O “Norte” vermelho, ou como são burrinhos esses nordestinos!

O mapa do "Norte" do Brasil. Aulas de geografia, por favor

O mapa do “Norte” do Brasil. Aulas de geografia, por favor

No exato momento em que saiu o resultado da apuração das eleições de 2014 (já consideradas as mais polarizadas da história do Brasil), foi possível antever todas as asneiras que teríamos que aturar em seguida. Primeiro, é claro, as conclamações a golpe da direita desvairada, tanto militar quanto via impeachment. A direita brasileira não sabe perder. Fizeram o mesmo quando da eleição do Getulio em 1950, do JK em 1955 e, finalmente, realizaram o sonho do tão desejado golpe depondo João Goulart, em 1964, sempre seguindo o modelo de histeria udenista-lacerdista, igualzinho ao que vemos hoje. Além disso, ainda de maneira previsível e dentro do programa, já poderíamos esperar por mais um surto de preconceito antinordeste. Mas quando vi que a vitória de Dilma havia sido em TODOS os estados do nordeste, e a sua derrota na quase totalidade do sul-sudeste, percebi que neste ano a carga viria redobrada. E veio, com direito a jornalista dito sério de emissora de televisão com respaldo (sabe-se lá por quê) se referindo aos nordestinos como “povinho”. Não sou petista. Mas também não sou histérico, nem de direita, então reclamo do PT no que ele precisa ser criticado (e sempre pela esquerda), e não dos seus acertos.

O nordeste, entre outras denominações na geografia, já foi chamado de “região das perdas”, em referência ao deslocamento do poder político para o sudeste, com a transferência da capital do Brasil para o Rio de Janeiro, e à estagnação econômica decorrente da lenta decadência do sistema escravidão-engenhos de açúcar. Ainda na década de 1950, Celso Furtado tornou-se um dos defensores da ideia de que seria necessário criar um plano de incentivo para o desenvolvimento da região, uma vez que seria impossível desenvolver o país mantendo mais ou menos um quinto da sua área e um quarto da sua população para trás devido às condições históricas e climáticas adversas. Então, sob direção de Furtado, foi criada a Sudene (1959), que tinha por objetivo promover o desenvolvimento regional via direcionamento de investimentos. Porém, um belo dia, um golpe militar (como o que querem de novo hoje) transformou o órgão em um aparelho da Arena, que tratou logo de desviar os seus recursos em benefício das oligarquias locais. Nos momentos em que a população local mais precisava do socorro do órgão, quando dos períodos de seca, a Sudene se notabilizou por captar recursos públicos junto ao governo federal, mas que, em vez de utilizá-los para socorrer essas populações, acabava utilizando-os para encher os cofres dos mandatários da Arena (depois, PFL, ou DEM, ou sei lá como eles se chamam hoje em dia). E assim surgiu a famigerada “indústria da seca”, que transformou a paisagem de muitos estados, erguendo mansões com gramado verdejante e piscinas cheias, enquanto a população das cercanias não tinha sequer água para beber.

Nunca é demais lembrar para os apoiadores de ditadura que esse está longe de ser o único dos projetos progressistas abortados pelo golpe e que nos causam transtornos até hoje. Apenas como exemplo, podemos citar o belo programa de alfabetização, concebido no Ministério da Educação de João Goulart, por homens como Paulo Freire, varrido para baixo do tapete e substituído por uma caricatura grotesca chamada Mobral.

Pois bem, graças a uma ditadura militar e à enxurrada de governos liberais que a ela se seguiram, o projeto de desenvolvimento regional foi atrasado por mais de cinquenta anos. Foi o PT que viabilizou o protejo de compensação histórica para o nordeste, região com a qual temos dívida, por ter sido a mais intensamente explorada no período colonial (até por ter sido explorada desde o início), na qual a escravidão foi mais presente do que em qualquer outra, e onde, portanto, ela deixou o seu legado infamante com maior força. O PIB do nordeste é o que mais cresce no Brasil há décadas. A explicação mais lógica para os resultados das últimas eleições vão por aí, sem necessidade de apelo a teses de inferioridade de ninguém ou racistas de todos os gêneros. Não, o nordestino não é burro por sustentar o governo inescrupuloso e corrupto do PT. Na verdade, a explicação do “povo burro que não sabe votar” é uma das várias expressões da demofobia entranhada nas elites nacionais. O povo não vota em quem o Roberto Marinho, mesmo do além, quer que ele vote. Também não é um bando de mortos de fome comprados pelo Bolsa Família. As elites políticas dirigentes jogam no povo a culpa pela falência dos seus próprios projetos. Apresentam projetos que não respondem minimamente aos seus anseios, e querem ser eleitos. As pessoas, e eu já disse isso várias vezes, votam de maneira geral segundo a percepção do que é o seu melhor interesse.Se querem vencer o PT, pelo menos tentem fazer isso com um projeto melhor, e não apresentando um pior.

Mas o problema real não é esse. Não se trata de uma disputa de projetos. Como muito bem lembrou Luis Antonio Simas, em sua declaração recente de voto, a primeira Constituição do Brasil republicano proibia analfabeto de votar, sem obrigar o Estado a prover alfabetização. A falência social brasileira não é um acidente, é um projeto mesquinho e deliberado de país, sem cidadania e com muita, mas muita exclusão.

