Falsa escolha

M. Escher, Dia e noite

M. Escher, Dia e noite

Os ânimos andam acirrados nesta reta final de segundo turno. Amizades desfazem-se por preferências eleitorais. Tudo é apresentado de maneira a fortalecer um antagonismo que, analisado friamente, não existe. O que, de fato, emerge é apenas a falsa polêmica, que tem o poder de criar a ilusão de que o destino está em nossas mãos. Ou melhor, na ponta dos dedos. Nas teclas de uma caixa plástica.

Antes que você se faça de desentendido, serei claro: você não escolhe nada nas eleições. Ok, escolhe, talvez, de forma mais ou menos definida, como serão realizadas as vontades já estabelecidas do grande capital. O que chega até nós é como uma prova de múltipla escolha onde somos levados a aceitar as alternativas oferecidas como únicas.

Claro que você irá discordar dessa ideia. Neste momento mesmo está balançando negativamente a cabeça, reafirmando que, obviamente, você escolhe o próximo governo. Mas, cuidado, seus olhos o enganam. Vivemos em uma espécie de “Matrix” democrático-representativa, que pouco têm de democrática, menos ainda de representativa.

Nosso modelo eleitoral é a versão burlesca da democracia estadunidense, formada por dois partidos hegemônicos, cuja diferença essencial reside nos nomes e símbolos que adotam. As políticas mais ou menos liberais, conservadoras, intervencionistas ou imperialistas vão como o vento. De sólido, apenas os acordos quanto aos princípios econômicos dos detentores dos meios de produção e financiamento.

Aqui, em lugar de prévias estaduais, temos um primeiro turno tutelado pela mídia e pelo financiamento de campanha, até que se chegue ao segundo turno (se houver) sempre com a mesma polarização: PSDB de um lado, PT de outro. É assim desde a segunda eleição pós-ditadura. A primeira, lembremo-nos, elegeu um aventureiro (o capital não gosta de aventuras e incertezas), logo retirado pela pressão que a mídia criou na “opinião pública” (apesar de cassado no Legislativo, Collor foi inocentado pela Judiciário).

Não importa. Ao grande capital é fundamental a segurança do bipartidarismo. São nossos “democratas” e “republicanos”, ainda que nenhum deles seja efetivamente democrático ou tenha qualquer comportamento republicano. Por isso, não é de se estranhar que os financiadores de ambas as campanhas sejam os mesmos – empreiteiros, financistas e industriais – e com valores similares. Em verdade, estão pagando os atores da farsa da democracia que é vendida à sociedade.

Assim, não há razão para tamanho antagonismo de seus militantes. Estamos diante tão-somente de duas formas de gerir o projeto burguês tropical. Nada que afete as bases do capitalismo brasileiro. As preocupações exageradas são infundadas em caso até mesmo de um governo tucano. Sim, o PSDB representa os interesses de uma direita mais conservadora, com mais mercado, menos estado, desemprego estrutural como forma de pressionar os salários, juros altos e baixa liquidez. Sabemos de tudo isso e como teremos nossa luta recrudescida em caso de novos anos de tucanato. Mas, não precisamos tratar disso, os direitistas já abandonaram este texto desde seu segundo parágrafo.

O que não dá para aceitar é achar que o PT represente qualquer antagonismo a isso. No máximo, é o sopro na ardência do machucado, um conciliador que convence de que está sendo bom optar pelo ruim. No fundo é apenas a ideia política de ter mais Estado garantindo os lucros do capital. Até mesmo porque o verdadeiro controle se dá pelo presidencialismo de coalizão, em que, quaisquer dos candidatos, terá de submeter-se ao PMDB, por exemplo, para conseguir “governabilidade”.

Ou seja, teremos um governo de base liberal – para realizar as reformas que o capital (interno e externo) necessitam, ainda que impopulares (o PSDB é ótimo para encarnar esse papel) – ou um governo de atuação keynesiana – facilitadora da aceitação das necessidades do capital para as classes trabalhadora em geral. Mas não teremos nada que ameace o status quo pelo que ambas as siglas são pagas. Nem mesmo a social-democracia passa perto do discurso de ambos.

Fala-se no assistencialismo do PT e na distribuição de renda. Feita de que forma, já que, por exemplo, a concentração de renda por parte do 1% mais rico aumentou? O Brasil hoje tem quase o dobro de bilionários que tinha no governo FHC. Os bancos registraram o maior lucro em toda sua história, associado a políticas de crédito que endividam os trabalhadores, garantindo o sorriso do capital financeiro. A distribuição de renda é voltada ao consumo, para garantir que a crise fique longe do empresariado, pouco tem a ver com efetivas questões sociais, como se comprova no acesso à saúde ou educação.

Temos, de fato, uma democratização da educação? Ora, de que forma? Transferindo-se rios de recursos públicos a entidades privadas? E isso não seria privatização? A criação de inúmeros incentivos e subsídios para indústrias, em especial, multinacionais é a atuação de um Estado “socialista”? E tudo isso, em nome da criação de postos de trabalho de baixa escolaridade, mal remunerados e, por muitas vezes precários, tendendo à extrema rotatividade dos trabalhadores.

Nesse ponto, cabe lembrar a forma como o governo petista tratou trabalhadores em greve ou em luta por melhores salários e condições. Cabe lembrar a cooptação de sindicatos e associações e o aceno que hoje existe para a “flexibilização” das relações trabalhistas. A truculência como foram tratados professores universitários, servidores públicos federais, além de manifestantes na Copa do Mundo, ensinando-nos que o cassetete do PT bate tão forte quanto o do PSDB.

Durante doze anos, o PT teve a oportunidade de regular a mídia, diminuindo-lhe a concentração. E, antes que chamem a medida de “comunista”, vejam que a medida restritiva existe na pátria-mãe da democracia, os Estados Unidos. E por que não fez? Não fez, porque não pode fazer, porque não goza de liberdade ou de autonomia para definir pontos cruciais de plano de governo, apenas algumas filigranas. Não pode porque está comprometido com a manutenção dos princípios econômicos e políticos dos donos do capital e, pelo quais, vem sendo muito bem pago.

É desta forma que se enxerga o PT sem resposta diante de temas simples como a “meritocracia”. Mas, em lugar de colocar uma posição clara e simples sobre a questão, o partido, outrora dos trabalhadores, é obrigado a aceitar princípios de “gestão eficiente”, “méritos sem igualdade de condições”, sem intervir nas causas reais que nos levam à miséria – econômica, educacional, social ou cultural.

Por serem tão próximos os projetos é que não se os discute nos debates. Sobram apenas acusações. E, neste campo, os dois lados falam a verdade com relação ao outro: são todos sujos. A quantidade e a qualidade do roubo não importa tanto assim quando se assumem ambos como ladrões. Assim, Independentemente de qual candidato vença, o que temos como certeza é que o próximo presidente, diante de tantas denúncias, já deve começar seu mandato investigado. Talvez os debates de agora acabem com a legitimidade de qualquer mandato.

As propostas não são importantes, pois são, no bojo, as mesmas. Mudam-se os nomes, não as políticas. Compadeço-me, no entanto, dos inúmeros companheiros valorosos que hoje acreditam participar deste circo em outro papel senão o de palhaços. Continuaremos, de qualquer forma, a ver migalhas jogadas aos pobres. Resta saber se vamos comemorar as migalhas como avanços ou vamos nos organizar para pegar o pão que nos cabe.

