Ser ou não ser feminista não é a questão

Neste mundo demeudeus com datas marcadas para dar e vender, li na quarta feira que a de hoje marcava a luta dos homens pelo fim da violência contra a mulher. Hoje fui olhar o calendário oficial do país e acho que caí numa pegadinha. Resolvi manter a pauta. Não vai haver menos assassinatos de mulheres por seus companheiros por falta de efeméride e a polêmica sobre um professor universitário e sua correspondência privada com leitoras de seu blog bem o justificam.

Avisei no meu mural do face a data e também um relato de uma moça, que embora nada tivesse a ver com a tal polêmica, narrava fatos que em tudo tinham a ver com ela. Curiosamente não recebi nenhum “grato”, “valeu,  “flws” ou comentário de amigos do sexo masculino. Tentei não julgar o que isto poderia significar. No tempo da minha avó seria fácil concluir que quem cala consente. Mas os tempos são outros e os consensos se desmancham no ar como bolhas de sabão. O homem que não se manifesta pelo fim da violência contra a mulher consente marcar posição a favor desta luta? Ou consente em alguma violência contra a mulher? Não dá pra saber ao certo.

De certo e garantido, até onde a minha vista presbíope alcança, muita gente anda carente . Navegamos sobre ondas altas quase sem bússolas, em quase todos os campos da vida, individual ou coletiva, privada ou pública. Sofremos abalos diários em nossas certezas para o bem e para o mal – sem sequer saber ao certo onde estão as fronteiras do bem e do mal. E assim temos ido, cercados de angústia na vida prática de todo dia onde agimos e produzimos realidades, estejamos certos ou não. Esta angústia é privilégio apenas dos que pensam, é claro, e pensando se perguntam quais os paradigmas morais e éticos valem mesmo a pena defender com unhas e dentes neste momento nada solene da História.

Pois seria mesmo estes pensantes que eu gostaria de seduzir para a luta do feminismo contra o patriarcado. Defendo sempre e o fiz também aqui no Transversos ( https://transversos.wordpress.com/2014/04/03/ja-fui-machista-eu-sei/) que machismo e feminismo são palavras que de tão usadas chegaram ao ponto de produzir mais ruído que clareza. Mas a palavra patriarcado que lhes deu origem e mantém acesa a guerra dos sexos, não por acaso, permanece oculta e bem protegida. Por isso tenho insistido que paremos ao menos por uns instantes de falar dos seus efeitos, o machismo e o feminismo, e tenhamos coragem de trazer ao centro da discussão a verdadeira questão.

Comecemos pela definição. Patriarcado é o sistema que definiu o Homem do sexo masculino como a autoridade máxima da sociedade e que tudo devia ser organizado e hierarquizado a partir disto. O patriarcado é uma construção histórica e foi ao longo desta construção que se forjaram as demais organizações e valores da sociedade. O patriarcado é uma ideologia e, como tal, domina todos os campos da existência, das instituições privadas às públicas, da esfera particular a todo o modo de existir no coletivo. A ideia começou simples. No topo, o líder com poder sobre toda atividade no território do pagus, a aldeia e sob seu comando os demais homens que, por semelhança e interesse na mesma função detinham o mando daquilo que o líder não alcançava: os escravos, as mulheres e as crianças. Simplifico grosseiramente, está certo, mas no fundo é isso. O patriarcado organiza politicamente a vida pública e privada há milênios segundo esta rígida pirâmide. A divisão social do trabalho, como os sujos e pesados para os escravos e cuidados de alimentação para as mulheres, não alteram nada. As exceções históricas não desmentem a regra e nem abalam seu poder . Mulheres protagonistas da política na Idade Média, não por acaso, se disfarçavam de homens. Mulheres intelectuais no Renascimento – nada inocentes – adotaram pseudônimos masculinos. Mulheres foram admitidas à alta esfera do círculo do poder a partir do século XIV mas mesmo grandes líderes, como Elizabeth, cujo reinado promoveu uma verdadeira revolução social do Império Britânico, não alteraram o lugar ordinário da mulher na sociedade. Porque antes de ser mulher eram representantes do Patriarcado, algo que nesta altura parecia tão natural e certo quanto a Terra estar assentada sobre as costas de 4 tartarugas gigantes. Tão naturalizado quanto a crença de que os poderes e privilégios dos Reis e suas famílias vinham da graça e por desíginio de Deus.

O Patriarcado foi e é o que define que homens e mulheres devem ser submetidas ao domínio da ideologia do patriarcado e o devem reproduzir. Foi assim, desde sempre – é o que o patriarcado diz – e assim deve continuar. O patriarcado não acabou, nem se enfraqueceu ao ponto de dizermos que está próximo seu fim. Tudo que ele perdeu de poder sobre os corpos e consciências femininas foi o que o Feminismo arrancou dele. O Feminismo é, portanto, a mais longa história de desconstrução do poder de um ser humano sobre o outro. É uma saga ainda incompleta da luta de libertação de uma categoria de seres humanos e da transformação dos limites possíveis de suas funções sociais. O Feminismo é uma luta de libertação e merece respeito.

O Feminismo, sendo uma luta contra o patriarcado, está sujeita a todos os movimentos dele. Não devia surpreender que em meio à percepção desta enorme crise que a ideologia patriarcal produziu sobre o planeta também o feminismo seja arrastado à confusão e à desordem. Surpresa, para mim, é algumas pessoas bastante inteligentes e razoáveis acusarem alguma feministas de radicais. Entendam, meus amigos e amigas, elas não podem nem poderão nunca ser menos que radicais se quiserem transformar algo tão profundo como uma ideologia autoritária, violenta, discriminatória e hierarquizada como é a do patriarcado. Não se pode exigir que feministas se comportem de maneira uniforme e se movam como um exército organizado, controlado e hierarquizado sem que elas se tornem iguaia ao que elas mesmas combatem. Por isso, não se enganem. Enquanto as feministas estiverem errando por excesso de radicalismo estarão avançando.

Penso que homens não precisam se declarar feministas ou cerrar fileiras com organizações feministas para compreender benefícios potenciais de suas vitórias. Basta ter honestidade intelectual e avaliar os legados do Patriarcado e pensar se ainda vale a pena se bater por sustentá-lo.

Para encerrar, aproveito para recomendar um dos textos que me são mais caros quando o assunto é feminismo “ Um teto todo seu” de Virgínia Wolf. Escrito originalmente como palestra para um clube de senhoras, embora ampliado para a publicação é curto e ótima introdução ao “ Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir.

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Ser ou não ser feminista não é a questão

  1. Izabel Antunes Luz de Sá

    Obrigada Ana Souto.

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