Onde mora a sua mente ?

Leio que transtornos mentais afetam 30% dos paulistas e que este índice é resultado de uma pesquisa realizada pelo Hospital das Clínicas de Medicina da USP, publicada em Public Library Science na segunda semana de fevereiro de 2013. O que equivaleria dizer que se você estiver numa roda com cinco paulistas, um ou dois tem algum tipo de sofrimento mental. Pode ser você ?

Há uma disputa acontecendo do mundo, de que pouco se fala. Há uma crescente produção de remédios para aliviar o ” sofrimento mental” mas, na mesma proporção, crescem os questionamentos sobre os critérios que estabelecem e mensuram os chamados transtornos mentais. Minha tendência humanista é ficar ao lado de pessoas que declaram que só passaram a viver de verdade quando as drogas as livraram dos terríveis sintomas da esquizofrenia, da DDA, da depressão, e outros sofrimentos mentais resultantes de desequilíbrios bioquímicos cerebrais. Mas também não posso deixar de concordar com dezenas de especialistas que falam do abuso de prescrições e diagnósticos em pessoas cujos sintomas podem ser semelhantes mas cujas causas passam longe de qualquer disfunção química do seu cérebro .

No âmbito de uma pesquisa com lesionados cerebrais que participei, há muitos anos, recebi uma definição de “mente” do jovem N., da qual nunca me esqueci. Depois de um acidente de bicicleta, aos 17 anos, N. tinha distúrbios que costumam acompanhar os “frontalizados”, isto é, pessoas que sofreram lesões na região frontal do cérebro, região privilegiada das atividades cognitivas relativas à auto-censura e à compreensão de algumas figuras de linguagem como a metáfora. Minhas mais caras memórias deste trabalho incluem dois desenhos produzidos por ele, com intervalo de um ano que testemunham os efeitos de sua recuperação, bem como alguma empatia comigo, sempre recíproca. Por isso, não era raro mantermos conversas informais ao final das sessões de trabalho, em meio a um amplo gramado, enquanto não o vinham buscar. Num destes dias ele insistia em tentar listar quais eram as dificuldades específicas que o impediam de tornar a um bom aproveitamento escolar e apontava a cabeça: “ É que eu tenho problema no monitor, né?”. Fiquei intrigada. Afinal, não era comum que ele conseguisse produzir uma metáfora. Quis saber como é que ela tinha surgido. “ Alguém falou que você tem problema no monitor?” perguntei. Ele repetiu “ Ah, não mas você sabe, eu tenho problema no monitor do computador- disse apontando de novo a cabeça- por isso estou aqui”. Perguntei a ele se sabia como funcionava o computador. Me explicou : a gente escrevia no teclado as coisas que iam pra dentro da torre, depois a gente via tudo no monitor. Surpresa e satisfeita achei que podia corrigir um pequeno engano. “ Ah, bom” eu lhe disse “ então você quer dizer que está com problema na torre, certo?”. Não, ele insistiu, eu tenho problema no monitor. Fiz uma recapitulação dos termos insistindo que se ele estava falando de si mesmo como se fosse um computador, tinha de imaginar a si mesmo como um computador: havia as informações que entravam pelos olhos e ouvidos, como no teclado do computador, havia o que ele comunicava com palavras e gestos, que no computador correspondia ao monitor e aquilo que se passava “ dentro” dele, invisível para os outros, como no computador, aquilo que a “ torre” fazia. Então a mente só podia ser a torre – o HD do computador. Não, ele me disse, no computador, a mente é a torre mas com a gente é diferente. Achei que tinha apanhado o problema e seria capaz de levá-lo a retificar-se. “ Pois então, a mente não está dentro da sua cabeça? Então a sua cabeça é a torre”. Ele teimou. “Não, aqui é o monitor”. Sua convicção era tão forte quanto a minha mas tentei convencê-lo ainda uma vez “ Ok, mas então onde está a torre, a mente das pessoas?” . Ele sorriu satisfeito e, num gesto largo, apontando o espaço ao redor me respondeu, como se fosse o óbvio “ A mente está em toda a parte!”.

Na potência poética da sua declaração pensei que se poderia ler a definição de uma questão fundamental para as ciências cognitivas. A inteligência, a linguagem e toda a capacidade humana de simbolizar é um atributo de cada cérebro até que ponto ? Como dizia minha querida amiga e professora Dra. Edwiges Morato, o cérebro é individual mas a sua plena potência só se realiza entre outros, com os outros e para os outros. Não foi isso que N. tinha sintetizado em uma frase ?

Certa vez, na Amazônia, numa daquelas conversas que trocamos em viagens com quase desconhecidos que nunca mais veremos, um antropólogo me reportou haver uma tribo no extremo norte do Brasil – cujo nome esqueci, infelizmente – que não registravam a noção de corpo individual em sua língua. Não havia palavra para designá-lo. Me dizia como era curiosa também a maneira como esta tribo lidava com a doença. A pessoa, ao se sentir doente, era levada ou se dirigia ao pajé levando uma pedra que alguém ou ele próprio recolhera na mata. Reunida toda a tribo realizavam-se atos rituais por e para todos os membros .A ausência da palavra corpo não me pareceu tão estranha ouvindo o relato de tal radicalidade do sentimento solidário na doença. Até pergunto se haveria alguma necessidade da palavra solidariedade para tal tribo. Como me pergunto se 3 entre 7 paulistanos necessitaria de drogas para suportar o dia a dia, fosse outra a forma de organizarmos a nossa sociedade.

Penso na metáfora de meu jovem amigo e penso que se o nosso redor é espelho da nossa mente, não é de se admirar que muita gente esteja pirando. Mesmo sem ver, com seus próprios olhos, as centenas de rios e represas secas do estado, as áreas rurais extensas cobertas de cana de açúcar, monocultura que já provou no passado seus poderes de desertificação. Há gente, decerto, que nunca acreditaria que seu horror “ao outro”, seu racismo ou xenofobia, são espelho de cidades construídas e mantidas sob a lógica do apartheid onde, pobres e negros, nordestinos ou não, tiveram sempre seus espaços de moradia e lazer bem definidos – e distantes- dos olhos de brancos e ricos, paulistas ou não. Nunca acreditariam que sua insônia ou ansiedade, tem algo a ver com o fato de que para continuarem vivos a ordem é:” corra e vença a corrida- ou morra” mas, grande parte do tempo, a maioria está mesmo é estacionada em congestionamentos onde todos se acotovelam tentando fazer o mesmo.

Seja como for, eu, que não sou lesionada cerebral e não uso droga psicoativa alguma para dormir, acordar ou atravessar os dias, apenas sonho, de olhos abertos, com uma sociedade livre de tanto sofrimento mental. Embora no outro dia, isto tenha causado a suspeição de que sofro de transtornos mentais. Uma mulher me contava sobre suas dificuldades de sono e os pesadelos constantes e então eu lhe disse – mais para aliviar a barra da conversa- que raramente lembrava dos sonhos durante o sono mas acordada sonhava muito. E completei, sonho sobretudo com uma sociedade onde cada um dê segundo a sua capacidade e receba segundo a sua necessidade. Falar a verdade verdadeira, ela não apenas suspeitou que eu tivesse algum transtorno mental. Foi taxativa e cravou o diagnóstico sem vacilar : credo, você está louca !

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Onde mora a sua mente ?

  1. Lourdes Campos

    “Benditos os loucos porque eles herdaram a razão” Glauber Rocha…
    Lindo Ana, obrigado pelo prazer de ler algo assim tão lúcido…e saber q vale continuar essa vida louca de achar q pode ser melhor, bem melhor.

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