Direita e esquerda de leiga para leigos (introdução)*

canhoto

Pois é… Ainda hoje, é difícil ser de esquerda.

Para começo de conversa, você, que muito provavelmente escreve com a mão direita, é uma pessoa destra. De destro, temos a derivação destreza, habilidade de realizar algo. A maioria das pessoas é destra.

Se você escreve com a mão esquerda, lá vem todo um contexto bastante significativo. Você não é uma pessoa destra. É canhota. O canhoto é o tinhoso, o ardiloso, o fomentador de disputas, o cão. Em séculos passados, era comum que se tentasse forçar um canhoto a ser destro. Amarravam-lhe a mão dominante para aprender a desempenhar as atividades com a outra.

Observa-se, então, que no simples ato de escrever ou desempenhar quaisquer outras atividades manuais, havia não só uma predominância do uso da direita como também a tentativa de normatização, uma imposição sobre os corpos dissonantes.

Migrando para termos políticos, gostaria de traçar em linhas gerais o que, a meu ver, diferenciaria a direita da esquerda. Entenda-se que, como no caso das habilidades manuais, há uma predominância de determinado uso ou conduta naturalizada. A direita não só é maioria como tenta até hoje, de muitas formas, forçar a esquerda a “endireitar-se”. A esquerda continua sendo vista como representante do mal a ser evitado.

O que mais caracteriza a diferença de posicionamento entre a direita e a esquerda é a forma como enxerga o papel do Estado em relação às pessoas. Utopicamente, a direita acredita num Estado gerador de oportunidades acessíveis àqueles que lutam por ela. Utopicamente, a esquerda acredita num Estado garantidor de direitos fundamentais a todos os que fazem parte dele.

A partir dessas premissas, todo um conjunto de ideias vai se articulando com maior ou menor coesão, mas sempre estreitamente relacionado. Assim, a direita acredita no self-made man, admira figuras que possam ser tidas como ícones da ascensão social por meio de trabalho árduo e/ou da criatividade. Elogia o senso de oportunidade, de flexibilidade e de resiliência. Já a esquerda observa criticamente essa forma de ver o mundo, por considerar que não há igualdade de oportunidades em uma sociedade bastante demarcada por questões de ordem social, étnica e de gênero, entre outras.

A direita enxerga liberdade no capitalismo; a esquerda põe os óculos e só continua vendo opressão. A direita busca normatizar comportamentos. Daí, por exemplo, a tentativa de conceituar família como um núcleo baseado na “complementação biológica” entre homem e mulher, possivelmente gerando herdeiros, advindo daí a negação dos direitos a gays, lébicas entre outrxs.  A esquerda busca respeitar as diferenças. Para ela, há várias famílias constituídas com suas diferentes formações, bem como devem ser respeitadas as orientações afetivo-sexuais.

Para a direita, coadunada  com a mentalidade do self-made man, sucesso e fracasso são decorrentes de aproveitamento ou não aproveitamento de oportunidades, ambas ações de cunho estritamente individual, não sendo postas em discussão possíveis variáveis que  influam nos resultados. O sucesso é o elogio do excepcional. A esquerda com seus omatídeos enxerga na configuração do todo explicações para a situação vigente. Reconhece conquistas individuais. Questiona, no entanto, a legitimação social da exceção. Quer uma boa regra aplicável a todos.

Nesse bojo, várias discussões são travadas: descriminalização do uso de drogas, redução da maioridade penal, flexibilização das leis trabalhistas, política de remoções. Basta observar que tomada de posição menos leva em conta os pobres e estaremos diante de uma visão de direita. Não exatamente porque toda a direita seja rica. Muito pelo contrário. Mas, para legitimar as políticas de direita, são necessárias muitas pessoas pobres economicamente e/ou culturalmente.

A direita é direita desde criancinha. A esquerda se propõe à reeducação. A direita valida seus argumentos em senso comum. A esquerda busca análise histórica, dados comprovados, validação das hipóteses.

A direita é muito pouco contraditória. Expõe seus preconceitos, busca teses nas teorias religiosas dominantes. Pode dormir sossegada. A esquerda expõe-se a conflitos íntimos. Crescida numa sociedade predominantemente de direita, vê-se acachapada por questões de cunho moralizante em alguns lapsos. Toma conta de si mesma para não resvalar para aquilo a que combate. É um trabalho difícil. É colocar o intelecto acima dos instintos diuturnamente. É escrever canhotamente num mundo de destros.

* Não me considero especialista no assunto, mas senti necessidade de escrever algo que soasse esclarecedor diante de algumas perguntas que me fazem. Considero a possibilidade de continuar com o tema, explorando as várias discussões a que me referi no texto.

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Categorias: Política, Sociedade | Tags: , , , , , , , , | 8 Comentários

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8 opiniões sobre “Direita e esquerda de leiga para leigos (introdução)*

  1. anapaulavas

    Republicou isso em Ana Paula Vasconcellos da SIlva.

  2. Achei o texto tendencioso e não informativo. Queria deixar aqui meu Blog esclarecendo a bipolarização entre a política de Esquerda e Direita de forma neutra: http://www.esquerdaxdireita.blogspot.com.br/

    • Aline Silva

      Pois é… Deu para perceber muita neutralidade no seu blogue.

    • Lucas

      Não existe neutralidade nas palavras, amigo. Elas são, e sempre serão, um campo de luta ideológica (Bakhtin, Foucault, Chauí, Magda Soares, Ingerdore Koch… para você se informar um pouco).

    • Lucas

      Seu blog aborda pontos interessantes e com esquemas bem elaborados, MAS peca em umas definições. Ele traz a Direita como – liberdade econômica E social (errado!). A Direita é liberdade econômica E CONTROLE social (por isso critica o casamento civil gay e agrega grupos religiosos e militares). E você comete o mesmo erro em relação à esquerda: a Esquerda é controle econômico e liberdade social (é o inverso da Direita, amigo! Fácil, não?). Por isso a Esquerda apóia grupos sociais de “minoria excluída”, mas controla a economia onde pode. Particularmente, eu acho que o ideal é o equilíbrio entre as duas (Centro).

  3. Anonimoo

    achei o texto tendencioso, contudo sou leigo…

    • Aline Silva

      Ué! Em algum momento, eu disse que não tenderia para um dos lados? Basta observar a linha editorial do blog, Anonimoo.

  4. “A direita valida seus argumentos em senso comum. A esquerda busca análise histórica, dados comprovados, validação das hipóteses.”

    Alguém que diz isso não deve querer ser levado a sério.

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