Cus, cérebros e outras reflexões da série “eu não acredito que eu AINDA tenho que protestar contra isso”

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Eu me pego, freqüentemente, repetindo a sábia e nem um pouco observada recomendação do Millôr Fernandes: “Vamos tomar cuidado para não amplificar a voz dos idiotas”. O problema é que quando o idiota é um candidato à presidência da república e ele expõe a sua estupidez em cadeia nacional, a idiotice já foi amplificada em uma magnitude impossível de ignorar. E cá estou eu novamente desperdiçando o meu pouco portanto precioso tempo livre para combater a Idade Média.

Já gastei muita pele de ponta de dedo digitando estatísticas sobre taxas de homicídio de mulheres, negros e homossexuais neste blog. Não vou repetir o óbvio. Não vou ser técnico nem preciso aqui. Vou escrever com o cu. Como a minha área de formação é Letras, embora eu raramente tenha trabalhado nela, vou propor uma modesta análise do discurso do candidato-sensação do momento. O que me causa mais indignação nisso tudo, é que pessoas como esse Levy Fidelix, o execrável, aquele que vai privatizar até o oxigênio, raramente acreditam no que eles mesmos falam. Ou se acreditam mesmo, pouca diferença faz, pois o objetivo verdadeiro disso é demagógico e oportunista, já que o discurso do ódio rende preciosos votinhos, como a escola “Jair Bolsonaro de disputa de eleição” já descobriu há muito tempo. Rende, também, uma projeção enorme na mídia e nas redes sociais (a visibilidade tão necessária para obter sucesso na política), o que Fidelix, o execrável, de fato acabou de conseguir.

Jogando Fidelix no ventilador

Indagado por Luciana Genro sobre violência contra homossexuais (o fato do Brasil ser campeão de assassinatos contra população LGBT foi apresentado no enunciado) e casamento gay, começou assim o execrável a responder à questão:
“Jogou pesado. Nessa questão você jamais deveria entrar. Em economia, tudo bem” (não entendi a correlação, deve ser porque o seu programa econômico é um cu). Logo em seguida, fomos brindados pela seguinte pérola: “Olha, minha filha, tenho 62 anos, e pelo que vi na vida, dois iguais não fazem filho” (ele chegou a essa conclusão após 62 anos de cuidadosa observação da sexualidade humana). E segue, imperturbável, o candidato: “E digo mais, e digo mais, desculpe, mas aparelho excretor não reproduz” (em algum lugar lá fora, deve haver um Prêmio Nobel esperando por esse cara).

Implacável, afirma o candidato não ter medo de perder votos por manter sua posição homofóbica, posando de um corajoso defensor da causa hétero. Mentira. Ele sabe muito bem que esse discurso angaria mais apoio do que perde. É mais fácil perder votos defendendo posições progressistas, como aborto e etc., do que defendendo posições conservadores e reacionárias. Todo político sabe isso.

Em um trecho particularmente truncado, ele parece afirmar que uma minoria, “querendo escorar essa minoria (sic), achacando a gente no dia a dia, a maioria do povo brasileiro”. Essa tática é surrada e velha, mas continua muito usada, especialmente pelo fundamentalismo evangélico: inverter os papeis entre opressor e oprimido – a acreditar no candidato, são os homossexuais e os seus “defensores” que oprimem o povo brasileiro (na verdade, os hétero-reacionários), a despeito do fato de ninguém nunca ter sido assassinado, castrado, torturado ou desfigurado por ser heterossexual. Após esse show, demonstra o candidato nem sequer conhecer a lei que trata de casamento civil, sendo corrigido imediatamente por Luciana Genro quanto à possibilidade ou não do casamento entre pessoas do mesmo sexo (se o tema é tão importante para ele, não custava estudá-lo um pouquinho).

