Dia Nacional do Samba!

arcos-da-lapa-heitor-dos-prazeres1898-1966-ost-1964-samba-nos-arcos-da-lapa

Samba nos Arcos da Lapa – Heitor dos Prazeres

COMO TUDO COMEÇOU…

2 de dezembro é o Dia Nacional do Samba!

E como não sou ruim da cabeça ou doente do pé, vim fazer minha homenagem…

Ao contrário do que grandes poetas desse gênero musical disseram, o samba não nasceu, exclusivamente, na Bahia… Eu sei, eu sei… Já tem gente quicando e aos berros! Muita hora nessa calma! Eu explico…

Em termos de registro histórico escrito, uma das primeiras referências encontradas por pesquisadores e folcloristas da palavra samba, foi na edição de fevereiro de 1838 da revista pernambucana O Carapuceiro. Um texto do Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama falando contra o que ele chamava de “samba d’almocreve”. Mas daí pensar que o samba nasceu a partir de um registro escrito… Não, certamente que não!

Rugendas-Lundu-Umbigada

Umbigada – Pintura de Rugendas

O fato é que no século XIX, samba definia vários tipos de músicas e danças ensinadas e praticadas pelos escravos, desde o Maranhão até São Paulo. Para entender melhor, basta que você imagine que o samba era o sobrenome de uma família de manifestações culturais, entre elas: o tambor de mina e o tambor de crioula do Maranhão; o milidô do Piauí; o bambelô do Rio Grande do Norte; o samba de roda e o bate-baú da Bahia; o jongo do Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro; o samba rural e o samba de lenço de São Paulo; o partido alto e o lundu do Rio de Janeiro. Conclusão? Nesse período não há uma definição clara, como gênero musical, do que era samba propriamente dito. Mas havia entre essas manifestações muitas coisas em comum como, por exemplo, o uso da palavra semba que é a umbigada  que se dá naquele que vai lhe substituir no centro da roda e apresentar sua dança. A tal umbigada veio das rodas de batuque de Luanda e outros distritos de Angola. Para os estudiosos está claro que a palavra samba é uma corruptela do termo semba, e se definiu como gênero musical urbano, herdeiro do lundu e da modinha e imbuído dos ritmos africanos, no início do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente na Cidade Nova e no Estácio (cariocas podem festejar! Rsrs).

Mas o que é da Bahia está guardado e, até o fim desse texto, dar-lhe-ei tal reconhecimento.

Mas antes de falar do Rio de Janeiro, vale uma observação… A palavra samba tem origem em Angola, mas para muitos estudiosos do tema é difícil estabelecer um consenso quando se trata de seu significado. No idioma umbundo, língua banta falada pelos ovibundos, semba é uma dança onde os bailarinos se aproximam e se afastam; em quimbundo, língua banta falada pelos ambundos, é a umbigada da qual já tratamos.

Voltando ao anos de 1900 e pouquinho…

Em 1913, Alfredo Carlos Brício gravou o samba, “Em casa de baiana” e em 1914, Baiano gravou “A viola está magoada”, este último, tornou-se versador da Deixa Falar alguns anos mais tarde. Porém ambas as gravações não fizeram sucesso. Então, em 1917, nos pagodes da casa da Tia Ciata, antiga rua Visconde de Itaúna nº 117, na Praça Onze , surgiu o samba “Pelo Telefone”, reconhecido como o primeiro samba gravado em disco. Você deve estar se perguntando: mas se não foi o primeiro, como pode ter tal reconhecimento? Acontece que “Pelo Telefone” foi justamente o marco que definiu samba como gênero musical urbano. Daí vem a tamanha importância dessa composição!

Além disso, a composição tem em suas raízes uma polêmica quanto a sua autoria…

O tema de “Pelo Telefone” foi baseado numa campanha criada pelo jornalista Irineu Marinho em 1913, através do jornal A Noite, contra o chefe de polícia do Distrito Federal, que na época era o Rio de Janeiro. A campanha acusava a polícia de ser conivente com os jogos ilegais que eram praticados em cassinos e nas esquinas de um certo subúrbio. As confusões e discussões por conta da campanha ganharam as ruas e terminaram se tornando tema de partido-alto na casa de Tia Ciata. A nata do samba frequentava os pagodes da Tia Ciata: João da Baiana, Pixinguinha, Caninha, Hilário Jovino, Sinhô e outros. Em 1916, Donga mudou a letra com a ajuda de Mauro de Almeida, o Peru dos pés frios, e registrou a propriedade intelectual do samba, através de sua partitura para piano, na Biblioteca Nacional. E então se deu a barafunda, e uma cisão entre os bambas foi inevitável! Entre um acusa daqui e outro reclama de lá, o samba chegou a ter várias paródias…

A confusão entre eles tomou várias proporções…

Sinhô em 1918 compôs o samba “Quem são eles”, numa provocação aos baianos que frequentavam a casa da Tia Ciata…

Mas recebeu o troco… Donga compôs “Fica calmo que aparece” como resposta. Hilário Jovino compôs “Não és tão falado assim”, mas a resposta mais famosa foi a de Pixinguinha com “Já te digo”.

