Valeu, Zumbi!

Xangô

Perspectiva diacrônica

Estima-se que 35 mil pessoas habitavam o mais conhecido dos quilombos, o de Palmares, nos limites de Alagoas e Pernambuco, entre 1624 e 1654.  Abrigava mais de 10 comunidades de diversas etnias, protegidas por estratégias militares sofisticadas que chegaram a evitar por mais de 100 anos a invasão colonizadora, tanto portuguesa quanto holandesa. Constituía-se em espaço de resistência, reverenciando a cultura ancestral, organizando-se socialmente, abrigando negros fugidos, negros libertos e brancos pobres foragidos da justiça.

Seu primeiro líder, Ganga Zumba,  tornou-se notório por ter assinado um tratado de paz com o governador-geral da capitania de Pernambuco Pedro de Almeida. Há mudanças na visão dos historiadores quanto ao papel do líder negro nos quilombos: de manipulado ou traidor a conciliador, que buscava no tratado uma forma de garantir a preservação das comunidades.  O tratado prometia “união, bom tratamento e terra”.

Uma das condições do acordo era a de que Ganga Zumba e seus partidários passassem a habitar a região de Cucaú, distante 32 km de Serinhaé.  Versão antiga para algo que já conhecemos, com um pouco mais de estratégia política da parte colonizadora, como manda o figurino dos acordos não cumpridos. Dava-se, então, uma espécie de “acordo de remoção”. Os habitantes das vilas próximas rejeitavam a presença dos novos moradores. O quilombo viu-se dividido entre os apoiadores e os críticos do líder, que foi envenenado e sucedido pelo sobrinho opositor Zumbi, que contava então com 23 anos de idade.

Zumbi, capturado ainda criança numa incursão colonizadora no quilombo, foi educado por um missionário, que lhe ensinou português e latim. Aos 15 anos, retorna a Palmares. Chefe do exército quilombola e opositor do tio por conta da assinatura do tratado, Zumbi é alçado líder do grupo e torna-se um dos ícones da resistência negra, em especial, por NUNCA ter aceito qualquer tipo de acordo com os opressores.

Diziam que sua imortalidade, ou seu corpo fechado, favoreciam o triunfo, impedindo a vitória dos inimigos. Para mostrar que isso não passava de lenda, à captura de Zumbi, após ferido mortalmente por um de seus homens de confiança, seguiram-se a sua morte e degola pelas tropas portuguesas. Em 20 de novembro de 1695, sua cabeça foi exposta na capital recifense, numa demonstração de barbárie tão cara às autoridades desta terra desde sempre.

O líder da expedição que destruiu o Quilombo dos Palmares em 1695 foi Domingos Jorge Velho, bandeirante conhecido por ser ladrão de gado, degolador de índios e negros e integrante de uma “força policial colonial” não oficial, uma espécie de milícia da época.

Perspectiva sincrônica

Pesquisas do Mapa da Violência e do IPEA revelam que 39 mil negros são assassinados todos os anos no Brasil. Partiu-se da realidade da escravidão para a de homicídios de afrodescendentes na atualidade. A observação mais apurada voltada para a necessidade de políticas públicas que contemplem a população atingida, evitando o extermínio, em especial, de parcela considerável da juventude negra, enseja o estudo da Teoria das Abordagens de Atividades Rotineiras1. Tal teoria propõe o estudo não das características dos criminosos, mas das circunstâncias em que os crimes ocorrem.Estabelece que se pode denominar “ato predatório” a convergência no tempo e no espaço de três elementos: ofensor motivado, alguém predisposto a cometer um crime por algum motivo; alvo disponível, pessoa ou objeto que possa ser atacado; ausência de guardiões, aqueles capazes de prevenir violações.

É alarmante a constatação que, em relação à população negra, não raras vezes aquele que deveria agir como guardião se identifica com o ofensor motivado. Estão aí os autos de resistência para quem quiser saber, mortes causadas pela polícia sob alegação de resistência à prisão, expediente criado nos tempos da ditadura para justificar toda sorte de violência cometida no período. Um dos muitos legados não apagados da nossa realidade cotidiana.

Para ilustrar a situação dos homicídios entre a população negra e a não negra, segue gráfico publicado na pesquisa do IPEA de 2013 “Vidas perdidas e Racismo no Brasil”. Levando-se em consideração que o último censo demográfico do IBGE (2010) aponta pouca diferença quantitativa no total da população negra (97 milhões, o que inclui pretos e pardos) e não negra (93 milhões), pode-se verificar que a dimensão dos assassinatos de determinada parcela da população é uma realidade incontestável e urgente de políticas públicas a fim de evitar extermínio.

mortes

O dia é de festa, mas a comemoração é de resistência. Fica aqui o compromisso de cantar com mais alegria as culturas que nos representam e são hostilizadas e perseguidas numa releitura da tentativa de dizimação.

Zumbi, valeu!

1) COHEN, Lawrence & FELSON, Marcus. (1979), “Social change and crime rate trends: a routine approach”.American Sociological Review, 44: 588-608

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Categorias: Sociedade | Tags: , , , , , , | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Valeu, Zumbi!

  1. Flávia Belo

    Um menino negro de 12 anos que carregava nas mãos uma arma de brinquedo foi baleado por policiais nos EUA, há dois dias mais ou menos… no Brasil e fora dele… é triste ver a “humanidade” sucumbir diante do preconceito…
    Já tentei várias vezes clicar no gosto, tento me cadastrar, mas nunca funciona… como fa\ço pra me cadastrar? Ao menos compartilho no face e comento aqui sempre que leio e gosto muito! Obrigada por esse texto que nos faz relembrar nossa história e repensar nossa sociedade e seus valores!

  2. Aline Silva

    Olá, Flávia Belo! É uma lástima que a violência esteja por toda a parte, tentando legitimar preconceitos e voltando-se, com todo o furor, contra as populações já marginalizadas. Obrigada por poder interagir com sua leitura crítica. A opção “Gosto” só atende a blogueiros do wordpress. Para acompanhar nossas publicações, você precisa rolar a página e, na parte inferior direita, aparecerá “Atravesse o Transversos”. Cadastre seu e-mail ali e pronto. Seja bem-vinda.

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