Iraque: feliz aniversário, EUA

isis-iraq

Este mês, a primeira guerra do golfo fez 24 anos (2 de agosto de 1990). É o mesmo que dizer que os EUA bombardeiam o Iraque há 24 anos. Não sei se exatamente em comemoração à data, mas o Obama anunciou esta semana uma nova rodada de bombardeios ao país. Isso já virou uma tradição política americana. A justificativa (ou será a desculpa?) é ameaça humanitária que o avanço do Isis (sigla em inglês de Islamic State in Iraq and Syria) representa para as minorias curda e yazidi. Diz-se que o novo grupo fundamentalista islâmico promoverá um massacre a estas minorias no seu caminho para Bagdá. Mas o que é o Isis e qual, se é que alguma, ameaça real este estado nômade representa? É fato que a versão do islã apregoada pelo Isis é a wahabita, subdivisão sunita das mais ensandecidas (é a mesma da Arábia saudita, ou seja, é muito obscurantista), o que, por si só, não é boa notícia, a não ser que você seja favorável à pena de morte para homossexuais e pense que a mulher tem que andar sempre três passos atrás do homem pelas ruas.

O Isis surgiu da união de grupos armados em combate na Síria, contra o Al-Assad, e em combate no Iraque, contra o governo xiita instituído pelas forças de ocupação americanas (1). Seu objetivo é a formação de um estado islâmico unido dos dois países, sob a égide da sharia e do islã puro, com pretensões a expansões subsequentes, envolvendo, quem sabe, ao menos uma boa parte dos países árabes. Tornou-se por isso o novo inimigo público número um de Israel e dos EUA, que veem no grupo um novo fator de desestabilização no Oriente Médio.

Para quem conhece um pouco da história dos povos árabes, a primeira coisa que saltou aos olhos em relação ao Isis foi a autoproclamação do líder do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi (após a autoproclamação, ele mudou de nome para Califa Ibrahim ibn Awwad), como o novo califa. Califa é um título que significa “líder de todos os muçulmanos”, e o regime dos califados começou logo após a morte de Maomé (o primeiro califa foi o seu sogro). Após vários séculos de deterioração, dividido em três (havia um califa em Bagdá, um no Cairo, e um em Cádiz, na Espanha), o regime do califado foi encerrado pela ascensão do Império Otomano, que se autoproclamou “protetor da fé islâmica”. Ora, alguém, nos dias de hoje, que se reivindique este título é mais ou menos o equivalente muçulmano ao Napoleão de hospício. Para se ter ideia, a Al Queda também defende a reinstalação do califado, mas nem Osama Bin Laden em auge de carreira ousou se proclamar o novo califa.

Como era de se esperar, tal declaração não rendeu os dividendos imaginados pelo novo “califa”. Um título deste porte deveria ser reconhecido por todos os muçulmanos, do Marrocos à Indonésia, o que, por certo, não se deu, e até agora tudo que o grupo conseguiu com a pretensão foi uma guerra declarada com a Al Qaeda e a perda de apoio por parte de governos e outros grupos da região. Há grupos sírios, inclusive, que acusam o Isis de ser um fator de divisionismo para a causa sunita, que no fundo é o que está em questão dos dois lados da fronteira.

Grupos como o Isis não são defensáveis. Há acusações de todos os lados contra atrocidades cometidas por eles, e os curdos, povo acostumado a massacres e perseguições, têm toda a razão de temer pela própria segurança. Mas ao que tudo indica, o grupo já se tornou mais uma ameaça superestimada, boa para a máquina de propaganda israelense e americana justificar suas ações. A verdadeira fonte de desestabilização no Oriente Médio são justamente os EUA e Israel, e a única coisa que a existência do Isis prova é a completa falência da política americana para a região, pautada pela invasão de países com base em mentiras, na imposição de regimes estranhos às suas populações e na ganância por recursos energéticos. Esperem por mais explosões.

(1) Na verdade, era para ser um governo representando sunitas, xiitas e curdos, principais grupos religiosos-étnicos do país e com longa tradição de intolerância recíproca. Era para ser uma boa ideia, mas como ela foi elaborada em Washington, não deu certo quando confrontada com a realidade in loco, e a facção xiita governou em desconsideração para com as outras partes, o que lançou o país novamente em convulsões internas.

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