Vidas Secas, versão séc. XXI

Pra mim, a personagem mais tocante da história da literatura brasileira.

Pra mim, a personagem mais tocante da história da literatura brasileira.

Não sou nenhum especialista em Graciliano Ramos ou em sua obra, diferente de nossa colunista Aline Silva. Minha relação com o Graça é apenas de apreciador devotado. Mas, humildemente, sigamos. “Vidas secas” é o quarto romance de Graciliano Ramos, publicado em 1938. É sua obra mais popular e prestigiada, sendo um dos pilares da literatura do chamado “Ciclo das secas”, da geração da prosa regionalista de 30, tendo por principais coprotagonistas Jorge Amado, Rachel de Queiroz e José Lins do Rêgo.

O papel desses autores foi monumental. Foram eles que inscreveram o Nordeste na pauta cultural brasileira. Em que pese “Os sertões”, de Euclides da Cunha, até então, a região não mal era sequer merecedora de menções em nossos registros literários. A partir deles, a região torna-se cenário e, mais que isso, palco de atuação efetiva dum perfil de brasilidade sempre relegado ao esquecimento, apesar de pretéritos ilustres nordestinos: Gregório de Mattos, Gonçalves Dias, José de Alencar, Castro Alves, dentre outros tantos…

“Vidas secas”, possivelmente, é dos romances mais lidos em escolas, ainda hoje no país. E é justo e esperável que assim seja. A um só tempo, é uma denúncia poderosa dum estado de coisas e insustentáveis e incompreensíveis injustiças sociais que insistem em perdurar, aparentando atemporalidade crudelíssima e um retrato (des)(h)umano desolador. As vidas ali retratadas centralmente são mais que secas, são ressequidas, áridas, embrutecidas ao vão vento agreste. Não é aa toa que a personagem mais humana, humanizada e humanitária do romance é a inesquecibilíssima cachorra Baleia, que sonha até com um mundo e uma vida melhor.

vidas-secas

O que me interessa é o homem, e homem daquela região aspérrima. Julgo que é a primeira vez que esse sertanejo aparece em literatura. (…) Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão, observar a reação desse espírito bronco ante o mundo exterior, isto é, a hostilidade do meio físico e da injustiça humana. Por pouco que o selvagem pense – e os meus personagens são quase selvagens – o que ele pensa merece anotação. (…) A minha gente, quase muda, vive numa casa velha de fazenda. As pessoas adultas, preocupadas com o estômago, não têm tempo de abraçar-se. Até a cachorra é uma criatura decente, porque na vizinhança não existem galãs caninos.” (Graciliano sobre seu próprio romance).

 

Fabiano, Sinhá Vitória, o filho mais velho, o filho mais novo (tão desumanizados que sem nomes) e a irresistível Baleia vivem juntos todas as agruras limítrofes da vida, em plena escassez de tudo que se possa imaginar, talvez, principalmente, afagos humanos, carinho e acolhimento. Eis a dimensão concreta da secura dessas vidas desvividas. Inclusive, a linguagem usada no romance, crua e direta sempre, metaforiza esse estado de viver.

"Os retirantes", Cândido Portinari (1944).

“Os retirantes”, Cândido Portinari (1944).

Quase 80 anos depois de “Vidas secas” e 112 anos após “Os sertões”, de Euclides da Cunha, parece que ainda é preciso incluir o Nordeste e a sofrida realidade herdada de gerações miserabilizadas no roteiro daquilo que é necessário neste país, em termos de execução e de compreensão. Na verdade, não sei se foi o intento do comunista Graciliano- aprisionado por essa condição política na ditadura Vargas, donde advém sua obra “Memórias do cárcere”, póstuma de 1953- mas também pouco importa, já que a realização artística não é o que o autor quis dizer, mas o que se pode dela dizer, a partir de seus elementos estéticos, contextuais, discursivos, o fato é que vidas secas também eram as do que se encontravam cegos, surdos e mudos a todo o quadro de sub-humanidade exposto a ferro e fogo em nosso país, como se isso não lhes dissesse respeito. A diferença, pro bem e pro mal, é que, hoje, Fabiano e sua família teriam bolsa-família.

