Garis: espere pelas próximas greves

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Hoje, às 16 da tarde, havia sido marcada uma coletiva de imprensa pelos garis que encabeçaram a greve da categoria deste ano. Não é a primeira vez que a grande imprensa recusa um convite para aproximação com a sociedade e com os movimentos sociais. A coletiva era justamente para expor as insatisfações de uma importante categoria de trabalhadores e iria anunciar a possibilidade de novas paralisações que, como sabemos bem, vão afetar a cidade como um todo, mas ninguém apareceu, a não ser uma jornalista da rádio CBN, que chegou com certo atraso. Bem, na impossibilidade da coletiva, um dos organizadores da greve de março, conhecido como Célio Gari, concedeu esta entrevista exclusiva para o Transversos.

Transversos: Bem, Célio, vamos organizar essa conversa assim, vamos falar primeiro dos aspectos mais técnicos das reivindicações de vocês. Depois, vamos falar dos problemas com o sindicato, as perspectivas do movimento, para depois falar um pouco do seu dia a dia.
No ato de semana passada em frente à Comlurb, ouvi reivindicações por condições de trabalho que me pareceram muito graves. Havia algo sobre receber oito mudas de roupas por ano. Vocês recebem quantas mudas?

Célio: depende da gerência. Às vezes, o trabalhador só recebe duas, três.

Transversos: mas para vocês essa questão da roupa é crucial, por razões de higiene e de segurança.

Célio: sim, roupa para nós é EPI (Equipamento de Proteção Individual). Vê o que acontece: o setor de qualidade da empresa não funciona direito. Eu percebi que até no tecido do uniforme houve uma mudança, ele ficou inferior. O borzeguim (a bota de trabalho) também, ele descola com facilidade. Eles dão para o trabalhador um calçado de péssima qualidade. A gente precisa de um calçado mais resistente para a atividade que a gente exerce. As luvas também são frágeis. É um material que molha. Choveu, ela molha, e então fica ruim de você utilizar no outro dia, fica com mau cheiro. Também não é um material apropriado. E para receber outra luva, você tem que dar aquela para poder pegar outra. A gente percebe que os setores técnicos e de segurança do trabalho da empresa não funcionam direito. Não há uma fiscalização por parte dos técnicos de segurança do trabalho da Comlurb e nem tão pouco do próprio sindicato. Há reuniões dentro das gerências sobre a questão da segurança e sobre essas reclamações, que são sempre as mesmas, mas providências não são tomadas. Nós não vemos resultado.

Transversos: não há nem uma resposta, do tipo “vamos considerar o assunto”?

Célio: não, porque os assuntos são muito repetitivos, e você não vê a coisa funcionar. Este é um dos 25, 26 itens da nossa pauta de reivindicações.

Transversos: ainda neste aspecto bem técnico, há uma reivindicação pelo limite de 1.800 metros de varredura de rua, por trabalhador, que não é respeitado, chegando alguns garis a fazerem 5.000 metros. Como é que é feito o controle disso?

Célio: na verdade, trata-se de regularizar os 1.800 m. Eles não obedecem esse limite. Isso acontece porque falta mão de obra, e o trabalhador fica sobrecarregado.

Transversos: e quanto ao sindicato? O ato da semana passada, na Tijuca, foi para reclamar que o sindicato homologou as demissões, não foi isso?

Célio: veja o que acontece: depois da greve, no pós-greve, começaram as demissões. E elas continuam acontecendo, já são mais de cem demissões.

Transversos: mais de cem?

Célio: mais de cem. Nós fomos lá para cobrar um posicionamento do sindicato, saber se eles estão homologando, se não estão homologando, e eles estão deixando rolar. E eles estão deixando rolar porque eles têm um acordo, essa é que é a grande realidade, eles têm um acordo com a empresa, um acordo com a prefeitura, e não têm acordo com o trabalhador. O sindicato inclusive se colocou fazendo campanha para o PMDB.

Transversos: dê um exemplo de campanha que eles fizeram.

Célio: eles iam nas gerências pedindo voto para o PMDB. Eles faziam reuniões, ludibriaram as pessoas, prometendo até casas para que votasse.

Transversos: vocês fizeram aquela greve linda no início do ano, que atraiu pessoas de diversos campos dos movimentos sociais, que se juntaram ao movimento de vocês, com aprendizados para todos. Essa greve foi totalmente a contrapelo do sindicato. De lá para cá, a relação com o sindicato melhorou?

Célio: não, piorou, porque eles estão permitindo as demissões. Eu não vejo o sindicato ir à imprensa para divulgar que as demissões estão acontecendo. Eles não denunciam que o trabalhador está sendo oprimido. Eles não falam sobre a questão da Avaliação de Desempenho Individual, que se tornou uma fórmula de demissão. Ou seja, nós, na qualidade de trabalhadores, é que estamos fazendo o papel do sindicato de ir lá e reclamar para que não haja mais demissões, e para que os outros sejam readmitidos. Por exemplo, depois do ato, nós entramos lá para conversar com o sindicato, e o sindicato ignorou. Não se encontrava o presidente, não se encontrava o vice-presidente, nem o tesoureiro. Ninguém atendia telefone, só estava lá o primeiro-secretário. Nós perguntamos se eles sabiam da situação dos demitidos, e eles falaram que só sabiam de três, mas só naquele dia já haviam sido demitidos dois.

Representante do comitê contra a criminalização da greve: um sindicato assim se torna uma espécie de órgão do Estado. Ele não articula os trabalhadores. Ele não tem nenhum compromisso de classe, ele só assina a papelada.

Célio: é isso mesmo. O sindicato parece um órgão da Comlurb, ou da prefeitura. O trabalhador vai lá com a reclamação, e não acontece nada, não muda nada. A gente pediu para eles uma relação dos trabalhadores demitidos, porque a gente queria mostrar para a imprensa a quantidade de trabalhadores que haviam sido demitidos, e eles não tinham isso. Pedimos para eles uma tabela de referência: não tem. Perguntamos para eles o que eles estão fazendo: não sabem. Ali só tem derrota para o trabalhador, não tem vitória. Por isso os trabalhadores estão se organizando. Eles não têm compromisso nenhum com o trabalhador.

Transversos: e como está a organização de vocês agora?

Célio: a nossa categoria ainda não tem essa experiência de sindicato, mas estamos aprendendo na luta, e vamos fazer uma chapa para disputar esse sindicato. Nós já temos advogado, já estamos vendo os trâmites. Além disso, permaneceu a nossa união. Nós nos conhecemos, nós nos reunimos. Tiveram as reuniões no Parque Madureira, mas na verdade a oposição ao sindicato é generalizada, ninguém gosta dele, o gari não, o que há é um grupo com o qual eles sempre fizeram negociatas baixas para dificultar que o trabalhador fosse associado. E só quem é sindicalizado pode concorrer, e os sindicalizados são poucos e antigos, e muitos o abandonaram por causa dessa falta de compromisso do sindicato com o trabalhador. Eles já estão lá há três décadas, mas nós estamos nos organizando.

Transversos: e qual o próximo passo?

Representante: se não houver nenhuma mudança de quadro, já está sendo discutida uma operação tartaruga para o réveillon.

Célio: exatamente, se não houver um avanço, nós estamos discutindo isso aí, uma operação tartaruga, e o trabalho que era para ser realizado em 4 horas vai ser realizado em 10 horas.

Transversos: e para o carnaval, vocês têm planos de repetir aquela paralisação?

Célio: com certeza, com certeza. Nem que seja uma paralisação de 24 horas, 48 horas, porque eles não podem oprimir o trabalhador e o trabalhador ficar quieto. Tem que ter uma resposta.

Representante: também teve o problema de que o aumento não foi concedido para todos.

Transversos: e como foi isso de não ter aumento para todo mundo? Teve critério?

Célio: daí essa revolta toda. Então, o nosso acordo sempre foi coletivo, ele sempre se estendeu para todos os funcionários, mas desta vez, em virtude dos 37%, quem ganhou foi só o gari. O resto dos funcionários, motoristas, operadores, essas pessoas não foram contempladas. Mas isso é preocupante porque isso descaracteriza o plano de cargos e salários. Isso faz com que o trabalhador não almeje crescer na empresa, e como ele não almeja, fica uma lacuna, e essas lacunas são preenchidas com cargos de confiança. O plano de cargos e salários da empresa não funciona, ele foi criado, mas não em benefício dos interesses dos trabalhadores, mas dos interesses do governo. Vou dar um exemplo bem concreto: o filho do presidente do sindicato.

Representante: se não há ascensão, as pessoas entram pela janela.

Célio: exatamente, as pessoas trabalham dez anos, vinte anos, e não conseguem subir. São outras pessoas que entram, ou eles colocam firmas terceirizadas. Você vê aqui no Porto Maravilha, do Eike Batista, eles descaracterizaram completamente o uniforme do trabalhador. Eles usam um uniforme azul, que inclusive facilita acidentes, pois ele não se destaca o suficiente à noite. Tem encarregados deles (das empresas do Eike Batista) tomando conta do gari. A Comlurb parece que está fatiando, para esses empresários, por bairro. Começou ali, no Porto Maravilha. Depois vai para o Centro, Zona Oeste, vai dividindo, e, quando for ver, privatizou. Esta é uma grande preocupação nossa: a precarização do trabalho. As pessoas que não receberam o aumento estão insatisfeitas.

Representante: eles cometeram uma ilegalidade. Tem que procurar o ministério público e o do trabalho, que foi quem assinou o acordo coletivo.

Célio: sim, tem margem, quando a gente fez o acordo dos 37%, fez pensando que era para todo mundo. Agora, os trabalhadores estão sendo oprimidos. Quando a gente vai na gerência, ela diz que quem participar do movimento vai “levar justa causa”.

Transversos: a gerência então ameaça vocês. Isso é muito generalizado, é todo mundo?

Célio: é todo mundo. Eles avisam: “se participar, vai ser demitido”.

Representante: isso faz parte desse retrocesso. Tem agora uma lei tramitando proibindo paralização sessenta dias antes de eleição, ou seja: para não desgastar o governo em véspera de eleição.

Transversos: quais são as reivindicações que você considera as mais centrais hoje para a categoria?

Célio: o salário. A periculosidade, que o gari tem, mas outros setores não têm: vigia não tem, o pessoal do preparo de alimentos não tem. Nós queremos para todo mundo. Queremos a volta do triênio, a volta da licença prêmio. Nós queremos participação nos resultados, que é o décimo quarto salário, que hoje é burocratizado: se o cara tiver uma falta, não recebe, mas o nosso trabalho é um trabalho cansativo, nós queremos quebrar essa burocracia. Queremos que todos os trabalhadores recebam hora extra, porque nem todos estão recebendo. Queremos benefícios nesse sentido.

Representante: a política da prefeitura no pós-greve está sendo de manter a privatização, de demitir trabalhador concursado, por isso uma das reivindicações mais importantes é se tornar estatutário, para que isso não aconteça. Qual é a política de investimento da prefeitura para a área de limpeza urbana?

Célio: até onde eu saiba é o terceiro maior orçamento do município do Rio de Janeiro.

Transversos: você acha que o fato do PT ser parte da prefeitura de alguma forma beneficiou vocês? Alguém apareceu alguma hora para dar um aceno?

Célio: eu vou ser bem sincero com você: eu não tive, no movimento de greve, a oportunidade de ver o vice-prefeito, que é do Partido dos Trabalhadores, se manifestar a favor ou contra os trabalhadores. Ele ficou sentado na cadeira dele. Eu não vi uma atitude da parte dele. Eu esperava, nós esperávamos, sabendo que o vice-prefeito é do Partido dos Trabalhadores, uma intervenção da parte dele. Ele sendo do PT e vendo trabalhadores sofrerem, eu espero que ele interceda agora pelo menos nessa questão das demissões. Não é porque ele é vice-prefeito que tem que concordar com o prefeito em tudo.

Transversos: quando é a próxima assembléia de vocês?

Célio: agora a gente não vai ter assembléia, vai ter uma passeata dia 10/12, contra a privatização e para nos tornarmos estatutários. Concentração na Candelária às 16 horas.

Transversos: quais as doenças relacionadas ao trabalho que mais acometem os garis?

Célio: LER, muito problema de coluna (muito tempo em pé no caminhão, pulando para fora dele e voltando toda hora). Hérnia. Tem muito acidente também: atropelamento, queda de caminhão. O material vagabundo leva a cortes, especialmente as luvas, que geram furos nas mãos do gari.

Transversos: mas isso pode dar tétano, hepatite… você conhece casos?

Célio: não sei. Fazemos exames periódicos dessas doenças, mas os dados não são divulgados.

Transversos: como é o seu dia a dia? O que mais incomoda na profissão?

Célio: eu trabalho lá é no operacional mesmo, é lá no bruto. É caminhão, é varredura. Mas o que me incomoda é a falta de manutenção do equipamento, especialmente o terceirizado. É compactador que não funciona, contêiner quebrado, aí a gente tem que carregar nas costas. Isso prejudica ainda mais a saúde e o trabalho.

A página dos garis em luta no FB é: https://www.facebook.com/pages/Garis-do-Rio-de-Janeiro-em-Luta/591657917626734?fref=ts
Vale uma olhada para acompanhar o calendário e manifestar apoio.

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Categorias: Sociedade | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Garis: espere pelas próximas greves

  1. Anonimo

    uma pequena besteira: onde está “buzanguinho” deveria ser borzeguim.

  2. pauloffred

    kkkkk, valeu, eu não tinha “pego” a palavra na hora de transcrever

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