Veja: lá vem o golpe!

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O jornalismo brasileiro vestiu-se de vergonha ao assassinar por completo qualquer traço ético que ainda podia lhe restar. E apequenou-se de forma tão explícita que foi capaz de transformar-se em panfleto. Tabloides sensacionalistas parecem mais sensatos do que o terrorismo eleitoral propagandeado pela revista mais vendida do Brasil. E como se vende barato. Vai ver é porque não vale nada mesmo. No final, sai caro, pois quem se vende recebe sempre mais do que aquilo que vale.

A tevê, como inocente, vê a celeuma transformada em “fato jornalístico” e repercute em seu jornal de maior audiência não o vandalismo inconsequentemente reativo, mas as próprias denúncias. Assim, consegue colocar em prática aquilo que virou costume na farsa “democrática” nacional: golpes e mais golpes.

A história brasileira é uma história de golpes e conchavos. Independência, república, estados velhos e novos, ditaduras e militarismo. Na democratização, quantos golpes? Sim, porque golpes também há os institucionais. Mais um ano para Sarney, reeleição para o mandato em curso e uma série de outros engodos foram enfiados goela abaixo de uma sociedade.

O efusivamente lembrado impeachment de Collor revela o caráter de eminência parda de nossa mídia golpista. Foram as publicações irresponsáveis de caráter denuncista do irmão do presidente que serviram a insuflar a massa para manobrá-la a pedir a cabeça do governante. Não que Collor mereça qualquer defesa, ou que tivesse qualquer compromisso social, mas foi tirado do poder por não ser controlável e apresentar-se como um risco aos interesses do grande capital.

Provas? Evidências? Não, não é assim que nosso jornalismo trabalha. São panfletos abaixo da linha do medíocre. Lançam articuladamente campanhas para elevar ou rebaixar alguém. São o beijo no asfalto. Sem compromisso com qualquer verdade, apenas com interesses. E não estou aqui falando de Azevedos ou Constantinos, que assinam suas colunas e emitem (des) honestamente sua opinião (ainda que de forma boçal ou atendendo a interesses outros). Quem os lê, sabe que não fazem parte da notícia, mas do posicionamento.

A notícia manipulada como opinião, o fato distorcido para servir aos interesses de alguns, a prostituição do jornalismo, tudo isso é gravíssimo. É isso que faz uma capa virar panfleto. Um simples cartaz inspirado na capa da própria revista que repercutia – pasmem! – uma novela de Rede Globo! É busca incessante por instigar a violência e o golpismo. Monta-se o cenário para que qualquer desfecho seja possível ou aceitável.

O mais triste, no entanto, é saber que o “quarto poder” é intocável. Mesmo posando-se de vítima – de fato, sofre os mais pesados ataques – o governo petista nada faz contra essa atuação. Não faz porque não pode fazer, porque não pode contrariar os interesses do capital que lhe sustenta. Pelo contrário, nas páginas desta e de outras revistas, passeiam anúncios do governo e de suas estatais. Assim foram doze anos esquivando-se da regulação da mídia, alimentando a serpente que lhe ataca. É Fausto diante de seu destino, o melancólico crepúsculo ético de quem vende a própria alma.

O capital, necessitado de reformas mais drásticas para manter seu padrão de lucro e alinhamento com as imposições do mercado internacional, prefere Aécio, que tomará tais medidas de maneira mais imediata, sem contradições. Apesar de que a mídia repita à exaustão (com apoio dos ignorantes e mal-intencionados) a classificação do PSDB como uma social democracia, uma centro-esquerda ou mesmo uma esquerda liberal. Assim, fica mais palatável o remédio. E transforma nossos partidos Republicano e Democrata em iguais, tal qual na matriz. A diferença não reside no programa, mas na forma. No fundo, o PT tomará as mesmas medidas, apesar de sofrer com suas contradições históricas internas (tomara). Freud explica.

Se Aécio vence, pode ser que o PT ache o caminho das ruas (vai precisar de um GPS para saber onde fica a esquerda) e busque alimentar os movimentos sociais. Passará à oposição sistemática no Congresso, buscando dificultar a vida do PSDB, mas sem, de fato, impor-lhe derrota alguma. Afinal, o PT está preso a um acordo eleitoral e não arriscará 2018 por qualquer idealismo. Lula é uma possibilidade real para o capital – que adora mostrar seu lado mais “social” –, desde que suas reformas sejam efetivadas nos próximos quatro anos.

As ruas, sem dúvida, ficarão mais tensas, a repressão mais dura e as críticas mais agudas. A classe média será traída por seu “herói” em dois tempos: Aécio implementará as reformas necessárias ao grande capital, ceifando direitos e conquistas, afetando também a própria classe média. Mais ainda: atentará contra todo um segmento (vasto nas redes sociais), que pensa (?) ser classe média, mas que só tem seu padrão de vida e poder aquisitivo atuais graças às políticas “keynesianas” do PT. Esses, ao perderem o que conquistaram, voltarão ao estágio inicial. Mas agora como traidores de si mesmos. O espelho, nesses casos, costuma ser cruel.

Em caso de vitória de Dilma, creio que – por conta da polarização exarcebada – haverá o espaço para uma grande proposta coalizão, de união nacional, de pacto social, de governo para todos – ou qualquer outro nome que os marqueteiros inventem – com aproximação do próprio PSDB, buscando evitar uma “crise institucional”. Tudo em nome da governabilidade. Assim, haveria terreno para a aplicação das mesmas medidas “impopulares”, sem rupturas e com resignação – e até apoio – de alguns setores da sociedade, convencidos a dar sua cota de “sacrifício”.

Resta saber se a imprensa quer comprar essa versão. Pois, golpista como historicamente é, pode aproveitar para, em caso de vitória do PT, isolar o governo e promover a ascensão dos setores mais conservadores da direita, que encontram eco em cada vez mais setores da sociedade. Insuflados, os reacionários, os fascistas e os militaristas, com apoio de um “lúmpen-classe-média”, poderiam atentar contra o regime democrático-burguês estabelecido. A “vantagem” desse cenário para o capital é a implantação de medidas de forma imediata, supressão de direitos e controle total sobre os interesses políticos. O ônus, por outro lado, sabemos, é igualmente grande.

Não imagino que estejamos próximos de um cenário tenebroso como esse, mas é sempre bom ficar atento à movimentação dos golpistas em seus editoriais. Haverá ameaças, denuncismo, impeachment e uma série de ações que, quem sabe, podem sair ao controle. A irresponsabilidade da mídia nacional não encontra limites.

Assim, tranquilos nesta conjuntura só mesmo os donos do capital, que colocaram fortunas nas contas das duas campanhas, comprando sua adesão total a seu projeto. A falsa polarização atinge toda a sociedade. Que o Partido dos Trabalhadores possa lidar com suas contradições. Pois, em caso de governo PSDB, não haverá crise de consciência alguma em governar para poucos prejudicando o direito de muitos. Há em outros muitos alguma esperança, algo com o que não compartilho, pois só encontro razão nas mudanças que vêm das ruas, nunca das urnas. Aprendi – não nos debates televisivos – que olhar para trás é a certeza de saber o caminho que se trilha adiante.

Por isso, não aceito que se imponha à esquerda a condição de refém do PT. Aliás, esse sequestro tem gerado síndrome de Estocolmo em alguns companheiros: do voto crítico, passaram à defesa intransigente de um programa que nada tem de socialista. Quero, sim, comemorar a derrota de Aécio nas urnas. Mas, no momento seguinte, começar a organizar a oposição ao PT. Pela esquerda. Não ataco Dilma Roussef, porque respeito demais seu passado. Não voto em Dilma, porque conheço bem seu presente.

Fiquemos atentos. O inimigo nunca dorme. E está em cada banca de jornal.

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