A corrupção nossa de cada dia nos dai hoje

corrupção-3O Deus-mercado tem fome. De lucros. O Deus-mercado tem sede. De poder. E sua fome e sua sede condenam à miséria milhões de pessoas. Sua fome se alimenta da desnutrição de milhões. E sua sede deixa outras tantas milhões de bocas secas. O Deus-mercado tem pressa. Mas não tem pena.

Há uma vertente de estudos que considera as empresas como organismos vivos. Dentro desta metáfora, compreende-se que as organizações dependem de recursos vitais, como seres vivos. Alimentam-se dos lucros. Apresentam a necessidade de crescimento contínuo. São predadores naturais em um ambiente repleto de presas.

Obviamente, existem seus defensores, dentro da própria metáfora, que afirmam que a natureza vive em equilíbrio e que o mesmo ocorreria com o mercado. O famoso aforismo de que “o mercado se autorregula”. Eis o poço das ingenuidades em que vivem tantas boas mentes.

Na natureza um predador mata porque tem fome. E não mais. A natureza do capital não encontra limites. A fome é insaciável, o crescimento é um objetivo. Desta forma, não há qualquer freio, há apenas mercados em disputa, espaço a conquistar.

E, como se trata de sobrevivência, qualquer ação é válida. A luta por continuar vivo torna a ética um conceito maleável, quase descartável. E é assim que a corrupção toma parte no capitalismo. Não há como negá-la, pois faz parte da sua essência. É consequência natural de seu modo de organização produtiva.

Defender a liberdade de mercado como solução para enfrentar a corrupção é como defender a abolição de qualquer sistema judiciário para combater a violência. Empresas corrompem empresas, pessoas, mercados. A corrupção é uma das formas de sobrevivência do sistema, por isso é inerente e mesmo necessária a ele.

Quantos são os cartéis existentes aqui mesmo em nossas cidades? Dê um passeio pelos postos de gasolina de seu bairro e perceba que a “livre concorrência” não possui nem liberdade, nem concorrência. E o que dizer de trustes – que nada têm de confiáveis – que ganham chancela dos “órgãos de controle” e viram holdings que possuem quase a totalidade de seus mercados?

Quando algo incomoda, é o poder do suborno e a força de “mercado” que acabam com qualquer “concorrência”. A Coca-cola, quando se vê ameaçada por pequenas tubaínas, pratica claramente dumping e pressiona economicamente comerciantes locais a abandonarem a venda dos concorrentes. Assim, o “Abacatinho” em MG sumiu das prateleiras. Assim, o Guaraná Jesus virou um produto The Coca-Cola Company. O Deus-mercado agora tem seu filho entre nós.

A liberdade do mercado é a porta aberta à corrupção. Talvez por isso haja tantos órgãos de controle nos países com capitalismo desenvolvido. Mas, de nada adianta. Um relatório da Comissão Europeia revela uma “preocupação generalizada” com a corrupção, apontando custos de 120 bilhões de euros com condutas “irregulares” de empresas privadas e governos.

Nos Estados Unidos não é diferente. Sobram propinas, subornos, dumpings, cartéis, trustes nacionais e multinacionais. Raios privatizadores! Em prisões privadas estadunidenses – modelo defendido por muitos como fim do “abuso estatal” – ávidas por “clientes”, a consequência natural do capitalismo ocorre: juízes, agraciados com generosas contribuições empresariais voluntárias, condenaram cinco mil crianças, das quais duas mil foram submetias a internações e tratamentos, com administração de antidepressivos e outros medicamentos tão agressivos quanto aqueles usados em manicômios do século XIX.

No Brasil, a tropicalização existencial do capitalismo, com sua maior tolerância cultural, advinda de uma ética dúbia praticada em nossa sociedade, rende seus frutos escusos. Acusa-se o governo e a Petrobras de serem corruptos, quando, na verdade, a corrupção é parte integrante de todo o sistema. Incluindo o governo-defensor-do-capital e a Petrobras.

A “torcida” é que se prendam todos. Políticos corruptos, empresários e demais membros deste e de outros esquemas. Desde o início, por completo. Uma devassa é necessária. De maneira séria, não sobrariam mandatos na política nacional. Brasília, uma cidade-fantasma.

E, na defesa do indefensável, não é que surge exatamente o discurso do “agora se rouba menos”? Como se o fato de que alguém tivesse roubado mais inocentasse qualquer comportamento. “Ah, como está institucionalizado podemos administá-lo de modo aceitável.” Não, não é porque a corrupção é sistêmica que seus operadores não guardam responsabilidade.

Por isso o governo não está nem perto da inocência! É o governo que promove o cenário ideal para que isso ocorra. E é muito bem pago por isso, com doações de campanha que formam uma “corrupção legalizada”, na qual se compram diretamente o apoio e o programa de governo. Passando, claro, pela escolha de ministros e dirigentes de órgãos públicos.

Você não achou que votar na Dilma faria diferença na condução dos rumos do país, não é mesmo? Ah, achou? Puxa vida, esses dias devem estar sendo constrangedores para você…

O fato é que, quanto mais relações entre os interesses públicos e os privados, tanto maior será a corrupção. Licitações e controles pouco adiantam. Nem aqui, nem nos “paraísos” do capital. Claro que nossa impunidade ajuda a perpetuar o esquema, mas acabar com a corrupção é acabar com os interesses do capital. Decerto, pode haver corrpução também sem o capital. Contudo, não há capitalismo sem corrupção.

Relatório europeu sobre corrupção:

http://ec.europa.eu/news/justice/140206_pt.htm

Juiz que trocou crianças na cadeia por tostões:

http://bluenationreview.com/judge-sentenced-selling-kids-profit-prison/

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Categorias: Sociedade | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “A corrupção nossa de cada dia nos dai hoje

  1. Helio de Souza

    Infelizmente, não foi o mercado que gerou esse problema, mas sim o projeto de eternização no poder de um grupo composto de pessoas ressentidas com seus fracassos pessoais no nosso mundo real. Foi a consequência da privatização do estado e de sua principal empresa a favor desse nefasto partido. O mercado foi impedido, através das licitações viciadas, de determinar o melhor para o país. Análise muito descntestualizada.

  2. Equívoco Humano

    Pelo amor de Deus, este texto deveria ser a ode a inutilidade, primeiro que por livre mercado não se entende mais como mercado sem regulação desde 1930. Ninguém mais acredita na “Mão invisível” de Adam Smith há quase um século. Assim como a Planificação da Economia não deu muito certo também. Quanto a agora se rouba menos? Abreu e Lima foi orçada em R$ 2,5 bilhões e roubo já esteve em R$ 10 bi(400%), já se fala em R$ 20 bi(800%) e o número não para de crescer. Corrupção Intrinseca, papo furado não justifica absolutamente nada.

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