Parece FlaFlu, mas é eleição mesmo.

bipolar

Comédia ou Tragédia?

Bipolaridade. Certo x errado. Belo x feio. Claro x escuro. Assim x assado. O meu x o teu. Direita x esquerda (será?). Ah… vidinha maniqueísta… desde os gregos, que, pro bem e pro mal, em autoaplicável maniqueísmo, nos moldaram. E seguimos nós cá hoje bipolarizando, preto no branco e branco no preto,  o mundo sucessivamente. E como nós, no fundo e na superfície, também curtimos de montão encarar a realidade sem os atordoantes degradês de cinza.

Dentro do grande projeto societário de construção do Brasil paira um grande anseio de estadunidização dessas terras tupiniquins. Ao menos esse é o anseio de boa parte de sua elite, da mídia oficial e também, claro, de boa parte da dita classe média. Lá naquelas elevadas e setentrionais terras encontra-se a possível cura para nosso atávico subdesenvolvimento, em maniqueísmo redundante. Ora, a começar pelo inglês que é tão mais sofisticado, belo, chique, enfim, apropriado do que o português, não?

Pois que, desde o alvorecer do governo FHC, que se vem tentando, a fórceps, por parte de nossa infelizmente citada mídia oficial, importar o padrão político-eleitoral do bipartidarismo madeinusa. Aliás, diga-se de passagem, o próprio bipartidarismo lá é fabricado também. Há outros partidos, só que aa sombra completa da contraposição Democratas x Republicanos que nem é uma contraposição de verdade, né? Ela se situa mais no campo do simbólico e dalgumas aparências do que propriamente em questões de fundo. É claro que, por exemplo, pra realidade de muitos imigrantes legais ou não que lá vivem (em alguns estados já são mais de 25% da população) não é indiferente um governo democrata ou republicano. Do mesmo modo, em uma ou outra questão, se formará um viés, inclusive de construção histórica, que associa os democratas a uma feição mais liberal do ponto de vista das pautas ligadas aas liberdades individuais e de direitos das chamadas minorias, ao passo que os republicanos encarnariam o lado mais conservador nessas mesmas questões. Numa série doutras áreas de fundo, a diferença é se se sorri antes ou se se fala duro logo de cara. Que diferença faz pro contexto do Oriente Médio um governo democrata ou republicano? Aliás, diria eu, que diferença faz pra continuidade da política do Bigstick em qualquer canto do mundo? Pro desumano bloqueio a Cuba? Pras medidas mais sórdidas, cretinas e cínicas na ação mundial dos EUA? Pra administração interna e externa do exemplar capitalismo ianque?

A diferença nesses pontos é um pouco mais do que cosmética apenas. Até podemos pensar que os democratas, com a pecha de melhorzinhos, causam mais estrago no mundo. Vietnã e Bálcãs, dentre outros, que o digam.

Pintura de René Magritte.

Pintura de René Magritte.

E, afinal, não é nesse modelo que está a se tornar o processo eleitoral brasileiro. E já estamos num estágio avançado disso, pois, mesmo dentro do eleitorado mais tradicional de esquerda e supostamente crítico, não há contestações a tal cenário. Parece natural que se escolha entre o Céu e o Inferno- a caracterização é sempre essa, alternando-se apenas os defensores dum ou doutro lado- num processo em que não há espaço sadio pra nada que rompa com isso. Não, não é o discurso antipolaridade da Marina  não, até porque ela encarna um dos polos desse processo, único fato novo nessa lógica- substituição de emergência pra encorpar a polarização pretendida. Tô a falar de, por exemplo, todo mundo, ou quase isso, considerar normal que haja candidatos que têm o que dizer e são excluídos absurdamente de praticamente todo o contexto de interlocução com os eleitores. Vozes silenciadas, propostas amordaçadas. Como se acha isso normal? Como se acredita que se trata do projeto de país e só há dois caminhos em que isso possa ser discutido? Ou é Dilma ou é Marina?! E, sobretudo, como se crê que as candidaturas sejam tão opostas? Como chegamos a esse ponto? Realmente, nosso patamar de discussão se inicia pela artificialização duma tal brutal distinção que só procede na ficção do desejo obviamente irrevogável das elites de não se gerir o país segundo interesses e objetivos populares? Enquanto os reais donos de poder discutem se é o caso de se dar mais ou menos esse ou aquele anel pra não perder os dedos, uma perspectiva voltada ao trabalhador e seus reais problemas é amputada brutalmente.

ceu-inferno

A diferença entre Dilma e Marina não é dum grau muito diferente da de um candidato democrata típico pra um republicano tradicional lá das terras do tão garboso Tio Sam. Do mesmo modo que lá, isso não significa reducionistamente que esses milímetros políticos possam ser considerados indiferentes pra vários setores da sociedade. Não o são mesmo. E pra seguirmos em termos maniqueístas, nem acima nem abaixo. A relação e, sobretudo, a desproporção entre investimento em programas sociais e o que ambas as candidaturas projetam a bancos, especulação financeira, dívida interna, agronegócio, etc, seja pelo que já vemos, seja pelas indicações político-econômicas, não destoa dramaticamente.

Insisto que não se trata de indiferença aas duas candidaturas em voga, mas tampouco de contentarmo-nos com isso aí mesmo.

Mesmo nas pautas ligadas aas liberdades individuais e direitos das assim chamadas minorias (na verdade, de interesse devido da maioria da sociedade), há de se perguntar quais são as abissais diferenças proclamadas. Afinal, o governo Dilma, em feira livre de negociação aberta com sua espúria base parlamentar, também não rifa esses direitos? Mas, é claro, supõe-se que Marina faria isso no tacão. É da mesma ordem que o falso bipartidarismo aa USA.

Já disse noutro texto e repito. O que se está a discutir, no fim das contas, não mexe sequer em dois fios de cabelos das classes dominantes deste país. É nessa vala comum em que se situa hoje o debate por detrás da luta do Bem contra o Mal- carapuças aa vontade. Só que pra maioria da população o que há de sacrifício acumulado é mais do que os fios de cabelo. São vidas, vidas e mais vidas de insatisfação, de desprazer, de dor, de sofrer, de humilhação, de exclusão, de impossibilidade, de não vida.

Agora, é preciso dizer que essa mínima distinção é muito pouco pra nos apegarmos a ela como que a uma questão dogmática e passarmos a enxergar a realidade pelo espectro duma contraposição fabricada por marqueteiros e mídia. Estamos a discursar por migalhas? A disputa que se faz é pelos restos? ´É o ruim versus o pior? A impressão inequívoca que fica é que só quem está a discutir grande política nestas eleições é o topo da elite, como os grandes banqueiros, por exemplo. E aí a meta é estadunidizar-se ou se tornar os Estados Unidos da América Latina? São os únicos caminhos permitidos?

Tem-se tripudiado da palavra “mudar” nestas eleições. Nunca a mudança foi tanto mais do mesmo. Se os opostos que o são, de fato mesmo, só se distraem, os falsos opostos enchem a paciência.

É pior do que Flaflu, do que Grenal, do que Brasil x Argentina, do que Montéquios contra Capuletos… São os Donos da Verdade contra os Senhores da Razão, ambos os lados com suas mentiras de parte a parte, tentando construir a monolítica e ilusória realidade que lhes convêm. E o povo, o trabalhador emparedado opressivamente  entre esses polos esmagadores. Vivamos tons de cinza!

preto-branco

 P.S.: E o político mineiro não associado a helicópteros de carregamentos exóticos? Quem mesmo?!

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