Deus está morto

Deus-togado

Deus é brasileiro. Carioca. Anda de toga, transforma água em vinho, dirige e – dizem – joga búzios.

 

Nietzsche, ao decretar a morte da divindade, abriu-nos a oportunidade de criar novos e próprios valores, ofereceu-nos a liberdade para decisões próprias, baseadas em conceitos de justiça social e interesses coletivos. Enfim, independente da existência ou não do criador, deu-nos a chance de também sê-lo, de forma a recuperar a autoria de nossa própria vida.

Mas Nietzsche morreu. E sobreviveram os valores de divindades amorfas, mofadas e de privilégios sobre os outros mortais. Formaram-se panteões próprios, com suas próprias liturgias, em nome das quais tudo vale para o benefício dos seus eclesiásticos e de seu paraíso aqui mesmo nesta terra miserável.

E – permita-me, Augusto dos Anjos! – vivendo entre feras, os semideuses sentem necessidade igual de também ser fera. E nada como a bestialidade com poder. O Executivo transforma-se no operador de um jogo de salvação, no qual tudo é permitido em nome de sua religião partidária e de sua hegemonia dogmática.

Tal qual nos piores exemplos da crença televisiva-cristã (que pouquíssimo tem ligação com os ensinamentos do Rabi), enganam-se milhões de necessitados e aumentam-se avassaladoramente os dízimos. Santificam-se e beatificam-se heróis de guerras não travadas, cuja ética não é exemplo para ninguém.

Do outro lado da praça, o Legislativo em comunhão faz seus concílios buscando mais poder, mais influência, mais cargos. Santas negociatas. O pão nosso perde qualquer valor diante do pão deles mesmos. A família, sagrada, composta de homem e mulher, é conceito que só vale a pena ser protegido se for no interesse escuso das benesses do nepotismo. Inventam-se martírios para escandalizar a opinião pública e, até mesmo, em nome do deus cristão, propõe-se às escolas a paródia de Nietzsche: “Darwin está morto”.

Por fim, na praça dos podres poderes está a catedral desta seita politeísta, em que cada um é seu próprio deus permissivo às suas vontades. O Poder Judiciário tem a prerrogativa da justiça divina. Divinamente encarnada. Como nos “saudosos” tempos do absolutismo monárquico. Aliás, se as hordas fascistas que saem às ruas hoje tivessem qualquer conhecimento histórico, não duvido que sua tacanhez reivindicasse a volta do Feudalismo. Enquanto isso, todo poder ao Rei. Vivas.

E, como nas mais requintadas cortes – veja que o Judiciário ainda mantém até mesmo esta nomenclatura! –, desfila a nova-velha nobreza. Tupiniquim, por certo. Afinal, tudo por esta terra é antropofágico de alguma forma. Os barões, condes, viscondes e duques são títulos formalmente substituídos por promotores, juízes, magistrados, desembargadores e ministros. Uma renovação onomástica para preservar interesses oligárquicos.

Com um quinto de seus membros composto por indicações políticas, quase canonizantes, o Judiciário é o suprassumo dos interesses próprios. Julga-se quem quer, da forma como se quer, independentemente de seus “livros sagrados”. Tal qual a Bíblia, que permite a interpretação mais adequada aos interesses do reverendo, a Constituição e as leis em geral são lidas através da lente da proteção das conveniências idiossincráticas.

E assim, Nietzsche – coitado – morreu. Deus, por sua vez, desceu à terra natal, vestiu sua toga e resolveu passear pela cidade. Transformou água em vinho e deleitou-se. Pegou um automóvel dado por ele mesmo (era isso que dizia o adesivo) e ignorou a lei dos homens. Ninguém precisa de identidade para entrar no reino dos céus (mas precisa da carteira da Ordem para adentrar em qualquer tribunal, isto cá não é bagunça!).

Interpelado pelo mais reles mortal, teve de produzir prova de sua divindade. Ateus que guardam as leis sagradas mas querem aplicá-las aos isentos, aos brâmanes, aos da casta divinal. Ora, blasfêmia. Pecadora ignorante. Dizime-a. Se não fisicamente, imponha-lhe um dízimo. E que seja em todas as religiões, já que a mesma divindade já andou impondo as leis divinas nos jogos de Búzios.

Para isso existem os concílios e os conciliábulos. Ouvidos os santos, proclama-se a verdade contra Nietzsche: deus está vivo. E dirigindo alcoolizado. Atende pela alcunha de juiz de direito. Puna-se o descrente. Estes são nossos valores, nossas virtudes, nossas divindades terrenas. Dessa forma, nada melhor do que não se acostumar com a lama que espera a todos e seguir sendo ateu.

E que deus lhe pague.

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