O que essa classe média (generalização, eu sei) histérica e golpista mais se ressente do PT é justamente aquilo que ele fez de melhor. Um projeto social e histórico gerador de cidadania, em um país que ainda se ressente da Lei Áurea. O idílio dessa classe, o seu paraíso perdido, é um Brasil de sobrados e mucamas, no qual ela podia se portar como elite, mesmo não sendo. O tamanho dos apartamentos, a disponibilidade de empregadas domésticas e a fartura material eram a tradução de uma vida de nababos, desconhecida para os seus equivalentes europeus, japoneses ou americanos.

Talvez a maior bronca dessas pessoas com o PT seja o fim do trabalho doméstico escravo. Aquela empregada que “dormia no serviço”, ou seja, morava em um cubículo em um colchão fedendo a urina, ganhava uma miséria sem direito algum e, quando jovem, ainda poderia ter “outras utilidades” (alguém se lembra das declarações saudosistas do Roberto Freire quanto às perspectivas de perda da virgindade no quarto dos fundos, no melhor estilo sinhozinho?),não existe mais. A primeira lei que regulou o emprego doméstico foi de iniciativa do PT, aprovada ainda no governo FH. Mas a mudança mais efetiva veio mais tarde, com as transferências de renda, com o aumento do salário mínimo e, principalmente, com a multiplicação do emprego de qualidade, que tornou cada vez mais difícil encontrar alguém disposto a aguentar as condições senhoriais de semiescravidão do emprego naqueles moldes. Também sou de classe média, e fui criado com alguns desses requintes (não os sexuais). A diferença é que não sinto saudade nenhuma desse país mesquinho e aviltante. Sou um pai solteiro e, nos períodos com a minha filha (que graças a Deus são muitos e longos), eu a crio basicamente sozinho. Sou eu que lavo a roupinha dela, que faço a comidinha e, surpreendentemente, até agora nenhum dos dois morreu por causa disso.

O projeto do PT, no entanto, tem infinitas limitações. Até o momento, não se pode sequer falar na criação de um Estado de bem-estar social à brasileira. Esse Estado pressupõe a universalização da educação e da saúde de qualidade. Não adianta nada ter acesso à saúde e ir ao hospital e morrer. Não adianta ter acesso ao ensino e ir para escola e continuar burro. Está mais do que na hora de valorizar profissionais dessas áreas, via salários dignos e cursos de aperfeiçoamento e qualificação de verdade (essas capacitações picaretas à distância não servem para nada).

Já que o modelo do partido, ao que tudo indica, é reformista, e não revolucionário, está na hora também de peitar esse Congresso retrógrado e impor a tão falada reforma política. Para o pessoal que lê Veja, que fique claro: não se acaba com corrupção antes de acabar com a “impunidade parlamentar”, por exemplo. É completamente fora da ralidade e ridículo tratar esse problema como exclusividade do PT e querer bani-lo sem mexer minimamente nas estruturas por trás disso. Isso sem dúvida é uma briga grande. Está mais do que na hora também de investir em um modelo de comunicações descentralizado e democrático, que seja alternativo aos oligopólios atuais, nas mãos das mesmas famílias desde Samuel Wainer, com a distribuição de vultosas verbas de propaganda governamental para esses grupos. Precisamos urgentemente de uma mídia que defenda os interesses da população, e não os projetos eleitoreiros e partidários de candidato X ou Y.Ninguém com um pingo de crítica aguenta mais esse jornalismo que briga todos os dias contra os fatos e que não se responsabiliza pelos prejuízos que causa à vida das pessoas.

Enfim, o Brasil mudou muito, e para melhor, mas ainda está tudo errado.

Links

Esse aqui, eu nunca entendi ser levado a sério por alguém:

http://www.youtube.com/watch?v=vSDMfbQHdXs&sns=fb

https://www.facebook.com/video.php?v=890529974304460&fref=nf

Nesse vídeo, do mesmo programa, Alberto Carlos Almeida descadeira o antinordestinismo descarado da “alta intelectualidade jornalística” da Globo (observação: esse cientista político se define como conservador e dirige o Instituto Millenium, ligado ao Grupo Abril). Curiosamente, ele afirma algo mais ou menos como o que digo há anos, e repeti aqui: as pessoas votam a partir do seu melhor interesse:

http://www.youtube.com/watch?v=yo60gFRceeg

http://noticias.band.uol.com.br/eleicoes/2014/100000716384/barbie-fitness-ataca-pt-com-palavroes-sou-rica-vou-para-orlando.html?mobile=true

É possível encontra vídeos de petistas falando todo tipo de asneira, mas a imbecilidade dessa pessoa merece registro, pelo caráter ilustrativo do que foi dito ao longo deste artigo:

https://www.facebook.com/video.php?v=10152720520400813&set=vb.677745812&type=2&theater

Depois da repercussão compreensivelmente negativa do vídeo anterior, a jornalista e autointitulada “Barbie Fitness” trouxe até a ama de leite para ter respaldo:

https://www.facebook.com/video.php?v=10152721776815813&set=vb.677745812&type=2&theater

Aqui vale a premissa anterior: também é possível fazer um vídeo equivalente de petistas falando merda. Mas, ainda assim, acho difícil bater esse pessoal aqui…

https://www.youtube.com/watch?v=zb9_4yRJsvY

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