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Categorias: Política | 5 Comentários

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5 opiniões sobre “Falsa escolha

  1. Ao assumir publicamente a escolha de não votar no segundo turno, li e ouvi aqui e acolá que eu estaria me alijando deste processo em um momento crucial, que minha decisão era uma espécie de descaso/passividade/neutralidade inconcebíveis neste que seria, segundo alguns, um momento tão crucial para o país. Tive que ler também votar em Dilma agora equivaleria uma estratégia para excluir de vez a ameaça sombria da volta do conservadorismo e da política econômica neoliberal do PSDB, chegaram ao limite da ilogicidade de me dizer que a invalidação do meu voto era um voto em Aécio e portanto, um voto contra a ampliação e a consolidação dos direitos humanos, pelos quais eu sempre lutei e que sempre defendi.
    Não consigo enxergar nessa eleição nada de diferente do que ocorreu nas anteriores: Desde a tutela da mídia até a polarização no segundo turno, tudo a mesma lesma lerda, a não ser pelo aumento das manifestações de ódio via redes sociais…
    Até ler este texto do Cestari, eu estava me sentindo entristecida e cansada, lendo-o, eu recupero o vigor e mantenho a certeza de que eu não estou tão sozinha quanto cheguei a pensar que estava. Há pessoas que verificam e denunciam lucidamente este estado patético de coisas que estamos vivendo e essa fajutice que nos apresentam como democracia participativa. Há pessoas que ainda tem consciência de que nosso quinhão é bem maior e que estão aqui com a clara missão de tentar fazer outras pessoas enxergarem isso. Obrigada!

    • Walace Cestari

      Renata, sou eu quem agradeço.

      Estamos em um universo de “Saramago”. Todos cegos, buscando encontrar alguém que saiba para onde está indo.

      Quantas vezes não penso: sou eu o cego? Ou será que um dos poucos que sobraram enxergando?

      De qualquer forma, é fundamental (e apaziguador da alma), perceber que não estamos sozinhos na luta.

      Preparemo-nos, pois não nos será leve o fardo que está por vir.

  2. Caríssimo camarada, não discordo de nada em essência e digo que não vi discurso diferente deste vindo da parte dos vários setores sociais, organizados ou não, que compreendem a fundo o funcionamento do mundo atual. No entanto, nos movimentos organizados, sobretudo nas periferias e camadas mais pobres, a opção continua a ser pelo voto e por Dilma. Por uma razão muito simples, quase singela. Qualquer avaliação de diferença quanto ao número de balas e de ferocidade, entre as tropas faz diferença para quem está na linha de tiro. E desarmado. abraços.

    • Walace Cestari

      Respeito, Ana, todos aqueles que têm a razão de seu voto ancorada em questões tão sensíveis, nas pontas onde a dor é imediata e maior.

      O problema é que mesmo com um número de balas menor (o que é discutível, visto as disparadas na Copa do Mundo), o real perigo é o quanto elas são precisas.

      E este governo, tal qual outros já demonstrou que precisa delas e que as usa com precisão.

      Dez balas para matar um pobre ou uma bala para matar um pobre. A discussão sobre se é preferível o lucro do vendedor das balas ou a eficiência do gestor não pode encobrir que continuamos sendo as vítimas…

  3. Refiro-me à avaliações de conjuntura muito específicas, Walace e não tenho condições de fazê-las para muito longe do meu locus. E, melhor dizendo, em abstrato ou sem ao menos levar em consideração que possa haver algo que se possa chamar tática ou estratégia, não há escolhas, de fato. E o fato é que há os que vivem sob o imperialismo, os que sobrevivem com ele, dele e a ele e, finalmente, os que não têm defesa alguma sob ele. E a avaliação é que a conjuntura deixou estes últimos ainda mais fracos e isolados, portanto, alvos fáceis. Mas, visto por outro lado, com o coração mais pesado. Os chineses dizem que esta é a principal vantagem de vitória, numa disputa. E assim me despeço.- com metáforas vagabundas e à espera que o céu despeje a água que promete. Arre. Nem a natureza tem dado sopa. rsrsrs.

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