Na sua treplica, volta o candidato fazendo uma piadinha, afirmando que a população brasileira cairia pela metade se o homossexualismo continuasse a ser incentivado (sic). E pensar que o Reverendo Thomas Malthus passou aquele perrengue todo por pregar a abstenção sexual como forma de controle da natalidade. Deveria ter recomendado que os ingleses do século XIX se tornassem todos gays. Seria bem mais divertido e teria mais chance de dar certo. Termina o seu discurso conclamando: “Gente, vamos ter coragem, nós somos a maioria, vamos enfrentar essa minoria”, em uma afirmação que pode ser facilmente interpretada como incitação à violência, e mais uma vez invertendo os papeis entre vítima e opressor, como se fossem necessárias virtudes excepcionais para se afirmar como heterossexual ou para “dizer que sou pai, mamãe, vovô”. Termina, enfim, caracterizando homossexualidade como doença e recomendando tratamento (só que bem “longe da gente, porque aqui não dá” – se fosse psicólogo, o candidato teria o seu CRP cassado).

Em resumo, um discurso invertido, perigoso e perverso. A parte em que ele passa do tema homossexualidade para pedofilia, igualando as duas coisas, é simplesmente criminosa. Em um país que já mata homossexuais em escala industrial, essa “confusão” não é apenas perniciosa, ela é uma incitação ao crime. Tudo isso em nome da obtenção dos preciosos votinhos, aos quais boa parte da democracia representativa se limitou.

Nunca vou conseguir entender toda essa mania de controle, que produz uma tamanha obsessão com os cus (e outras partes) dos outros. Eles justificam tudo isso com a bíblia e com deus. Em um universo com duzentos bilhões de galáxias e em um planeta com graves problemas de todas as ordens, por exemplo a subnutrição, segundo esses pastores deus está muito preocupado com a vida sexual alheia. O deus dessas pessoas é uma entidade com uma ordem de prioridades nebulosa e uma extremada falta do que fazer.

Já estou cansado de lembrar o quanto o fundamentalismo religioso, especialmente o evangélico, interfere negativamente na vida de todos nós: ele embarreira políticas públicas essenciais para a saúde, como o planejamento familiar, o aborto, a educação sexual nas escolas – vide o escarcéu que esses primatas criaram em relação ao kit anti-homofobia; ele interfere no progresso científico, se opondo a diversas formas de pesquisa; e, assim, impõe as suas crenças particulares ao conjunto da sociedade. Está na hora de abandonar o bom-mocismo religioso e partir para o contra-ataque. Temos que lutar para que igrejas paguem impostos igual a todo mundo. Fazer boicotes a candidatos ligados a religiões fundamentalistas. Incentivar as denúncias ao Ministério Público de quaisquer abusos sofridos por fieis dentro dessas igrejas (e olha que são muitos), e organizar entidades voltadas a dar suporte a pessoas com esse fim. Promover auditorias sobre as fortunas acumuladas por esses líderes religiosos, especialmente os que pretendem se tornar políticos. Ao contrário do que o execrável afirma, nós é que somos os perseguidos, e nós é que temos sido os intimidados. Está na hora de passar à ofensiva e tornar a vida desses picaretas mais difícil também.

Precisamos falar sobre cu

O cu, ou ânus, é uma potente zona erógena tanto no homem quanto na mulher. Portanto, não importa se você é mulher ou homem, ou se gosta de homem ou de mulher, um dedinho bem colocado ou uma língua já fazem um serviço e tanto. Fica a dica.

Aforismos de cu e cérebro

– Dizem que camarão tem cocô no cérebro. Nunca verifiquei a veracidade biológica da afirmação, mas é indiscutível que algumas pessoas só têm merda na cabeça.

– Se é verdade que cu não reproduz, tão pouco ele deveria substituir o papel do cérebro, e menos ainda tomar o lugar da boca.

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Categorias: Política | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Cus, cérebros e outras reflexões da série “eu não acredito que eu AINDA tenho que protestar contra isso”

  1. Equívoco Humano

    Além de falar sobre este candidato inexpressivo e patético, tem alguma palavra sobre a curra perpetrada na Petrobrás?

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