Apesar de ser reconhecido como primeiro samba, “Pelo Telefone” era ainda um samba amaxixado, muito adequado para salões, mas essa qualidade de samba não atendia bem a necessidade processional dos blocos e cordões que desfilavam nos carnavais. Ismael Silva, muitos anos mais tarde, definiu muito bem esse contexto:

O samba da época não permitia aos grupos populares caminhar pela rua, de acordo com o que se vê hoje em dia. O estilo não dava para caminhar e dançar o samba. Eu comecei a notar que havia essa coisa. O samba era assim: “tan tan tantan tan tan tantan”. Não dava. Como é que um bloco ia andar na rua assim? Então nós começamos a fazer um samba assim: “bum bumpaticubumprogurundum”

Mas Sinhô, o Rei do Samba, não gostou nadinha dessa história de modernidade e deu um depoimento em 1930 sobre a evolução do samba com muita indignação:

A evolução do samba? Com franqueza, não sei se o que ora se observa devemos chamar de evolução. Reparem bem nas músicas deste ano. Os seus autores, querendo introduzir lhes novidades, ou embelezá-las, fogem por completo do ritmo do samba. O samba, meu caro amigo, tem sua toada e não se pode fugir dela. Os modernistas, porém, escrevem umas coisas muito parecidas com a marcha e dizem que é samba. E lá vem sempre a mesma coisa: “Mulher, Mulher, Nossa Senhora da Penha, Nosso Senhor do Bonfim, Vou deixar, A malandragem eu deixei.” Enfim não fogem disso.

DEIXA FALAR

Nos anos 20, o cenário do carnaval carioca era composto pelo desfile das Grandes Sociedades Carnavalescas compostas pela elite carioca com desfiles na Av. Rio Branco; pelos Ranchos, que eram compostos por membros das camadas populares e desfilavam, ao som da marcha-rancho, como “Abre-alas” e “Bandeira Branca”; e pelos Cordões. Os dois últimos desfilavam pelas ruas dos bairros cariocas e na Praça Onze.

bide deixa falar 2 - Cópia

Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Armando Marçal

Em 1928, surgiu a Deixa Falar, primeira escola de samba do Rio de Janeiro, apesar de nunca ter chegado a ser uma escola de samba como concebemos hoje. Ela se autointitulava escola porque ficava perto de uma escola pública do bairro e também porque Ismael Silva achava que seu grupo formaria professores do samba. O nome “Deixa falar” vinha de uma frase que ele gostava e repetia: “Deixa falar, nós também somos mestres. Somos uma escola de samba!”. Deixa falar foi primeiramente um bloco e depois passou a rancho, mas, quatro carnavais depois de seu surgimento, foi extinto. Em 1931, se fundiu a outro bloco, também extinto, o União da Cores, formando a União do Estácio de Sá.

Apesar de um fim triste, de ter participado apenas de quatro carnavais e de nunca ter sido uma escola de samba de fato, o Deixa Falar é reconhecido, tanto por sambistas quanto por pesquisadores do tema, como a primeira escola de samba. E é muito justo que seja assim, já que foram seus membros que inventaram essa designação, como eu já disse, que criaram o surdo (quem inventou o instrumento foi Bide, um dos fundadores do Deixa Falar, com latas de manteiga encouradas), que servia como marcação para o fim da apresentação do versador (um solista que improvisava numa segunda parte do samba) e a volta do coro durante o desfile, além de introduzirem a cuíca no samba.

Bom, mas e a Bahia?

Você se lembra do pagode na casa da Tia Ciata? Pois bem, um dos frequentadores era Hilário Jovino que esteve envolvido no entrevero sobre a autoria da composição de “Pelo Telefone”. Além disso, Hilário, que uns dizem ser pernambucano mas passou a vida na Bahia, e outros dizem que era baiano mesmo, quando chegou ao Rio foi participar de um rancho que saía no Dia de Reis no Morro da Conceição, mas logo se desentendeu com a turma que organizava. Resolveu fundar seu próprio rancho, mas optou por fazer algo diferente… Seu rancho foi o primeiro a sair no carnaval! O Rei de Ouros! Essa história mudou o cenário do carnaval carioca e é precursora da história das escolas de samba. Acho que podemos dizer que cariocas e baianos estiveram presente no nascimento do samba como gênero musical urbano, não é mesmo?

Outro dado importante: o Dia Nacional do Samba foi criado por iniciativa de um vereador baiano, Luis Monteiro da Costa, para homenagear Ary Barroso, que já havia composto “Na Baixa do Sapateiro”, mas nunca havia visitado o estado. Dia 2 de dezembro de 1940, foi a primeira vez que o compositor visitou Salvador.

Graças a Bahia, a comemoração e homenagem ao Samba se espalhou pelo país!

Anúncios
Categorias: Cultura, Sociedade | Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 2 Comentários

Navegação de Posts

2 opiniões sobre “Dia Nacional do Samba!

  1. Muito bom, mesmo, Música! Muito informativo e muito bem escrito! 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: