O pouco com Deus é muito

Difícil, de qualquer maneira, mas consola os espíritos simples. Me refiro à campanha eleitoral em curso, claro. Salvo engano ou polianice da minha parte, já não estamos mais sujeitos a sermos arrastados por enxurrada de insultos e campanhas de ódio da internet que se pretendem opinião. Eles ( os insultos e campanhas de ódio) estão lá, é fato, porque a vida é mesmo muito diversa e educação não é uma coisa que nasce no campo ou se compra no shopping da esquina. Me refiro à educação para a política, para a definição dos tópicos mais importantes da política, para o debate e para o desenvolvimento de argumentos, lógico.

Aliás, como se viu no debate entre presidenciáveis esta semana, nem mesmo ser membro de um partido político e candidato ao cargo máximo da hierarquia institucional garante que a pessoa seja capaz de manter alguma coerência e coesão no discurso. Falo de coisas básicas como respeitar o tema abordado pela questão ao responder uma pergunta. Ou dar qualquer razão ou satisfação porque vai tergiversar ( e qual a % de eleitores, me pergunto, saberiam o que significa esta palavra). Fiquei com um bocado de saudades da verve intrépida de um Brizola, da frontalidade de um Plínio e até do deboche combativo de um Ciro, cujas performances podiam inspirar amor ou ódio, indiferença nunca.

Salvo um ou outro posicionamento mais contundente, restrito à proposição de temas que a nossa democracia branda ameaçava tornar tabus, achei o debate para lá de burocrático. A responsabilidade maior disto não está com os candidatos, verdade seja dita, mas no próprio formato da coisa. Talvez fosse melhor escancararem logo de uma vez a superficialidade da proposta, colocando um botão em cada púlpito e lançando perguntas que, a cada rodada, responderia o candidato que fosse mais ágil no soar a campainha. Nem falar do nível de partidarização dos atores-jornalistas presentes. Tive a impressão que a qualquer momento iam arrancar paletós e camisas, revelando uma camiseta com o logo de seu candidato e cantar seu jingle – e de mãos dadas, os populistas.

Diga-se de passagem: tudo somado, penso que as assessorias fizeram bem o seu papel. Nos limites das regras do jogo os candidatos parecem todos cientes que seu discurso tem de falar diretamente aos problemas concretos de maneira curta e pragmática. Mesmo que sejam problemas imaginários – como os que a grande imprensa inventa para o candidato dela poder resolver. Mas como? Alguém poderá perguntar. Mas e o fenômeno da vez, a candidata Marina, que chegou a propor o impossível- pinçar de diferentes partidos os “ melhores”, para fazer o inútil – acabar com a disputa polarizada entre dois dos majoritários : PT e PSDB?

Bem, meus caros, admito que a práxis do discurso raso de promessas prossegue mas, vejam bem, melhorou um bocadinho. A política, finalmente, na sua dimensão simbólica, vista como o próprio mecanismo de produção de realidades entrou em cena. Não ainda como ela é : palco de disputas eternas, troca de ideias e barganha de diferenças, arena de convencimento pela palavra para que não sejam necessários os porretes e balas. Entrou disfarçadinha, tímida, com uma certa tendência a  jurar que é capaz de levar a mensagem cristã de “paz na terra aos homens de boa vontade” e o ” a cada um segundo as suas obras ” à implementação em toda a sua plenitude. Mesmo na imediação dos cofres. Não se promete mais cisternas para acabar com a seca do Nordeste. Mesmo porque a seca agora é em São Paulo, aquele Estado que está praticamente sobre o aquífero Guarani e não ia fazer muito sentido. Se promete o congraçamento dos diferentes. Se promete o apagamento das diferenças sociais : elite é todo mundo. Aquele ali faz parte da tropa de elite da ética e da moralidade : não é fato que puxa uma carrocinha carregada de lixo para reciclar, chova ou faça sol, esteja ou não doente, mora em um barraco de teto furado e mesmo assim, nunca deixou de pagar todos os seus impostos? E olha que o imposto é religiosamente cobrado no arroz, feijão, leite e ovos que entra em casa ou na cachacinha do fim do dia – e olha que eles levam quase metade de tudo que ganha ! E quem diz que ele reclama ou sonega? Aquela ali é da tropa de elite do bom gosto – até abriu uma outlet no shopping mais chique da cidade e praticamente usa todo seu pro-labore em viagens a Miami, sempre pela American Airlines, sempre carregando um iphone ou um tablet – tão mais barato!- e assim subsidiando com provas, que os impostos brasileiros são mesmo escorchantes e fazendo sua parte na politização do debate. Aquele ali ( dizem!) “vende” seu voto por um simples ajutório pra alimentação da criançada e nada sabe sobre Reforma Política. A outra ali ( dizem!) investe os milhões necessário à campanha de fazer-conhecido um candidato a deputado – para colocar o primo dela perto da boca do caixa – e nada quer saber de Reforma Política. Mas todos têm na ponta da língua um só nojo: corrupção! Somos todos elite, no fundo. O que precisamos é tomar consciência de que cada um tem de fazer a sua parte. Com eficiência e visão estratégica.

A estratégia está correta, meus amigos. Em tempos de consumismo, muito eleitor-consumidor procura um candidato que valha o custo/benefício. Para isso ele consulta a caixa de recomendações do site, pega indicações com os amigos e parentes e procura novidades no campo do design ( e ouviu dizer que o retrô está em alta !) – porque não ? Ou alguém aí gosta de ler manual de instruções, vai querer saber como é que o produto foi fabricado ou está preocupado se seu uso vai causar malefícios à saúde DOS OUTROS antes de comprar ?

Pragmática, meus caros. Bem vindos, ao deserto da pragmática. É o que tem pra hoje. É pouco mas o pouco etc.

 

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