O PT nunca me decepcionou.

Agora, com publicações mais esparsas, decorrentes duma vida profissional e acadêmica, por ora, mais turbulenta, acrescida dum pontual resguardo pós-operatório que me obriga aa privação quase completa duma série de atividades que incluam mínimos esforços físicos, me resta, deitado, ler e escrever, o que faço agora, felizmente, aqui no blogue.

Quando se passa a escrever menos, naturalmente, o número de assuntos no cabide se amplia. Em meio aa morte de Eduardo Campos e a ressurreição retumbante e sorridente da direita conservadoríssima (sim, Aécio é direita ortodoxa, mas liberal), via Marina Silva, me bateu afã de me posicionar, muito claramente, quanto a este contexto, o que passa, invariavelmente, por botar pingos nos is da Dilma e de seu partido, em meio a tudo isso.

marina silvaSem o blablabla vazio de que Campos era um democrata, um “republicano” (sabe-se lá o significado disso) ou ainda sem o cretino endeusamento post mortem e mesmo sem considerar que compunha a mesma esquerda (em sentido lato, por favor) padrão fifa em que se enquadra o próprio PT, num governo de todo neoliberal, de jogo duríssimo com o funcionalismo, etc, o fato é que, após a sua fatídica morte, tá se processando uma clara inflexão conservadora na movimentação de campanha. Isso numa campanha que já não tem, decidida e sacramentadamente pelos poderes oficiais e oficiosos, por horizonte de massas nenhuma perspectiva, ainda que pífia, de contestação ao modelo neoliberal aí instaurado e patinando a longas pernadas. Não bastasse, isso ocorre em sincronia com o recrudescimento de ações coercitivas no país, seja aos trabalhadores organizados em seu movimento sindical, seja aos trabalhadores em favelas, periferias e situações de moradia precarizada- aí incluídos, claro, os que foram vítimas de remoções recentes pra Copa, seja aos que protestam contra a truculência, o status quo…

Em todo esse contexto, o que mais quer a militância apoiadora-insistente de Dilma é configurá-la como a contraposição possível e, segundo eles, óbvia a todo esse quadro. Fazem isso de forma reducionista (“é o Brasil da Senzala contra o da Casa Grande”, por exemplo), arrogantemente desqualificadora (ignorando mesmo candidaturas do campo democrático-popular), chantagista (imputando/cobrando a responsabilidade pela derrota da direita clássica no apoio de peito aberto aa candidatura petista). É muito pingo pra pouco i.

Se há, defronte a este texto, um leitor antipetista raivoso, sinto dizer que se decepcionará. Pretendo ser mais sério e profundo aqui do que a fanfarronice tresloucada e esquizofrênica, quando não sórdida e cínica, no fundo, da direita mais asquerosa que há, de que “a culpa é da Dilma/ do PT”. Este blogue tem cérebros.

dilma petralha

Petralha maldita.

Vamos começar por esclarecer que o título deste texto não é irônico, mesmo. Desde os sorrisos e empolgação despojada de 1989, nunca esperei do PT algo de transformador. Em 89, eu não votava, mas votaria, se pudesse, convicto em Brizola. Nas campanhas seguintes, sempre compreendi que o PT era tão somente, quando muito, reformista. Suas proposições centrais, formuladas seguidamente por sua direção nacional, não colidem frontalmente com o que se tem visto. Talvez haja, isso sim, confronto entre a expectativa criada por tantos militantes e a concretização do governo petista. Contudo, isso tá muito mais no campo dum simbólico construído ao longo das décadas, pelo legítimo desejo e sonho dessa militância, embora nunca verdadeiramente respaldado institucionalmente por seu partido. O PT nasceu pra não ser transformador, pra, no estilo mais clássico da histórica social-democracia aa europeia, gerir o capital, sem lhe eriçar sequer dois fios de cabelo que fossem. De revolucionário, o PT sempre teve no máximo as leituras de parte de sua militância. Seu nível de institucionalização e de apego a todo o parelho institucional de que pudesse dispor, rifando movimento em prol de máquina no pior aprendizado do legado do Leste Europeu, sempre foi a tônica da direção nacional aa maioria das tendências.

PT Decadente - Em todo o Brasil

Lembro duma reunião política, pré-2º turno das eleições de 2002 de que participei, já com a expectativa da eleição de Lula e duma avaliação que fiz dizendo que não esperava dum governo Lula nada mais do que um governo Sarney melhorado. Essa afirmação rendeu alguns olhares de estranhamento ou mesmo de “que viagem!”. Ora, o que se esperava: a ruptura com o neoliberalismo?! Vinda do PT?!

Mesmo a forma como o PT lida com o restante do campo democrático-popular hoje não é novidade alguma. O hegemonismo arrogante tá no DNA petista desde o ABC, desde as discussões da formação da CUT. De chapa a grêmio estudantil aa presidência da república esse é o modus operandis deles.

Assim, muito sinceramente, não guardo qualquer decepção com qualquer governo petista. Tá tudo na conta da gestão do capital, índole muito anterior aa vitória de Lula em 2002. Da reforma da previdência aa repressão/coação- sem falar, claro, na cooptação- dos movimentos sociais tudo se inscreve nessa lógica. A quem tenta atribuir aos governos Lula-Dilma a legitimidade popular dum governo Chávez, por exemplo, taí uma diferença crucial. Este não emparedou os trabalhadores, pra afagar as camadas médias. O PT tenta, até obstinadamente, se demonstrar dócil ao capital, mas, pairam setores neuróticos, em permanente e militante desconfiança e detratação, como a maior parte da mídia oficialesca e a posição “de recalque de classe” da classe média brasileira. Aliás, esses são os setores que, com sua histeria, mais justificam o rebaixamento da discussão a um nível “Casa Grande x Senzala”, o que só despolitiza o processo. A população trabalhadora, aí incluída a “subtrabalhadora” tão incensada no discurso petista, não está sendo organizada pra construção dum projeto seu. Ao invés disso, resta um paternalismo assistencialista, talvez duma dimensão histórica equivalente a de Vargas, que, intencionalmente, não organiza. E, justiça seja feita, Getúlio, do alto de seu autoritarismo, perseguição e paternalismo, criou instrumentos que até hoje servem aa organização dos trabalhadores, em termos formais. Nem Orçamento Participativo- ainda que instrumento cheio de limitações que era- em prefeitura petista existe mais. E, sinceramente, isso também não é contraditório ou decepcionante. Óbvio que esse tão propalado instrumento, num dado período da história do PT, cumpria um papel que fazia sentido aa lógica de oposição em construção acumulando forças a voos mais altos.

lula_chavez_293O pior do PT, em seu trajeto de gestor do capital no Estado brasileiro, não é todo o conjunto de atitudes que lhe soam contraditórias, insisto, apenas no campo simbólico que lhe foi construído ao redor. Malufs, Sarney, Collors, Cabrais e todo o restante é repugnante, medonho e fétido. Mas, muito, mas muito mesmo, pior do que isso é ser o bom gestor do sistema financeiro, acolhedor aos bancos, ao mercado especulativo e tudo que lhe é implicado. E ainda me vem o Santander roer a corda da campanha da Dilma?! É muita ingratidão, chega a ser filhadaputice. O Santander Brasil chegou a ser responsável por 1/4 do faturamento do banco no mundo. Isso no período mais crítico da crise na Espanha. Isso é pagar com traição a quem lhe deu a mão.

Santander-2

Considerando tudo isso, creio fortemente que a campanha petista vai mais pra direita junto com todo o resto. Não seria a primeira vez que isso ocorreria. O nível de institucionalização petista, agora, é o máximo. A reprodução dessa máquina, em si, é um objetivo a se cumprir. E, com objetivos, sinceramente, reformistas. Não é questão de sacanagem ou não. É no que o Partido, infelizmente nomeado, dos Trabalhadores, crê, desde sempre.

É claro que se pode objetar a todo este texto que, ainda que no plano simbólico, o governo PT cumpre um papel que se reflete nas medidas pró-população mais desfavorecida implementadas pelo governo petista central. Mais do que isso, pode-se argumentar que ele eleve, ou, pelo menos, paute com mais centralidade contradições sistêmicas. É verdade. O simbólico tá no plano do ideológico e, de forma alguma, é desprezível. E é isso e tão somente isso que me faz considerar qualquer possibilidade de voto numa candidatura Dilma num 2º turno que, espero, exista. É por esse motivo que não posso aceitar que, por exemplo, na disputa em meu estado, o RJ, se diga que Garotinho Ou Pezão (o vice do desgovernador Cabral) sejam a mesma coisa que Lindberg Farias, que, aliás, tá aa esquerda da Dilma- não que isso tenha grande impacto institucional efetivo.

Feita esta análise, pondo pingos nos possíveis is, era isto: deixar claro que o PT nunca teve o poder de me decepcionar. Pra quem se importa com o trabalhador organizado, lidar com esse governo e suas candidaturas envolve um nível de dialética cotidiana que precisa ser praticada com muita atenção e seriedade. Eu tento lidar com a bestialização antipetista dum lado e com o petismo no poder, desta forma, sem culpas, e sem expectativas.

Há, no campo histórico democrático-popular, opções outras, Luciana Genro (PSOL), Mauro Iasi (PCB), Zé Maria (PSTU), Rui Pimenta (PCO). Essas opções também existem, para além do jogo institucional-midiático de cartas marcadas, nas ruas, no dia a dia. Ou, pelo menos, deveriam existir. Não é eleição que muda a vida.

 

 

 

 

 

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Categorias: Política | Tags: , , , , , , , , , , | 7 Comentários

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7 opiniões sobre “O PT nunca me decepcionou.

  1. Renata Amaral

    Não acho que o Lindbergh é o melhor candidato. Na verdade, pra mim o Pezão mesmo sendo pouco conhecido é melhor do que ele e que o Garotinho juntos.

  2. Tampouco, eu acho que Lindberg seja o melhor. Agora, Pezão é brincadeira… Vice do Cabral!

  3. Equívoco Humano

    O PT também nunca me decepcionou, eu já sabia que eram uma camarilha de corruptos, eles provaram que são.

  4. Pingback: Marinaram as eleições | transversos

  5. Andressa Maxnuck

    Um gênio que pegou a foto da Perpétua e botou a legenda “Marina 40”!

  6. Pingback: 45 dá azar! (ou, Adeus, Lobão!) | transversos

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