Por um mundo com mais guarda-chuvas e menos paraquedas: notícias de Hong Kong

20141004_LDP001_0

Mais uma onda de protestos se ergue no mundo, desta vez em Hong Kong. Ela encontrou no seu caminho gás lacrimogêneo, spray de pimenta e policiais em traje antimanifestação completo (ou seja, a versão local da tropa de choque). Os métodos e as armas da repressão têm sido os mesmos, e o fato do movimento chamar-se de Revolução do Guarda-Chuva deve-se ao uso deste objeto heteróclito como defesa contra spray de pimenta (como foi que eu não pensei nisso antes). Fora a repetição do receituário repressivo, também no fundo parece haver forças em comum que levaram as pessoas às ruas do mundo árabe, do Brasil, da Turquia e, agora, da Ásia.

Em Hong Kong, o que une mais evidentemente os diversos grupos de ativistas, muito diferentes entre si, é o desejo de substituir a democracia de mentirinha que eles têm por uma democracia de verdade. Vão, é claro, se decepcionar, pois como nós todos brasileiros sabemos hoje, essa democracia representativa de meia-tigela nos moldes americanos não é nada tão entusiasmante como quem vive em ditaduras pode imaginar. Porém, na cidade-estado, a realização de eleições seria algo de inédito. A Inglaterra obteve o domínio de Hong Kong via tratado internacional (na verdade, uma das várias imposições ao império chinês após as guerras do ópio). Em 1898, ela obteve ainda uma extensão da área até a China continental, em um sistema de arrendamento sob concessão previsto para durar 99 anos. Na realidade o Império Britânico, pasmem, só terminou oficialmente em 1997 quando da devolução da cidade, que era a sua última colônia, à China.

Nos anos que precederam essa devolução, a mídia ocidental criou uma espécie de terrorismo em relação ao retorno do domínio chinês sobre Hong Kong, antevendo todas as formas de desgraças e catástrofes (ditadura, opressão, mulheres de família sendo transformadas em putas, devoração de criancinhas etc.). A verdade é que a cidade passou de uma dominação colonial para outra (antes, HK era dirigida por um chefe de executivo escolhido em Londres, a partir de 1997, este chefe passou a ser escolhido por Pequim), e a despeito disso, os resultados econômicos e financeiros da reunião foram altamente benéficos para Hong Kong (bastando lembrar que o maior banco do mundo hoje em dia é o HSBC – sigla em inglês de Hong Kong and Shanghai Banking Corporation). A cidade então se tornou uma das Regiões Administrativas Especiais da China, o que significa que ela tem um alto grau de autonomia interna, embora sem autonomia em questões de relações internacionais nem de defesa (fórmula típica do semicolonialismo).

Pode parecer estranho querer correlacionar um movimento como este com o ocorrido no Brasil, que essencialmente questionou a própria forma de representação política e evoluiu, em boa medida, para uma campanha de voto nulo. No entanto, todos os protestos dos últimos anos estão claramente interligados por uma grande insatisfação com o capitalismo, que já vinha de antes, mas foi precipitada pela crise de 2008 (no caso de HK, isso é evidenciado até pelo nome do movimento, Occupy Central, em clara referência ao Occupy Wall Street). Aqueles resgates milionários a bancos e o fato da maioria dos operadores ligados aos derivativos (os títulos podres que estouraram a bolha imobiliária americana) não terem sido presos deixou muitos indignados mundo afora. Na realidade, esses operadores não só não foram presos como foram recompensados com bônus de fim de ano que chegavam à ordem de um milhão de dólares – uma indecência sob qualquer parâmetro (fora todos os rendimentos ao longo do ano, esses grandes executivos recebem este abono, chamado de “golden parachutes”, “paraquedas dourados”).

