Eu odeio o PT

Smurf ranzinza. Ele odeia os próprios smurfs.

Smurf ranzinza. Ele odeia os próprios smurfs.

Há um vírus no ar. Uma ameaça. Bem maior que ebolas da vida. Ou da morte. A doença fatal que quase chegou ao país mata o corpo de um indivíduo em poucos dias. Esta outra, que já infesta boa parte da população brasileira, mata-lhe o pensamento, a crítica e a própria sociedade. Tal qual em famosos seriados de zumbis, milhões de eleitores tiveram seu cérebro comido e vagam arrastando palavras e ações de ódio puro, irracional, bruto e bárbaro.

Não digo que não haveria de haver o ódio contra uma sigla. Há inúmeras odiáveis. O PT é uma delas. Não vejo problema em se odiar o PT, ou o PSDB, ou o DEM, ou o PMDB, ou o PSB, ou qualquer outro partido por tudo aquilo que defende, por sua ideologia, por sua visão de condução do poder. Um ódio menos insensato. Dirigido à ideologia que se professa, em tom grave de desacordo. Faz parte.

O problema é quando o ódio atinge não as siglas, mas a nós mesmos. Veja (sujeito ou verbo?), alguém poderá dizer que, como comunista, eu odeio os latifundiários, por exemplo. Ora, basta que eles abram mão de seu latifúndio e acaba por completo essa minha “raiva”. Nada pessoal. Meramente visão de construção de sociedade. Sou contra a concentração. Incluo os campos.

Infelizmente não é disso que está sendo feita nossa história hoje. O ódio é visceral, irredutível. Há ódio social contra os pobres. Ódio que vem de gente da elite educacional do país. Médicos defendendo castrações químicas. Auditoras do trabalho defendendo genocídios atômicos. Há ódio racial de inúmeros brancos insatisfeitos. Ódio geográfico sulista contra nordestinos. Ódio, ódio puro. Excluir é a palavra da moda.

Um sistema de exclusão é feito de maneira a vender exceções que lhe mascare as regras. Por isso, quando um negro pobre da periferia entra na faculdade e ascende a juiz, vira capa de revista. Mas uma política que busque dar condições a que muitos outros negros pobres da periferia tenham a mesma oportunidade é assistencialismo e, portanto, condenável.

Um excluído que ascende socialmente é o exemplo da oportunidade econômica oferecida pelo sistema do capital. Uma política para que mais excluídos ascendam é um ataque à “igualdade” desse mesmo sistema. É a propaganda de que qualquer um pode se dar bem na vida. Mas todo mundo não. Aí é vandalismo. “Ensinemos a pescar” é a metáfora da ocasião. Uma metáfora triste, já que a ideia é criar pescadores que não tenham acesso ao mar.

O ódio passa do PT ao eleitor do PT. Acusam-se nordestinos de votarem em Dilma porque estão tentando preservar seus interesses. Ora, bolas, e quem está votando no Aécio, não o faz porque está igualmente preservando os seus? Ou temos a ideia de que a elite brasileira faz campanha para o PSDB para demonstrar altruísmo e filantropia? E com tamanha ingratidão. Hoje existem mais Audis e Mercedes circulando com adesivo do Aécio, do que existiam Audis e Mercedes no Brasil em 2002!

O interessante ou o interesseiro é perceber que as classes que vociferam contra as “bolsas-auxílio” esquecem-se de que seu candidato reivindica a paternidade delas e promete ampliá-las! Ora, sejamos coerentes: quem é contra bolsa, vota nulo. Ainda que a hipocrisia das elites não condene odiosamente todas as bolsas e auxílios.

A bolsa-moradia e o auxílio-escolar para juízes e seus filhos (que podem somar mais de dez mil reais por beneficiário) não entram nessa conta de absurdos-assistencialistas-para-vagabundos. Com o agravante que o valor do auxílio educação do magistrado é maior do que o de outros servidores do próprio Judiciário. Afinal, filho de juiz não pode estudar na mesma escola em que estuda o filho de um reles servidor.

O ódio é social. E mortal. Não quero, com isso, defender o voto no PT. De forma alguma, inclusive. Só acho que ter ódio à corrupção e estender isso ao PT é compreensível. Achar que se está resolvendo esse mesmo problema votando no PSDB é uma estupidez incomensurável.

Pouco me importaria se o ódio fosse exclusivo ao PT. Mas não é. O ódio é contra nossa gente. É contra as cores que são nossa identidade. É contra a geografia de nossa população. É contra o comportamento sexual dos indivíduos. É um ódio que prega o fim do Estado em quase todas as relações sociais, para lhe sobrar tempo para fiscalizar o que anda sendo feito do cu de seus indivíduos. A responsabilidade por esse quadro é, ao fim e ao cabo, do próprio partido da estrela.

Quem está à esquerda no pensamento político torce o nariz em apertar o 13 na urna. O fantasma de uma revolução comunista só existe no vazio das cabeças constantinas e azevedas, zumbis que comem os cérebros (?) dos incautos. Uma ditadura de esquerda que promove o maior lucro do sistema financeiro da história? Uma ditadura de esquerda que não tem coragem de regular a mídia que lhes sova diariamente?

Quem dera se houvesse qualquer ideia socialista em curso. O PT afastou-se demais da esquerda para não apanhar dela também. De outro lado, não conseguiu comprar seu ingresso na festa da burguesia nacional. Não adianta que seus militantes usem de qualquer chantagem como “evitar um mal menor” para tentar mostrar que ainda é útil um voto no PT.

Que tudo isso sirva de lição. Que lutemos contra o ódio ao Brasil, contra o ódio à nossa gente. Que o PT faça sua autocrítica a esse respeito. Que abra mão de suas inúmeras concessões ao capital em nome de uma suposta governabilidade. Assim, o PT pode até perder a eleição, mas  ganhará sua história de volta.

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Categorias: Política | 5 Comentários

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5 opiniões sobre “Eu odeio o PT

  1. Equívoco Humano

    Mas o PT já conseguiu a história, com o mensalão, Abreu e Lima, Gamecorp, Passadena, Mais Médicos(repasses a Cuba), Porto Mariel, Copa do Mundo… Quanto ao Bolsa-Família, mesmo com suas falhas, é um dos poucos acertos da atual gestão. Deve ser mantido, mas também precisamos de um modelo econômico que faça nosso PIB crescer acima da média do resto do mundo. E com nossa carga tributária, e sendo a sexta economia do mundo é bem possível que consigamos, ou pelo menos sair da 79ª posição do IDHM, na verdade é possível fazer os dois. Em 12 anos não foi feito, mas negócios bilionários se transformaram em mar de lama

  2. Jorge Oliveira

    Bem, o fato é que o PT “…conseguiu (SIM) comprar seu ingresso na festa da burguesia nacional.”

  3. Prezado Walace
    Recebi de meu filho Igor Rocco(que foi seu aluno no Intelectus)o artigo aí de cima. Além de muito bom, fiquei orgulhoso com o senso crítico que ele começa a demonstrar. Por si só, já valeu muito ele ter lhe conhecido e frequentado suas aulas.
    Como também gosto de desopilar o fígado escrevendo sobre nossas angústias cotidianas, lhe repasso artigo sobre as eleições que publiquei no Blog “Utopia Sustentável”.

    http://utopiasustentavel.blogspot.com.br/2014/10/a-coerencia-como-caminho.html

    Abraços Sustentáveis

    Odilon de Barros
    Utopia Sustentável

  4. Ah, esqueci, caso se interesse, como meu blog tem um viés voltado para a sustentabilidade e política, podemos fazer parceria de indicação de um e de outro em nossas páginas.

    Abraços Sustentáveis

    Odilon de Barros
    Utopia Sustentável

  5. Walace Cestari

    Obrigado, Odilon! Seja sempre bem-vindo a este espaço para concordar, discordar ou arremessar sua pedra! Vou incluir seu blogue (assim que eu lembrar como faz) nos links parceiros.

    Mande abraços para Igor!

    Amplexos,
    Walace

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