O Nordeste consagrou-se em alguns aspectos de nossa cultura ao longo do séc. XX, como, na caricatura regionalizante, na culinária, em aspectos ainda perifericamente musicais, no turismo predatório, de variadas manifestações. Contudo, não conseguiu respeito. Nem mesmo a intempérie democratizante da seca em São Paulo- e a se espraiar pelo país, como já se dá em várias partes do mundo há décadas e décadas- parece trazer a humanidade aa baila, aa flor da pele desidratada. As vidas continuam secas, ressecadas, ressequidas, em pleno séc. XXI, de quem sofre e de quem ignora e espezinha o sofrimento, sem se reconhecer como brasileiro, desde sempre, e nem ao menos como igualado na privação.

Isso sem levantar que, no Nordeste, desde antes de Antônio Conselheiro em Canudos, a seca é um drama de agruras muitas, em que pese o menosprezo de toda uma nação. Ao passo que a estiagem aguda em São Paulo mobiliza clamores, lamentações, medidas de emergência urgentíssima em nível nacional e, claro, muito ódio putrefato e enojante. É isso. A vida dum paulista/paulistano, na prática, vale mais do que dum nordestino. Como bem observou o deputado estadual reeleito pelo Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, sequer existe a palavra “sudestino”. A dominância nunca precisa ser assinalada. Marca-se o “diferente”. É assim na língua e na cultura em geral. Dia da mulher, Dia do Índio, Dia da consciência negra, dia do trabalhador. Quem domina tem todos os demais dias, sem necessidade de efemérides, de homenagens, até pra não se chamar atenção pra essa dominância.

Não. Não é o Nordeste. É São Paulo.

Não. Não é o Nordeste. É São Paulo.

Em pleno séc. XXI, ainda temos tantas vidas a dessecar, antes que dissequem em si mesmas, na aridez do mundo que insistimos em manter… E, infelizmente, falta Baleia neste mundo. Vivemos secos por democracia, por justiça, por humanidade. Vivemos, ainda, tempos de secura.

graciliano_ramos

O velho camarada Graça.

Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer

GRACILIANO RAMOS
(Quebrângulo, Alagoas, 1892 – Rio de Janeiro, 1953)

Graciliano Ramos: (João Cabral de Melo Neto)*

 

Falo somente com o que falo:

com as mesmas vinte palavras

girando ao redor do sol

que as limpa do que não é faca:

 

de toda uma crosta viscosa,

resto de janta abaianada,

que fica na lâmina e cega

seu gosto da cicatriz clara.

 

***

 

Falo somente do que falo:

do seco e de suas paisagens,

Nordestes, debaixo de um sol

ali do mais quente vinagre:

 

que reduz tudo ao espinhaço,

cresta o simplesmente folhagem,

folha prolixa, folharada,

onde possa esconder-se na fraude.

 

***

 

Falo somente por quem falo:

por quem existe nesses climas

condicionados pelo sol,

pelo gavião e outras rapinas:

 

e onde estão os solos inertes

de tantas condições caatinga

em que só cabe cultivar

o que é sinônimo da míngua.

 

***

 

Falo somente para quem falo:

quem padece sono de morto

e precisa um despertador

acre, como o sol sobre o olho:

 

que é quando o sol é estridente,

a contrapelo, imperioso,

e bate nas pálpebras como

se bate numa porta a socos.

*[In: Melhores poemas de João Cabral de Melo Neto. S. Paulo: Global, 2003. p. 167]

 

P.S.: terei que passar um tempinho com publicações mais espaçadas. O momento derradeiro do doutoramento está dado. Possivelmente, precisarei passar o mês de novembro, pelo menos, afastado de publicações no blogue.

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