No meio do caminho tinha um buraco

Maria acordou mais cedo e, como sempre, com a agenda cheia. Hoje há o acréscimo de tarefas esquisitas. Há que reunir documentos e grampear papéis, fazer assinaturas e declarações, juntar monturos de registros inúteis, pagar pedágio às pedras, pedir passagem com humildade. Conferência obsessiva para evitar voltar atrás por causa de alguma vírgula. Sapatos confortáveis, transportes coletivos, não vá ficar presa no gargalo do Vale vendo o tempo escoar pela janela.Anda, anda, parada, parada, parada, salta, anda, crachá, elevador, ufa.

Por ora, declara a assessoria contábil, administrativa e rabular, está tudo certo. Então por que não aproveita e adianta aquela outra assinatura, livrando-se logo disso? Parece uma boa ideia. Envia email, telefona, mais um papel assinado que não pode ser digitalizado pois tem que estar de corpo presente antes de ser enterrado. Calcula : pelo corredor de ônibus faz um bate volta mais rápido que o tempo de localizar um motoboy. Parte em busca da última fronteira, a última flor do buquê para as traças. Parada, parada, parada, salta, anda, anda, crachá, sobe elevador, desce elevador, crachá, rua.

Toma um táxi de volta mas agora, na assessoria perguntam se recebeu o email. Não – ela diz – estava em trânsito. Muxoxo para o androide, essa porcaria não funciona, compra logo um aifone-número-sei-que-lá, minha senhora. Ok, aqui está o papel. A senhora não entendeu. O email era para avisar que os planos foram mudados então o funcionário avisou que é para ir pessoalmente. Eu mesma, a minha pessoa ? Sim, sim, a ordem é essa. Desce elevador, devolve crachá, anda, anda, pega crachá, sobe elevador. Bom dia. Aqui está a papelada, tudo certo ? Ah, só falta uma coisinha, o email, etc., etc.. Desce elevador, devolve crachá, busca documento, impressão, o diabo, anda, anda, elevador, crachá, elevador, crachá. Pronto. E agora, tudo certo? Por hora tudo certo, qualquer problema, avisamos !

Ir em frente ou dobrar à direita? O relógio não para, o almoço já era. A geometria ensina que a menor distância entre dois pontos é sempre reta. Exceto quando há guarda-corpos fazendo barreira para montagem do palco. É comum haver festa por ali mas o espaço é enorme, por que não deixaram uma passagem ? Homens- postes de preto, não perguntam e não respondem, só ordenam que se dê a volta. Sobe pelo jardim mas o muro continua até perder de vista, idiota subir o morro pra voltar ao ponto de partida, Volta atrás enquanto os dígitos do relógio avançam. Como é que se sai desse labirinto ?! Está bufando, está suando para a diversão dos homens de negro e walkie talkie. Mais de 100 pessoas já reclamaram, minha senhora, deviam mesmo ter colocado uma placa aí ensinando por onde ir. Não se mexem enquanto ela continua em marcha acelerada, contornando, saltando muros e enfiando o pé em buracos, até que um deles agarra seu pé com vontade. O garoto, de boné e músculos largos, não apoia, não ajuda mas tem boca pra gritar :

– Olha aí a dona Maria que quase caiu de boca !

E ri e ri com vontade.

Maria, sozinha no asfalto, sem cidadania pra se encostar, nua como bicho do mato, sem cavalo branco pra fugir a galope.

Maria, e agora.?

E se Maria gritasse, e se Maria chorasse e se a Maria chutasse todos os burocratas, seus homens-postes de preto e seus excelsos patrões, obrigando a provar toda hora que é uma simples Maria porque suspeitam que sua boca mente quando diz que ela é ela e pensam que suas declarações não são expressão de sinceridade. E se a Maria empilhasse todas as fotocópias de documentos, ao longo da longa vida e essa torre chegasse à altura do Edifício Itália ? E então, se ela fogo ateasse e  com força de ódio soprasse, desejando que as labaredas se alastrassem até incinerar todos esses facínoras?

E se a Maria xingasse ? Xingasse nomes cabeludos, de fazer caírem os dentes de quem criou estes ritos vazios?

Mas ela não xinga. Você é educada, Maria !

Sob a chuva fina, sem ter guarda-chuva, espera atrasada, o trem, o ônibus, o táxi – qualquer transporte – que a leve para longe. Aquele lugar que não existe.

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