As razões pelas quais eu jamais votaria em Marina Silva

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Na verdade, este texto inteiro poderia se limitar a duas palavras: Neca Setúbal. E, além disso, creio que posso intrometidamente afirmar que estas duas palavras também deveriam levar você a não votar em hipótese alguma nessa pessoa. Mas não reduzirei o meu argumento a esse ponto, mesmo que ele seja autossuficiente. Vamos lá e explico.

Marina Silva vem se apresentando, de uma forma marqueteira e um tanto presunçosa, como a “renovação” da política nacional. Muito curioso vindo da parte de alguém que me apresenta um programa econômico que poderia ter saído da mesa de qualquer burocrata do FMI e professa crenças fundamentalistas cristãs que satisfariam, digamos, o Papa Urbano VIII (aquele da pinimba com o Galileu). Alguém que participa de manifestações públicas contra o aborto e é contra experiências com células-tronco não é exatamente uma forte candidata ao título de “crente bullshit free” do ano.

Não vindo toda essa inovação da área econômica e nem da área confessional, que as pessoas deveriam de preferência ter o bom-senso de deixar em casa, talvez a razão que a torne a candidata novidadeira do momento seja a abordagem da questão ecológica, uma vez que esta está indissociável da própria persona política de Marina. Todavia, o seu vice, Beto Albuquerque, parece desmentir descaradamente o seu próprio histórico. Ligado ao agronegócio e à bancada ruralista, é dessa fonte que ele tira a maior parte do seu financiamento de campanha. Gostaria de lembrar que o PT demorou coisa de uns 15 anos para desconfigurar o seu próprio programa de partido ao ponto de torná-lo “politicamente aceitável”. Marina Silva, me parece, e isso é apenas uma opinião, está fazendo o mesmo em um ritmo de não fazer feio na frente de nenhum Antonio Palocci.

Na verdade, como disse uma amiga minha ligada à área indígena, “Marina há muito tempo traiu a luta dos povos da floresta e dos rios”. Não vejo nenhuma razão para acreditar que ela vá romper com o modelo da monocultura agrário-exportadora da soja, que introduz nos circuitos mais avançados do capitalismo mundializado a região de maior biodiversidade do planeta e com diversos povos indígenas, com perdas evidentes para estes últimos. Como já venho dizendo há certo tempo, derrubar a Amazônia, matar todos os índios e comprometer de lambuja o futuro do planeta como um todo para vender soja a menos de 400 dólares à tonelada é, como diriam os melhores pesquisadores do círculo científico, uma puta de uma cagada.

Mas voltemos à educadora que foi Neca Setúbal. Talvez o Magistério não se ressinta da perda dessa mulher tanto quanto o sistema financeiro do dia de amanhã (que, espero, não virá). É ela neste momento a grande coordenadora da campanha de Marina Silva e a maior defensora da “autonomia do Banco Central” (essa Marina, sempre inovando!). Vamos entender do que se trata isso na prática, da maneira mais sucinta e com menos “papo técnico” possível. Desde os pouco saudosos tempos do FH, o Brasil, para pagar as suas contas, tornou-se dependente da entrada de capitais estrangeiros (muitas vezes especulativos). A forma de atrair esses capitais é manter uma das taxas de juro mais elevadas do mundo. Essa taxa, conhecida como taxa Selic, nada mais é do que o juro que o governo paga pelo dinheiro que ele pega emprestado para se sustentar. A Selic, também, serve de referência para todo o resto da economia nacional (daí o seu apelido de “taxa básica”).

Gráfico que até o Rodrigo Constantino entenderia. O gráfico é tosco e eu não tenho a fonte, mas dá uma ideia geral do tamanho do problema

Gráfico que até o Rodrigo Constantino entenderia. O gráfico é tosco e eu não tenho a fonte, mas dá uma ideia geral do tamanho do problema. Obs.: esses dados não são fiáveis, isso está aqui apenas de brincadeira

Os juros que são pagos mundo afora são muito inferiores aos pagos no Brasil (para se ter uma ideia, depois da crise de 2008, a equivalente americana da Selic caiu abaixo de 1%, enquanto no Brasil, em média, ela ficou em torno de 12%). Ora, os grandes captadores do dinheiro que financia o governo são os bancos nacionais. Eles captam “dinheiro barato” no exterior e emprestam para o governo a juros absurdamente altos. O lucro deles é essa diferença (chamada de spread bancário). Levando-se em consideração que a Selic chegou, nos dourados anos FH, por exemplo, a inacreditáveis 45% (ou seja, a níveis de altitude de balão meteorológico), não é de se estranhar que todo ano seja ano de lucro recorde para os bancos brasileiros. Agora, sabem quem fixa a taxa Selic? O Banco Central, que Marina Silva parece pronta a entregar para… a dona do Itaú (ela mesma, Neca Setúbal), um dos maiores e mais agressivos bancos do mundo, segundo qualquer critério de avaliação.

Em termos práticos, por trás dessa proposta tão encantadora para liberais ouvidos de autonomia do Banco Central (por significar “menos governo”), encontra-se na verdade “mais sistema financeiro”, e a capacidade da Neca, e dos mandarins dos outros bancos em conluio com ela, de fixarem O SEU PRÓPRIO LUCRO, uma vez que isso significa que “o mercado” (essa mistura de fantasia e fetiche liberal) terá um controle muito maior do que ele já tem de fixar o quanto o governo paga de juros para o próprio “mercado”. É mais ou menos um equivalente ao direito mais singelo que os deputados federais têm de fixar o seu próprio aumento.

(Um parêntese saindo um pouco do tom de galhofa deste texto. O prejuízo dessa brincadeira toda para o país e para o povo brasileiro é enorme. Este ano, o governo calcula que pagará 99 bilhões de reais, o equivalente a 1,9% do PIB, só em juros de dívidas (http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2014/02/20/governo-anuncia-corte-de-r-no-orcamento-de-2014.htm). Isso é apenas a ponta do iceberg, uma vez que o principal da dívida – as amortizações – não estão nessa conta. Só para usar uma metáfora que até o Rodrigo Constantino seria capaz de entender, quando aquele assessor infeliz foi pego com dinheiro nas cuecas – parte do escândalo do mensalão – ele carregava 100.000 reais. Dividindo-se o que se planeja gastar só em juros, só em superávit primário, só este ano, seriam necessárias quase um milhão de cuecas para carregar esse dinheiro todo, que vai, todavia, para os ativos dos bancos nacionais e internacionais e para remunerar o capital especulativo, e você não verá nunca a imprensa tocar nesse assunto. Para mim, pessoalmente, não romper com esse modelo foi um dos dois piores aspectos do governo do PT – o outro, é a política mata-índio de desenvolvimento a qualquer custo – mas, verdade seja dita, calcula-se que em média esses juros na era FH rondaram os 20%, em Lula, os 15%, e com Dilma, os 10%. No entanto, os juros brasileiros seguem há 16 anos entre os mais altos do planeta, o que significa que o PT realmente não alterou essa política, apenas tirou os juros da estratosfera e da companhia dos balões em que o governo FHC os fixou – a redução do governo Dilma inclusive é bem relativa, uma vez que os juros internacionais despencaram com a crise financeira, o que abriu espaço para uma redução doméstica. Em termos de reduzir as perdas para o país, é alguma coisa, mas longe do suficiente. Fim do parêntese).

Ainda em política econômica, Marina ressuscitou dois nomes ligados ao Plano Real e ao FH: Eduardo Giannetti e André Lara Rezende. Ambos estão por trás do sucesso do Plano Real e das políticas de contenção de gastos públicos, que se concretizaram na forma de privatarias, de corte de gastos sociais, no sufocamento da universidade pública e etc. O segundo, inclusive, após tornar-se bilionário graças ao tráfico de influência foi morar na Inglaterra para curtir a vida adoidado e cuidar dos seus dois hobbies, a criação de cavalos puro-sangue e os carros de luxo. Marina, por alguma razão que eu não vou conseguir entender nunca, resolveu tirar esse rapaz do seu merecido sossego e trazê-lo de volta ao Brasil para trabalhar no governo.

Resumindo que estou com sono e é hora de ir dormir: Marina Silva apresenta uma política econômica baseada no clássico tripé liberal de metas de inflação (o que significa juros altos), câmbio flutuante e superávit primário (cortes de gastos do governo e/ou aumento de arrecadação – mais impostos). Uma coleção de compromissos ecológicos e sociais que parecem cada vez mais enterrados no seu passado, junto com o Chio Mendes (perdoem-me, mas às duas da manhã o humor negro é o meu forte). E uma equipe de governo saída de um conto de fadas “só que não”. Me explica cadê a novidade disso.

Obs.: esse texto trata de política monetária, fundamentalmente. Essa política tem outros aspectos, e a própria Selic é usada como um instrumento de controle da inflação (a famosa política monetária contracionista, cara aos liberais). Porém, quis tratar aqui do aspecto posto em relevo pela presença de Neca na campanha, e do qual normalmente não se ouve falar nos jornais e na televisão: a relação entre alta de juros e os lucros extraordinários dos banqueiros e o aprisionamento do país ao sistema financeiro internacional pela via do endividamento público permanente.

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Categorias: Política | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “As razões pelas quais eu jamais votaria em Marina Silva

  1. A novidade é que tem gente que acredita… ¯\_(ツ)_/¯

  2. Equívoco Humano

    Então seria 1.000.000 de cuecas ou 5 Abreu e Lima, pois o atual governo, já gastou R$ 18,7 bi na refinaria da Venezuela, curiosamente, orçada em R$ 2 bi e a fonte é a Graça Fortes que ainda salientou que faltavam mais R$ 2 bi para a conclusão e que este foi mais um negócio que nã deveria ter feito, depois de comprar uma refinaria de R$ 83 milhões, por R$ 1,7 bi. Só um idiota pode achar que existe algum governo mais perigoso que o atual. Abreu e Lima, Porto Mariel, Porto no URuguai, Armazéns na Venezuela, Estádios superfaturados na Copa, envio de divisas para Cuba em troca de médicos sem revalida, 39 ministérios… e o PIB? O PIB que se exploda… Em resumo nada pode ser pior que o governo atual.

  3. Andressa Maxnuck

    Tá puxado, gente.

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