocando aos exames médicos de admissão e , animada, fui verificar na internet quais seriam as condições de trabalho e os possíveis locais de atuação. Estava quase eufórica, ao ponto de visualizar em fantasia aqueles pares de olhinhos brilhantes, aquelas dezenas de bocas infernalmente falantes, aquelas orelhinhas desatentas que eu teria de seduzir, custasse o que custasse. Mas o problema de custo se apresentou muito antes do esperado. Com o pagamento da hora-aula de nove reais e cinquenta centavos, sem a garantia de carga horária ou duração do contrato, com um vale alimentação que me obrigaria a uma dieta pouco saudável, somando ao preço do transporte até o local de trabalho e a duração dos deslocamentos computados, concluí: sou muito pobre para poder me dar ao luxo de ser professora. Talvez não seja mesmo tão competente ou indispensável aos alunos que teria quanto foram meus mestres para mim- e com isso me consolei.
Mas convenhamos. Até mesmo missionários têm seu sustento garantido pelas igrejas que os abrigam. Nem falo dos que, inclusive, têm acesso a uma existência repleta de luxos.
No fundo, me senti envergonhada. Sem coragem de divulgar o nome da cidade por respeito aos valorosos profissionais que lá estão trabalhando. Mas que os gestores públicos e os munícipes daquela cidade perderam muito do respeito que poderia ter por eles, não nego.

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “O dia em que descobri que não posso ser professora

  1. anasouto, que texto!!! Conseguiu tratar um tema sério – trágico até – de forma bem humorada. Seja pelo “devaneio lírico-etimológico”, seja pelas memórias, nos lembra o valor do nosso ofício, apesar da obstinação dos gestores públicos em dessacralizá-lo. Só não há consolo é para o fato de alguém capaz de uma reflexão tão certeira sobre a educação desistir de ser professora.

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