Além disso, um estudo recentíssimo da OCDE, que examinou a desigualdade no mundo desde 1820, chegou à conclusão que a desigualdade, apesar do incrível crescimento global da economia nesse longo período, na verdade aumentou. Segundo essa pesquisa, países como o México e o Brasil sofrem de uma maior desigualdade social hoje do que nos tempos de Simón Bolívar. Além disso, o estudo apontou o aumento da desigualdade entre as nações, fazendo uma espécie de índice Gini internacional (o índice tradicional é calculado pelo Banco Mundial, e avalia a desigualdade social dentro dos países). Segundo essa nova perspectiva, em 1820 o país mais rico do mundo, a Inglaterra, era cinco vezes mais rico do que a média dos países pobres. Em 2000, o país mais rico, os EUA, era 25 vezes mais rico do que essa média. Lembrando que o índice varia de 0 (a perfeita igualdade, quando a riqueza está igualmente dividida por todos) a 100 (a perfeita desigualdade, toda a riqueza na mão de um único), o aumento da desigualdade global no período foi de 49 para 66 – para se ter um parâmetro de comparação, em 2008, o Gini brasileiro, o terceiro pior do mundo naquele ano, era de 54,4.

Aponta ainda o estudo que a degradação de todos esses índices se acentuou do fim dos anos 1970 para cá, o que a relaciona com o fenômeno da internacionalização do capital (aquilo que chamam de globalização). Quando a própria OCDE admite que “deu ruim”, me parece que é hora de repensar o modelo. Este modelo de abertura nacional para o capital predatório internacional foi adotado mais ou menos por todos os países, e as pessoas não agüentam mais ver bancos enriquecerem (e seus acionistas, grandes gerentes e operadores de área financeira) enquanto economias nacionais são rapinadas e as vidas de milhões são jogadas em buracos. Essa insatisfação de origem financeira precipitou, por sua vez, o questionamento de formas de representação políticas que, mesmo muito diferentes entre si, têm em comum o fato de não estarem concedendo a estrutura necessária para a viabilização dessa farra, o que torna as reivindicações pelo direito de voto contra a farsa eleitoral de lá muito mais próximas das campanhas pelo voto nulo daqui.

Perspectiva regional

De todas as análises que tenho lido, muitas têm frisado a questão da geopolítica no desenvolvimento dos acontecimentos recentes em HK. Entre elas, creio que a análise da perspectiva regional não pode ser deixada de fora. Do ponto de vista do Ocidente, Hong Kong é uma plataforma de exportação, o terceiro maior centro financeiro do planeta (perde apenas para Nova Iorque e para a City londrina) e, ao mesmo tempo, uma das principais portas de entrada para o gigantesco e cobiçado mercado chinês. Do ponto de vista da China, HK foi a primeira Zona Administrativa Especial, que junto com as Zonas Econômicas Especiais, são as áreas onde se permite a operação do capitalismo no país e por onde entra o capital (e a transferência tecnológica, de que eles sabiamente não abrem mão na hora de abrir o seu mercado) tão necessário para um regime que se legitima cada vez mais acentuadamente pelo crescimento econômico. Portanto, há muito em jogo por trás do esquema atual de representação política no território, e é improvável que a situação por lá mude pacificamente.

A China já deu toda sinalização possível de que não vai alterar o seu controle sobre a escolha do Poder Executivo na cidade. Além disso, o tratado conjunto estabelecido com a Inglaterra, de 1985, que preparava o caminho para a transição, garantia a autonomia administrativa e gestão do sistema econômico apenas pelos próximos 50 anos. Portanto, a partir de 2047, a China terá ainda maior liberdade de ação para interferir nos assuntos de HK. Isso, evidentemente, preocupa a população local, principalmente à luz da mudança de direção da política regional chinesa.

Xi Jinping, atual presidente do Partido Comunista, pretende retomar o controle da “Grande China”, o que inclui pesar a mão sobre HK e Taiwan, por exemplo, e reavivar velhas reivindicações territoriais que entram em conflito frontal com Japão, Vietnam e Filipinas. Para isso, a estratégia de inserção regional da China está endurecendo, passando de uma política de relativa boa-vizinhança com os demais países e áreas do sudeste asiático, para uma política de hard power, com investimentos maciços no desenvolvimento de uma marinha de guerra digna de superpotência. Calcula-se que a China ainda demorará algumas décadas para se tornar uma potência naval de verdade e realizar estes objetivos, mas é claro que isso está trazendo um sentimento de insegurança para a região.

Anúncios
Categorias: Política | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: