Como se forma um professor?

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Tudo começou ainda menina quando, nas brincadeiras solitárias, alternava os papéis de aluna e professora de si mesma. Rabiscos ilegíveis, garatuja. A mãe tinha sido sua primeira professora leiga. Atenta à curiosidade infantil, entregava-lhe o que pedia: Mãe, como escreve boneca? Mãe, como escreve bonita? Mãe, como escreve vida?

E lá ia Mãe escrevendo, a menina cobrindo, palavras conhecidas se desdobrando em frases, reconhecidas nas histórias que a mulher bonita contava com livros coloridos nas mãos antes de dormir. Eram as melhores histórias. Era a mulher mais bonita.

Pediu ao pai que comprasse um quadro negro e giz. Ele atendeu. Ali a garatuja ia tomando a forma de sonhos e poesia. Giz colorido em torno da mão. Já começava a querer deixar marcas no mundo. Pai gostava de adivinhações, cutucava a mente já inquieta da menina: o que é, o que é…?

Na mesa, outra lição: agradecer pelo alimento. Obrigada, Senhor, obrigada, Pai, obrigada, Mãe. E a quem mais? Como assim? E a quem mais? O que aconteceu para que a comida estivesse no prato? Lavrador, pescador, caminhoneiro, comerciante, toda a trajetória do alimento do cultivo ao prato, ludicamente percebidos com o feijão na boca.

Sedenta de conhecimento. Na escola, nunca se importou com o aspecto prático-utilitário que tantas pessoas esperam dos ensinamentos. Acreditava, sem saber, que aprender era ato contínuo e que a teoria era importante para provocar mudanças, para fissurar o habitual, instaurar a incerteza.

Na comunidade onde morava, deu aula particular para crianças. Tão competente no feito, que o dono a convidou para lecionar na escola que ele queria abrir. Muito arriscado. Precisava dizer. Usou argumentos legais para falar com quem sobrevive à margem. Ele entendeu. Ufa…

A Menina cresceu, estudou, terminou a faculdade. Encarou os mais diferentes tipos de sala de aula. Lembra-se com saudade e orgulho de alguns grandes mestres que lhe cruzaram o caminho: alguns, só pelos livros; outros, na lida diária, de diferentes níveis de ensino.

Agradece, entre outros, a Tia Josete, pelo carinho, a Martha Maria, pela reflexão visionária, a já falecida D. Margarida, pela disposição incansável, a Cinda Gonda, pelo amor às pessoas, à política e às letras, a Ronaldo Lins, pela inquietação pulsante de obra e de vida, aos alunos que a provocam, acolhem, enfrentam, aceitam, estimulam e convidam a revisitar caminhos, e a seus pais, seus primeiros professores.

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